No reencontro com a Marquês de Sapucaí, após 13 anos longe, a Unidos do Jacarezinho abriu os trabalhos nesta sexta-feira de desfiles da Série Ouro. Com uma comissão de frente modesta, mas competente, e um casal bem aguerrido, a Rosa e Branco encontrou dificuldades nos demais quesitos.

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A escola levou para a pista o enredo “O Ar que se respira agora inspira novos tempos”, uma homenagem a Xande de Pilares, que se apresentou como uma declaração de amor ao samba nascido e cultivado na favela, território onde vozes aprendem primeiro a cantar na roda antes de ecoarem no rádio, assim como foi a de Xande. No entanto, mediante a precariedade das fantasias e alegorias, pelos infortúnios que a escola enfrentou, a compreensão ficou difícil.

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

ENREDO

Assinado pelo carnavalesco Bruno de Oliveira, o desfile se estruturou em três setores que percorreram a trajetória do artista Xande de Pilares como quem folheia um álbum de memórias afetivas.

* LEIA AQUI: “É emoção demais ser morador da favela e ser homenageado”: Xande de Pilares fala sobre homenagem do Unidos do Jacarezinho

O primeiro setor, “O Ar que se respira agora inspira novos tempos”, mergulhou nas origens, revisitando a infância, a Folia de Reis, o rádio como janela para o mundo e os primeiros versos que encantaram o poeta. O abre-alas “No Jacarezinho deu nó na tristeza e fez da vida carnaval” traduziu, com a velha guarda em cima do carro, que foi na favela do Jacarezinho que Xande iniciou sua carreira como sambista, sendo o morro do Jacarezinho uma encruzilhada essencial para transformar os rumos e os caminhos de Xande. A falta de fantasias, comprometidas no incêndio que a escola enfrentou há pouco tempo, deixou não apenas este setor, mas os dois seguintes, difíceis de compreender.

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Na sequência, o segundo setor, “Pinto de Rosa e Branco a Inspiração”, trouxe a carreira no carnaval, celebrando o compositor de sambas-enredo marcantes, especialmente sua relação com o Salgueiro, com a alegoria “Salgueirense da Cabeça aos Pés”, com o clássico Preto Velho do Salgueiro, presente no carnaval da Academia do Samba em 2025, e um Zé Pelintra, remetendo ao carnaval do Salgueiro de 2016, da mesma escola.

O último setor, “Coroado na Favela”, apontou para a consagração, sintetizada na alegoria “É Deus Quem Aponta a Estrela Que Tem Que Brilhar”, na qual vieram Xande, sua família e amigos próximos. O carro, revestido de um tecido com estrelas, tentou apresentar a narrativa da estrela que nasceu no morro e iluminou o país.

COMISSÃO DE FRENTE

Intitulada “O Verso que encantou o Poeta”, a comissão foi coreografada por Akia de Almeida. A apresentação simbolizou o instante inaugural em que a palavra virou destino. Composta por 15 componentes, vestidos de bate-bolas, e um homem vestido de Xande de Pilares, a comissão foi competente, simples e sem elementos cênicos.

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Os bate-bolas, vestidos com roupas coloridas e distintas entre si, evocaram e incentivaram o bailarino vestido de Xande a compor. Ele, que entrava e saía perdido de cena, parecendo não saber o que estava fazendo ali, no decorrer da coreografia se encorajava e começava a se tornar artista. Na primeira cabine, ele fingia compor em cima de uma mesa de partitura, que caiu no primeiro módulo e foi descartada nas outras duas apresentações. No fim da coreografia, um bate-bola dava um cavaquinho na mão dele e, extremamente parecido com o cantor homenageado, ele performou cantando e tocando ao mesmo tempo. Para quem acompanha a carreira de Xande, não precisava de mais nada: estava tudo ali.

A coreografia era boa e foi bem executada, mas um figurino mais elaborado melhoraria a performance. No trecho “É Deus quem aponta a estrela que tem que brilhar”, havia uma chuva de faíscas, fechando a apresentação.

