Por Lucas Sampaio, Letícia Sansão, Ana Carla Dias e Will Ferreira 

A Mocidade Unida da Mooca realizou, no último sábado, seu segundo ensaio técnico no Sambódromo do Anhembi, em preparação para o desfile no Carnaval 2026. Em um treino no qual o conjunto da obra se apresentou de forma positiva e equilibrada, o ritmo da dança e a sintonia entre samba e bateria foram os grandes diferenciais ao longo da apresentação da escola, encerrada após 65 minutos na Avenida. A MUM será a primeira escola a desfilar no dia 13 de fevereiro, pelo Grupo Especial, com o enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin”, assinado pelo carnavalesco Renan Ribeiro.

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A afirmação a seguir pode parecer um exagero aos olhos de quem não esteve no Anhembi para acompanhar o segundo ensaio de uma escola que fará sua primeira participação na elite da folia paulistana em 2026, mas é preciso encarar os fatos: a Mocidade Unida da Mooca realizou um dos melhores ensaios da temporada e apresentou uma volumetria comparável à de escolas que vêm sendo cotadas para o título do Carnaval de São Paulo.

A plástica da escola, até o momento, é desconhecida, e todos sabem da realidade que envolve uma estreia em um novo grupo, ainda mais abrindo a primeira noite dos desfiles. Mas a equipe de profissionais que a MUM montou — e que já trabalhou na apresentação que garantiu o acesso — não é pouca coisa. Há muito comprometimento técnico e o apoio de uma comunidade apaixonada, o que se refletiu na catarse que tomou conta da Avenida no sábado. Se voltar no Desfile das Campeãs, a escola já fará história e isso será muito celebrado, mas a realidade é que a Mooca não dá indícios de que essa será uma passagem breve pelo Grupo Especial.

COMISSÃO DE FRENTE

“A Criação do Mundo” é o tema da comissão de frente da MUM, coreografada por Sabrina Cassimiro. Em atos desenvolvidos ao longo de duas passagens do samba, o quesito representa, por meio da dança, a lenda iorubá da origem de tudo. Há dois personagens que se destacam nessa coreografia, que conta ainda com outros atores coadjuvantes, os quais ora atuam no chão, ora sobem na alegoria que acompanha o quesito. Trata-se de um carro de tamanho expressivo, no qual se vê uma grande mão erguida acima de um círculo ainda descaracterizado, que provavelmente representa o planeta Terra.

A dança se destaca especialmente pela forma como a coreografia foi desenvolvida sobre a letra do samba. Em momentos de maior impacto, como no verso “Num ritual de devoção”, nas duas passagens da obra, os dançarinos parecem balançar no ritmo da melodia. Em determinado momento, o cumprimento da obrigatoriedade de apresentar a escola ocorre logo após o fim do refrão do meio, quando a melodia sofre um breve apagão natural. É um movimento rápido e peculiar, fugindo do padrão habitual, que deixa muito claro o que se propõe a representar. O quesito já abre as apresentações fazendo o público entrar no ritmo viciante do samba e tem grandes chances de alcançar a nota máxima se for bem executado no dia do desfile oficial.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Também com uma dança construída a partir do samba, o primeiro casal da Mooca, formado por Jefferson Gomes e Karina Zamparolli, teve ótimo desempenho nos módulos em que foi observado. A dança fluiu de forma natural, impulsionada pelo bônus empolgante que a melodia do desfile proporciona. É mais um casal que não se contenta em cumprir apenas o protocolo das obrigatoriedades e se dispõe a integrar, mesmo diante das responsabilidades do quesito, um espetáculo maior. O Carnaval se beneficia artisticamente de profissionais dotados dessa mentalidade.

O casal fez um balanço da evolução apresentada ao longo da temporada de ensaios técnicos no Anhembi, exaltando o conjunto formado com a escola nesse processo.

Jefferson e Karina

“Eu acho muito positivo. Hoje ventou um pouco, mas foi menos do que na outra semana. Conseguimos evoluir muitas coisas. A coreografia está bem fluida, o andamento da escola ajudou muito. Foi bom na semana passada, mas esta semana foi bem melhor. Se for nesse andamento, vamos conseguir desfilar bem felizes. Conseguimos sentir a escola pulsando muito. A escola fez uns três paradões em que conseguimos ouvir bem o canto, e toda vez que isso acontece dá uma energia a mais para nós. Tecnicamente falando, ainda vamos ensaiar mais. Ainda temos duas semanas e vamos aproveitar bem para vir 100% afiados, porque é uma estreia no Grupo Especial. Queremos desfilar à altura do Carnaval que a escola está propondo, e acho que pode ser uma das maiores aberturas do Carnaval de São Paulo”, avaliou Jefferson.

