O legado de Paulo César Pinheiro atravessará o Sambódromo do Anhembi em 2026. Aos 76 anos, a obra do poeta e compositor será transformada em desfile pela Estrela do Terceiro Milênio, no sábado de Carnaval, dia 14 de fevereiro, pelo Grupo Especial de São Paulo. Nada mais justo que a escola que carrega em seu pavilhão a coruja, animal símbolo da sabedoria, celebre uma das grandes mentes da música brasileira por meio do enredo “Hoje a poesia vem ao nosso encontro: Paulo César Pinheiro, uma viagem pela vida e obra do poeta das canções”, assinado pelo carnavalesco Murilo Lobo.

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Foto: Divulgação/Estrela do Terceiro Milênio

A convite da agremiação do Grajaú, o CARNAVALESCO entrevistou este que é um dos mais brilhantes letristas da MPB. Para conduzir a conversa, a reportagem adotou uma proposta pouco convencional: percorrer a trajetória do artista a partir dos versos do samba-enredo da Milênio. A ideia foi ir além dos sentimentos do mais novo torcedor da escola e usar a letra oficial como fio condutor para uma viagem pela vida, pela obra e por um pouco do Brasil retratado em mais de duas mil canções.

Quando a poesia encontra a Avenida

O convite para ser homenageado surpreendeu Paulo César Pinheiro, que definiu como “estranha” a sensação de ver a própria trajetória transformada em enredo. “Eu me sinto lisonjeado, envaidecido, orgulhoso. Me pegou de surpresa”, afirmou o poeta, que já se diz na torcida pela Estrela do Terceiro Milênio, escola cujo nome considera “uma poesia”. “É uma homenagem maravilhosa, e eu já estou torcendo pela escola. Torço até o fim, e a poesia agradece, sem sombra de dúvidas”, completou.

Com uma relação histórica com o Carnaval, o compositor carioca, que é um dos fundadores da escola de samba Tradição ao lado de nomes como João Nogueira, destacou que o samba-enredo ocupa um lugar próprio dentro de sua obra.

“É um tipo de música completamente diferente do samba normal. É um samba que conta uma história estabelecida, composta, que eu gostava muito de fazer. Eu e João Nogueira compusemos quatro sambas de enredo para a Tradição, e valeu a pena. Vencemos o último grupo, passamos para o seguinte, até desfilar com as principais. É muito bom você ganhar e compor um samba de enredo, é um trabalho maravilhoso”, afirmou.

Ao comentar as transformações do gênero ao longo dos anos, Paulo observou que, em sua experiência, compor para uma escola sempre significou envolvimento direto. “Atualmente mudou tudo. Antigamente, até um certo ponto da vida, o samba-enredo transmitia a história da escola, os compositores eram das escolas. Hoje qualquer compositor faz para qualquer escola, e já não é o que eu penso. Eu visto a camisa e vou embora. Mudou tudo”, explicou.

Obra de uma vida contada em samba

Antes mesmo de o samba começar a ser lido verso a verso, Paulo César Pinheiro voltou ao ponto onde tudo teve início. Foi ali, ainda muito jovem, que a poesia passou a conduzir sua trajetória e deu origem a uma obra que hoje atravessa mais de seis décadas.

“Eu comecei muito jovem. Eu tinha de 14 para 15 anos quando comecei. A escola, inclusive, o enredo dela montou-se em cima da minha primeira música, que foi A Viagem. A minha trajetória é a poesia o tempo inteiro, e a música vem junto. Eu também fiz música, tenho compostas na carreira mais de duas mil músicas, das quais cerca de 1.500 foram gravadas. Isso já é uma história que merece ser contada. Além disso, eu escrevi livros, fiz peças de teatro, fiz uma série de coisas, e é bonito ver isso na Avenida sendo contado”, celebrou.

‘Ouvi lá do alto do morro um canto forro encontrando um violão’

Os versos iniciais do samba da Milênio apresentam Paulo César Pinheiro como um menino acolhido pelas rodas de samba, imagem com a qual o compositor se identifica. “O samba me representa. Eu represento o samba. Não há roda de samba no Brasil que não cante um samba meu. Eu me sinto representado completamente”, afirmou.