Em suma, foi uma boa apresentação, modesta, mas competente, refletindo o empenho de todos do quesito para uma boa entrega da escola.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Na dança do pavilhão, o primeiro casal, Maycon Ferreira e Lorenna Brito, com a fantasia “Estrela da Inspiração”, representou com elegância o brilho que conduziu a obra do homenageado. Com fantasias pretas com penas rosas, a dela, e pretas, a dele, cheias de estrelas prateadas, a indumentária representava a estrela, símbolo que acompanha a vida de Xande de Pilares. A dança foi correta e muito bem executada. Eles dançaram com vigor e segurança.

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A fantasia de Lorenna poderia ter uma saia mais baixa e com mais penas. No início, a saia curta parecia atrapalhar a dança dela, mas foi apenas impressão, pois ela se sustentou com facilidade nos três módulos. Assim como Maycon riscou a avenida e cortejou sua porta-bandeira com maestria e precisão. Foi um casal elegante e risonho, com uma apresentação correta e muito bem-feita.

EVOLUÇÃO

A escola enfrentou alguns problemas no quesito, que irão, inevitavelmente, onerar a pontuação na quinta-feira. Com dois buracos na pista, ambos nas apresentações da bateria diante dos módulos 2º e 3º, a escola não segurou o desfile para a bateria se apresentar.

Com 55 minutos na pista, tempo máximo permitido, a bateria se apresentava no último módulo de jurados, com a ala “Amigos do Xande” seguindo para a dispersão, deixando a pista livre e com buraco para a bateria finalizar o desfile.

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Apesar de animados, os componentes aparentavam estar abatidos no desfile; andaram chacoalhando o corpo, sem sambar de fato.

A escola finalizou o desfile aos 57 minutos, dois a mais do que o permitido, o que acarretará a perda de 0,2 décimos na apuração de quinta-feira.

HARMONIA

O samba passou muito bem pela avenida. Os intérpretes Aílton Santos e Thiago Acácio conduziram o samba de maneira magistral. A escola cantou pouco. Por conta da evolução comprometida, a harmonia também deve ter décimos perdidos, uma vez que o canto da comunidade foi irregular, visto o ritmo instável que a escola teve na avenida.

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ALEGORIA E ADEREÇOS

As alegorias da Unidos do Jacarezinho apresentaram problemas de concepção e acabamento. Todas as três tinham apenas tecido como revestimento, sem nenhum adereço. Com madeira exposta no abre-alas e piloto sentado em cima do tripé “Salgueirense da Cabeça aos Pés”, este deve ser mais um quesito em que a escola será despontuada.

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SAMBA

Composto por Paulinho Bandolim, Tomate Show, Rodrigo Jacopetti, Bruno Dallari, Godoi, Guto Cachaça, Dodô Ananias e Rafa Cria, a obra cumpriu o seu papel em homenagear o artista. Com uma letra muito boa e de fácil compreensão, o refrão “Sapucaí vai tremer quando a sirene tocar / Jacarezinho, taca fogo no gongá / Vai ter pagode pelos becos e vielas / Salve, Xande de Pilares / Hoje, coroado na favela” deu um agito nas frisas e arquibancadas, mesmo que de maneira tímida. Em resumo, o samba merecia um desfile à sua altura.

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FANTASIAS

Abalada pelo incêndio que aconteceu na quadra da escola, no dia 5 de fevereiro, a escola desfilou com três alas sem fantasia, apenas com a camiseta da comunidade. A primeira ala estava sem a cabeça da fantasia, apenas com a calça e a camisa estampada, sem dizer nada sobre o enredo, assim como a bateria.

A ala das baianas, com poucas integrantes, desfilou com roupas brancas, mas com texturas e tecidos totalmente distintos entre si.

As alas de passistas, a das crianças, a dos compositores, a internacional, a “Amigos do Xande” e a que representou o Império Serrano foram as únicas que desfilaram com fantasias.

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OUTROS DESTAQUES

A ala das crianças, apesar de bem pequena, teve uma fantasia didática e bem-feita, sendo um charme para o desfile.