“É isso que ele falou. Deu para sentir bastante no primeiro e no segundo ensaio. Agora vamos fazer nossos ensaios particulares nessas últimas semanas para ajustar o que precisar. Saímos bem satisfeitos dos dois ensaios, com certeza”, completou Karina.

A dupla demonstrou otimismo em relação ao desfile de estreia da MUM no Grupo Especial, mas também se mostrou consciente e focada no objetivo primordial da escola.

“A gente tem sempre que sonhar e trabalhar para o maior. Estamos buscando a nota máxima. Do fundo do meu coração, desejo muito que a escola tenha a alegria de estrear tentando voltar para as Campeãs. São 14 escolas, mas acredito que temos condições, tecnicamente, de brigar por uma posição e tentar essa proeza”, disse Jefferson.

“Estamos trabalhando pelos melhores resultados e pela nossa realização pessoal. Sempre quisemos dançar juntos. Saímos do Acesso, chegamos ao Especial. Para nós, isso já é uma vitória. Agora é aproveitar, ser feliz e, se Deus quiser, trazer a nota para que a escola permaneça no Especial e, quem sabe, esteja entre as Campeãs”, concluiu Karina.

HARMONIA

Um dos lemas da Mocidade Unida da Mooca é “Escola que canta, ganha”. Quem acompanha a MUM há anos sabe da força da comunidade nesse quesito. O trabalho do diretor de harmonia Yves Alexeiv, iniciado ainda em 2025, manteve essa identidade. Todas as alas cantaram forte durante toda a Avenida, sem sinais de cansaço, demonstrando vibração e determinação dignas de aplausos.

EVOLUÇÃO

A seriedade do diretor ao longo de toda a Avenida, caminhando da comissão de frente à última ala e retornando pelo outro lado, só deu lugar a sorrisos quando o portão da dispersão se fechou após 65 minutos de ensaio. Mesmo com cinco minutos de atraso para iniciar a entrada na Passarela, a Mooca evoluiu com fluidez, controlando bem o ritmo e realizando paradas estratégicas para testar a resposta do canto da comunidade. Resta saber se essa segurança se repetirá no desfile oficial.

SAMBA-ENREDO

Um samba que nasceu antes mesmo da sinopse — algo raro nos dias atuais. A MUM optou por esse caminho inverso em plena estreia no Grupo Especial, e o resultado foi uma obra que conquistou o Anhembi nos dois ensaios técnicos. Antes mesmo da comissão de frente entrar na Avenida, o refrão de cabeça foi cantado à capela pela comunidade, com resposta imediata das arquibancadas.

Emerson Dias

“A escola está em um momento especial. A magia do Carnaval contagiou a Mocidade. O povo está cantando absurdamente, a escola cantando absurdamente. Estamos abusando da força do samba, fazendo paradões e provocando o canto. A resposta vem sempre. Evolução e harmonia são os pontos principais, e nisso a Mocidade tem nota 10”, explicou o intérprete Emerson Dias.

Durante a passagem da MUM, Emerson e Gui Cruz chegaram a subir na grade do Anhembi para interagir com o público. Ao lado da estreante Sté Oliveira, formaram uma equipe afinada e energética, conduzindo a obra com maestria.

“Não sei se vamos manter todas as paradas no desfile, mas a ousadia vai existir. Estamos chegando agora no Especial e precisamos chegar chegando”, completou Emerson.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Chapa Quente”, comandada por mestre Dennys Silva, empolgou o público com grande quantidade de bossas e apagões. Os ritmistas demonstraram alto nível de ensaio, atuando como uma única mente coletiva. Uma estreia no Grupo Especial com autoridade, ainda mais valorizada pela presença da rainha Valeska Reis.

Mestre Dennys

“Após o último ensaio, fizemos muitas reuniões para encontrar diferenciais. A bateria abraçou a ideia e ensaiamos bastante. Agora é manter os pés no chão, respeitar o grupo e focar nos detalhes. Estou muito feliz, mas principalmente concentrado para fazer um grande desfile”, afirmou mestre Dennys.