Na sequência, o verso “E a madrugada foi inspiração” reforça o caráter simbólico da criação artística como vocação e destino. Para o poeta, trata-se menos de literalidade e mais de imagem. “É uma imagem poética. Sempre foi uma das coisas, mas é uma imagem poética bonita também, bem-feita”, disse.

‘Poeta, sim! Não tem mordaça que me diga não’

Os versos reforçam a imagem de um compositor movido por um impulso criativo que dispensa explicações racionais. “Isso nasceu comigo. Eu nunca tive explicação para isso. Não tem explicação”, afirmou.

O poeta destacou a coerência da obra escolhida com sua trajetória artística, fazendo questão de pontuar sua isenção na avaliação, apesar de ter uma relação pessoal com a disputa do samba-enredo. “O samba inteiro faz sentido, foi bem-feito e foi bem escolhido. Inclusive, meu filho foi um dos compositores que disputou o samba-enredo, mas infelizmente não ganhou. Então eu estou isento para falar que o samba está bem representado”, pontuou.

Ao refletir sobre a ideia de o carnaval funcionar como ferramenta de conhecimento, como mencionado nos versos “Fiz das raízes do país canção, abrindo livros desse meu Brasil”, Paulo observou que essa função não está necessariamente no compositor, mas na própria festa. “O carnaval é a festa popular mais importante do Brasil, e o que ele faz é motivar as pessoas a lerem livros dos homenageados, a se interessarem pelas histórias, pela história como um todo. Ele chama a atenção do povo para que se veja, leia e entenda as coisas”, explicou.

‘O dia em que o morro descer’

O trecho a seguir foi inspirado no samba O dia em que o morro descer e não for Carnaval, escrito em parceria com Wilson das Neves, que projeta um cenário em que a ida às ruas se dá por um motivo diferente da celebração da festa popular.

“Os versos foram feitos em cima dos meus, que são uma realidade, infelizmente, do Brasil e principalmente do Rio de Janeiro, onde eu moro. Eles montaram o samba em torno desse que eu fiz com o Wilson das Neves, falando da violência que, infelizmente, tomou conta do país e dos morros cariocas, das periferias brasileiras. Eles fizeram os versos de acordo com o que eu disse. Está muito bem-feito”, explicou.

A leitura também abriu espaço para uma reflexão sobre a trajetória histórica do samba, expressão cultural marginalizada que, ao longo do tempo, conquistou centralidade na identidade nacional. Para o compositor, o gênero venceu os obstáculos impostos desde sua origem. “Eu acho que sim, claro. Para se tornar a maior festa popular do mundo, ele venceu”, resumiu.

‘Zumzumzum, quero ver firmar o seu berimbau’

O refrão do meio do samba da Milênio carrega uma dupla inspiração diretamente ligada à trajetória artística de Paulo César Pinheiro. A primeira vem de Lapinha, parceria com Baden Powell e primeira música do compositor a ser gravada, eternizada na voz de Elis Regina em 1968. A segunda é o disco Capoeira de Besouro (2010), que reúne canções do musical Besouro Cordão de Ouro (2006), vencedor do Prêmio Shell de 2006 na categoria direção musical, sob comando de Luciana Rabello, esposa do poeta. Em comum, ambas as obras exaltam a figura do capoeirista Besouro Cordão de Ouro.

“O primeiro samba que eu gravei na vida falava da Bahia, o Lapinha. É o primeiro samba gravado pela Elis Regina. Então eu tenho uma ligação profunda com a Bahia, principalmente se tratando de capoeira. Gravei um disco com toques de capoeira falando do Besouro, que é uma figura importante da Bahia, citada pelo Jorge Amado, inclusive em mais de um livro. É um herói popular, um herói da rua que foi citado em Tenda dos Milagres e em Mar Morto. Eu fiz o samba Lapinha em homenagem ao Besouro, falando da Bahia, o Besouro da Bahia, Besouro Cordão de Ouro”, destacou.

