Relógios que marcaram horas invisíveis e engrenagens simbolizando corpos transformados em extensão da máquina abriram espaço para um dos debates mais atuais do país na Marquês de Sapucaí. No desfile que inaugurou o Grupo Especial de 2026, a Acadêmicos de Niterói levou para a Avenida, dentro do enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, um recorte direto sobre a vida de quem enfrenta a escala 6×1. Na Ala 21, intitulada “Pelo fim da escala 6×1”, o tempo deixou de ser apenas alegoria e virou denúncia.

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Componentes da ala 21
Componentes da ala 21
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Com figurinos marcados por relógios e engrenagens, a ala materializou o debate sobre a redução da jornada semanal e o impacto da escala 6×1 na vida de milhões de brasileiros. A proposta estética trouxe uma pergunta: quem controla o tempo do trabalhador?

A reportagem conversou com componentes da alas diferentes: Denise Rosa, de 49 anos, professora de educação infantil, há cerca de cinco anos na escola; Jerônimo de Oliveira, 59 anos, segurança, com 12 anos de trajetória no Carnaval acompanhando a agremiação desde os tempos de Sossego; e Cristiane Maciel, assistente social e massoterapeuta, há três anos na Niterói.

O que representa desfilar em uma ala que pede o fim da escala 6×1?

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Denise Rosa, de 49 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Denise Rosa afirmou que a sensação é de fazer parte da história e contribuir para a mudança de uma realidade que já viveu. Ela contou que antes de se tornar professora trabalhou em telemarketing e em mercado, período em que enfrentou jornadas exaustivas.

“Eu vivi isso na pele e sei como é complicado. Estar nessa ala é lutar para que essa história mude para tantas pessoas. Fico muito feliz em ver um tema como esse sendo pautado”, comentou.

Jerônimo de Oliveira destacou que desfilar representando o próprio cotidiano é uma experiência profundamente emocionante. Segurança, ele encara diariamente a escala 6×1: “É pura emoção sentir que a minha realidade e o meu esforço diário estão sendo representados na Avenida. É como se a minha vida estivesse passando ali. Essa representatividade é importante demais para mim, com certeza traz um sabor especial ao meu desfile”.

Cristiane Mael relatou que já trabalhou na escala 6×1 e que, ao mudar a jornada, passou a ter mais tempo para a família e para si: “Representa muito para mim, porque eu deixava de conviver com meu filho, meu marido, meus pais. Hoje, tenho outra realidade e sei o quanto isso faz diferença. É sobre ter uma melhor qualidade de vida”.

O que simbolizam os relógios e o controle do tempo no figurino?

Para Denise, os relógios representam o controle rígido exercido sobre a vida de quem depende do emprego para sobreviver. “A gente fica à mercê de decisões que comandam a nossa vida. Precisando do trabalho, muitas vezes a pessoa se sujeita a tudo isso. Por isso, não vejo a hora de essa realidade mudar para que milhares de brasileiros possam ter mais tempo livre”, afirmou.

Jeronimo de Oliveira
Jerônimo de Oliveira
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Jerônimo avaliou que o símbolo é forte porque traduz a perda concreta de tempo de convivência e lazer: “Essa escala tira o nosso tempo de forma forte. Existem muitas coisas que eu gostaria de viver, momentos com a família, que acabam ficando pelo caminho por causa dessa jornada”.

Cristiane associou o controle do tempo à impossibilidade de cuidar da própria saúde. Ela relatou que, quando trabalhava sob a escala 6×1, não conseguia sequer ter acesso regular ao sol ou praticar atividade física: “É muita coisa para um dia só. Sem tempo, a pessoa deixa de cuidar da saúde, da alimentação e até do próprio descanso. Existem pessoas que estão adoecendo por não terem tempo para se cuidar. Isso é muito sério”.

Como a escala 6×1 impacta a vida pessoal e familiar?

Denise lembrou que a jornada afetava diretamente datas e momentos especiais: “Eu não passava Dia das Mães, Dia dos Pais, Natal ou Ano Novo com a família quando caíam em dias de trabalho. O impacto era negativo em todos os sentidos”.

Jerônimo ressaltou que o tempo é o bem mais precioso e que a escala 6×1 compromete a convivência com quem se ama: “Faz falta para simplesmente viver além do trabalho, para estar presente na vida dos netos e da esposa. É a diferença entre sobreviver e realmente aproveitar a vida.

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Cristiane Mael
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Cristiane reforçou que conhece pessoas que adoecem por falta de tempo para se cuidar. Ela observou que muitos trabalhadores não conseguem realizar atividades simples, como caminhar ou descansar adequadamente: “Não têm tempo para a saúde, para a família, para se amar. A vida passa e a pessoa não consegue vivê-la da maneira que deseja”.