Assumir o microfone de uma escola como a Portela nunca é um gesto simples. Ainda mais quando o contexto envolve perdas, afetos e a necessidade de manter viva uma história que ultrapassa nomes e vozes. Ícone do carro de som do carnaval, Zé Paulo da Portela fala com franqueza sobre o momento que vive na escola de Madureira, o crescimento do samba, a parceria com o mestre Vitinho e o desafio de conciliar dois compromissos sem perder rendimento. Mais do que técnica, o intérprete expõe sentimento, identidade e responsabilidade.
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Ao comentar a chegada ao carro de som da Portela em um momento tão delicado, Zé Paulo deixa claro que a situação nunca foi encarada como uma substituição direta, mas como um encontro necessário com a própria história.
“Eu estou muito feliz, porque é prazeroso demais estar cantando na escola do meu coração. Eu comecei a cantar por causa da Portela, por causa de um samba específico dessa escola. Me sinto muito honrado de estar aqui como portelense. Eu não estou no lugar do Gilsinho. Infelizmente, aconteceu isso com um amigo nosso, com um irmão de profissão, foi tudo muito repentino. Eu tive a sorte de ter cantado o samba na eliminatória, isso facilitou um pouco a escolha da escola, e também a conversa com a União de Maricá para que eu pudesse fazer as duas escolas e para que as ligas se entendessem. Ao mesmo tempo que é muito prazeroso, é triste, porque a gente perdeu um irmão. Não é substituição. É uma forma de a gente se encontrar para manter o legado dele. É muito difícil, porque ele não exime o cantor, não exime o compositor e não exime o músico. Eu vou tentando colocar um pouco da minha identidade. Eu sei que tem gente que não curte muito, mas é o meu jeito. Eu não vou mudar, porque já estou há 40 anos fazendo isso e vou continuar fazendo”.
Com o samba crescendo nos ensaios e sendo apontado como um dos destaques do ano, o intérprete vê o momento com serenidade e senso coletivo, destacando o ambiente interno da escola como fator decisivo.
“O sentimento é de trabalho bem feito. Não só na eliminatória, mas também em tudo o que a gente vem fazendo nos ensaios. Somos uma família mesmo, a gente se ajuda muito. O dia em que um não está bem, o outro compensa. Acho que isso é o mais importante da Portela hoje: ter noção do que a gente tem que fazer. O samba está subindo de proporção na hora certa, e quando a gente chegar no desfile, vai estar 100%”.
A relação com o mestre de bateria Vitinho aparece como um dos pilares desse processo. Mais do que parceria profissional, Zé Paulo aponta uma conexão construída ao longo de anos de trabalho conjunto.
“Vitinho é um irmão. A gente trabalha junto há muitos anos, gravando, fazendo eliminatórias, produções de disco e tudo mais. É uma irmandade mesmo. O fato de sermos amigos próximos faz com que a gente converse muito, troque muito, e isso deixa tudo mais fácil. Ele é um cara sensacional, tem a mesma vibe que a minha”.
Dividido entre Portela e União de Maricá, Zé Paulo não romantiza o esforço físico, mas reforça que o amor pelo que faz sustenta a rotina intensa.
“Falar que é fácil, não é. É cansativo. Mas quando a gente faz o que ama, existe prazer e dedicação. Quando eu cheguei aqui, estava bem cansado, o final de semana foi muito intenso. Mas eu pensei: eu tenho irmãos aqui também. A gente se ajuda, vai para cima, tira força de onde não tem para fazer acontecer. Amanhã a gente descansa”.
Mais do que responder sobre técnica ou rendimento, Zé Paulo da Portela deixa claro que o momento vivido na escola passa por pertencimento, memória e verdade artística. Sem tentar ocupar espaços que não lhe cabem, o intérprete sustenta sua trajetória com identidade própria, consciente de que, no carnaval, cantar também é um ato de respeito à história e, sobretudo, de continuidade.