Ao refletir sobre a presença recorrente da ancestralidade nos sambas e enredos atuais, Paulo fez uma ressalva importante sobre a história do gênero. Para ele, o samba não possui uma origem única. “O samba não nasceu na Bahia. O samba baiano nasceu na Bahia, o samba carioca nasceu no Rio de Janeiro, o samba mineiro nasceu em Minas. O samba nasceu no Brasil, é brasileiro”, explicou. Segundo o poeta, são diferentes manifestações de uma mesma expressão cultural. “O samba que se faz no Rio não é o mesmo que se faz na Bahia. O samba é brasileiro”, afirmou.

A observação ecoa a própria diversidade do gênero, que também encontrou caminhos próprios em São Paulo, como no samba de Bom Jesus de Pirapora, reconhecido e estudado por Mário de Andrade. “É um grande samba, um grande samba, sim”, completou o poeta.

‘Ninguém ouviu a prece em seus grilhões’

A segunda parte do samba começa dialogando com um dos períodos mais sombrios da história do Brasil. Ao tratar da censura e da repressão, o enredo encontra eco na própria trajetória de Paulo César Pinheiro, que teve diversas composições barradas durante a ditadura militar.

Mas, como o próprio samba diz, “se um verso era rasgado, outro nascia”. Apesar de ser uma constante em sua carreira, o compositor valeu-se da inteligência e, com isso, “a censura sucumbia às canções”, utilizando metáforas como estratégia de sobrevivência artística. Paulo destacou uma obra em especial, marcada justamente pela frontalidade do discurso.

“Eu fui muito censurado, o tempo inteiro. Consegui muitas vezes burlar a censura inteligentemente, por metáforas, até que fiz uma música sem metáforas, que se tornou um hino de guerrilha, o Pesadelo. ‘Você corta um verso e escrevo outro’. Foi a música mais direta que se fez no Brasil contra a censura brasileira, contra a censura de modo geral. Fui muito perseguido, mas consegui vencê-los”, afirmou.

Ao ser provocado sobre o papel da música em um contexto contemporâneo de tensão política e de reaproximação com discursos autoritários, Paulo foi categórico ao reafirmar a força da arte como instrumento de resposta e resistência.

“A música consegue responder a qualquer coisa estranha que seja perguntada a ela. É a música que tem poder. Não é o poder que tem poder, é a música que tem poder”, resumiu.

‘Quando o cantar da Sabiá se calou em todo altar’

O trecho é inspirado no samba Um Ser de Luz, de 1983, e retrata um momento sensível da vida de Paulo César Pinheiro. “Foi quando morreu a minha ex-esposa, Clara Nunes, e eu fiz o samba no tempo da morte dela. Eles tentaram transmitir exatamente isso no samba que eles fizeram e foram felizes”, afirmou.

Os versos seguintes também apontam para um movimento de reconstrução afetiva, traduzido na imagem de um coração que encontra “um novo lugar, feito a letra quando abraça a melodia”.

“Foi a música que me trouxe tudo isso. Eu devo tudo à música. Eu sou a música, como diria meu amigo Pedro Sorongo, que já morreu. Ele dizia assim: ‘Eu sou a música’. Quando um maestro falou para ele: ‘você precisa estudar a música’, ele falou: ‘não preciso não, eu sou a música’”, disse o poeta.

‘A música me deu parceiros e enredos para contar’

Os versos celebram os encontros que marcaram a trajetória de Paulo César Pinheiro e ajudam a entender a dimensão coletiva de sua obra. Ao longo da carreira, o poeta construiu parcerias fundamentais para o desenvolvimento de sua linguagem, especialmente no período em que esteve mais próximo do samba-enredo e da vida das escolas de samba, marcado pela fundação da Tradição.

“No mundo do samba, eu tive grandes parceiros e devo muito a eles também. Eles devem a mim e eu devo a eles, nós nos casamos”, afirmou, antes de citar alguns dos nomes que atravessaram sua trajetória. Paulo Duarte, João Nogueira, Eduardo Gudin, Maurício Tapajós, Miltinho, do MPB4, João de Aquino e, em especial, Baden Powell, um parceiro fundamental de sua carreira, formam parte desse universo de encontros que moldaram sua obra.

Segundo o compositor, essas parcerias foram decisivas não apenas no plano afetivo, mas também na construção técnica de sua escrita. “Aprendi com eles alguma coisa. Cada um deles me deu alguma coisa, me deixaram heranças boas e me fizeram o que sou. Eu me desenvolvi com as melodias que consegui com eles. Os meus versos nasceram das melodias deles, então eu sou fruto deles também”, explicou.

‘Ninguém faz samba se não for pra emocionar’

O desfecho do samba assume tom de manifesto e dialoga diretamente com ideias que atravessam a obra de Paulo César Pinheiro há décadas. Para o compositor, a emoção não é consequência, mas origem do samba. As referências citadas no refrão final não são aleatórias.

“Como eu disse antes, já em um samba: ‘ninguém faz samba só porque prefere’”, citou, em referência ao samba O Poder da Criação, composto em parceria com João Nogueira. O poeta também mencionou a referência à obra Mordaça, da parceria com Eduardo Gudin, que traz o verso “o importante é que a nossa emoção sobreviva”. “Eles juntaram a necessidade de uma coisa com outra e ficou bonito o que eles fizeram”, avaliou.

Questionado sobre o papel do samba na atualidade, Paulo não vê perda de força ou de sensibilidade. Para ele, a função permanece intacta. “Com certeza. O importante é que a nossa emoção sobreviva. Eu vou repetir essa frase a minha vida inteira, sempre, e o samba faz isso: desperta as emoções. Se estiverem adormecidas, ele acorda as emoções”, resumiu.

‘Reflete no espelho o dom que Deus me deu’

Por fim, o refrão principal do samba-enredo da Estrela do Terceiro Milênio fecha a narrativa com um movimento circular, em que os primeiros versos funcionam como síntese da trajetória do poeta, enquanto o último dialoga diretamente com o início da letra. Ao ser questionado se o samba fala mais sobre o homem Paulo César Pinheiro ou sobre sua obra, o compositor foi direto ao apontar onde reside, para ele, o verdadeiro legado.

“Fala mais sobre a obra. O homem tanto faz. A obra é o que prevalece, é o que é importante. O homem é só um homem, como qualquer outro, mas a obra permanece”, afirmou. Para Paulo, a história pessoal pode ser contada, como foi no enredo, mas é a criação artística que resiste ao tempo.

A reflexão abriu espaço para um debate mais amplo sobre o lugar do compositor na música popular brasileira, muitas vezes ofuscado pela figura do intérprete. Questionado se o enredo da Milênio pode estimular um olhar mais atento ao legado dos autores, o poeta demonstrou esperança. “Tomara. É o que eu torço. Eles fizeram um belíssimo trabalho em tudo: no samba, na composição do enredo, dentro da escola. Isso é importante. Espero que tudo dê certo”, disse.

Paulo reforçou o desejo de reconhecimento por meio da sensibilidade ao falar sobre o que gostaria que o público compreendesse de seu legado. “Eu espero que aconteça o que acontece sempre: uma homenagem bem-feita, que o público goste do que foi apresentado, se veja nisso. É isso que eu espero. É ver se eu valho a pena como autor”, afirmou.

Mensagem de Paulo César Pinheiro para a Estrela do Terceiro Milênio

“Adorei tudo o que eles fizeram. Foi muito bonito, não esquecerei. Eu não esperava uma homenagem como essa. É muito grandioso para mim, é diferente, muito diferente. Eu vou ficar na torcida, na primeira cadeira, completamente na torcida, para poder ganhar o carnaval. Torço por eles para sempre, virou minha escola também. Eu sou Mangueira, sou Paraíso do Tuiuti porque fui criado lá e sou agora Estrela do Terceiro Milênio. Eu estou com a comunidade do Grajaú e não abro mais”, concluiu.