Por Gustavo Lima, Ana Carla Dias, Letícia Sansão e Will Ferreira
Alguns dizem que é para lavar a alma, outros afirmam que atrapalha demais. Fato é que a tempestade que caiu durante o ensaio técnico do Águia de Ouro, no último sábado, no Sambódromo do Anhembi, não foi para qualquer um. Foi daquelas chuvas que comprometem qualquer quesito. Ainda assim, mesmo diante das adversidades, há pontos positivos a serem elencados.
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Como de costume, o canto da comunidade da Pompeia se fez presente, assim como o ótimo desempenho do casal Alex Malbec e Monalisa Bueno, sobretudo a atuação da porta-bandeira na última cabine, que foi de encher os olhos. Também merece destaque a apresentação dos intérpretes Douglinhas Aguiar e Serginho do Porto, que mostraram o entrosamento construído ao longo de muitos anos. Vale ressaltar, porém, que o verdadeiro dilúvio prejudicou bastante a comissão de frente, que, em determinado momento, precisou interromper sua apresentação sobre o elemento alegórico. A expectativa agora é que o Águia de Ouro tenha um ensaio mais seco no dia 31 de janeiro.
A escola da Pompeia levará para a avenida o enredo Mokum Amsterdã: O voo da Águia à cidade libertária, assinado pelo carnavalesco Alexandre Louzada, sendo a segunda a desfilar no sábado de carnaval.
COMISSÃO DE FRENTE
A comissão de frente, coreografada por Robson Bernardino, realizou toda a sua encenação sobre um elemento alegórico de grande altura. A equipe do CARNAVALESCO apurou que o tripé representa um barco, no qual os componentes interpretam personagens do Brasil e dos Países Baixos, exaltando a união entre os dois povos.
O forte temporal que atingiu o ensaio também impactou diretamente a apresentação da comissão. Os bailarinos encenavam algo alegre e divertido, trocando de posições e interagindo entre si, mas, em determinado momento, a intensidade da chuva fez com que interrompessem a coreografia. Passaram a bater palmas e interagir com o público, retornando à encenação completa apenas posteriormente. Para uma análise mais precisa da proposta da comissão de frente, será necessário um próximo ensaio sem chuva ou com clima mais ameno.
Entretanto, vale destacar a altura do elemento alegórico. Para quem está na pista, a visualização da coreografia fica prejudicada. No desfile oficial, a terceira cabine será posicionada no nível da pista, o que exige atenção da escola para possíveis ajustes.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

É evidente que a tempestade afetou o desempenho do casal Alex Malbec e Monalisa Bueno. No início, ambos priorizaram a técnica e os movimentos obrigatórios. Porém, após a chuva diminuir, a apresentação ganhou outro ritmo. A impressão era de que a pista estava seca, principalmente para a porta-bandeira, que realizou giros rápidos e apresentou uma coreografia precisa e elegante.
Ao final da apresentação, o casal mostrou o pavilhão ao público e recebeu muitos aplausos, um reconhecimento justo diante das circunstâncias adversas. A ressalva fica pelo fato de esse desempenho mais solto ter ocorrido apenas na última cabine.

Monalisa Bueno falou sobre o entrosamento com Alex Malbec e as expectativas para o desfile. “Está sendo gratificante ter o Alex ao meu lado, um cara muito parceiro. A gente tem se dado muito bem porque falamos a mesma língua, que é a da dança. Isso é muito importante em uma parceria, ter alguém que realmente fecha com você. Por conta disso, nossa expectativa é conseguir executar tudo o que temos trabalhado nesses dois meses e arrasar na avenida”, comentou a porta-bandeira.
O mestre-sala também elogiou a parceira e destacou o empenho de ambos. “Eu e a Monalisa temos uma compatibilidade de interesses, o que facilita o trabalho. Os dois têm vontade de ensaiar e são muito dedicados. Existe um grande respeito entre nós. Nos cobramos bastante porque queremos concluir esse trabalho com êxito”, completou.
HARMONIA

O canto da comunidade da Pompeia é sempre um dos grandes destaques do Águia de Ouro. Se há um quesito em que a escola costuma apresentar alto nível, este é a Harmonia. Todas as alas cantaram bastante, apesar do desgaste provocado pela forte chuva. Caso o temporal não tivesse ocorrido, é possível que o rendimento fosse ainda maior.
Mesmo assim, o som dos componentes foi bem ouvido no Anhembi. Destaque para os versos “Nos festivais pra celebrar / Com o rei daqui e o rei de lá / E de mãos dadas bebemorar”, que já conduzem para um refrão de cabeça extremamente contagiante, um verdadeiro chiclete. Basta ouvir o samba duas ou três vezes para memorizar facilmente.

“Para a gente, graças a Deus, a chuva veio para lavar a alma. Que bom que choveu hoje. A gente espera que, no próximo ensaio, no dia 31, não chova, e que no dia do desfile também não. Mesmo assim, o ensaio foi muito bom. Quando você pega a escola com chuva, consegue ver toda a sua dimensão. O canto veio muito forte, a bateria com uma pegada muito boa, e a escola inteira cantou mesmo sem o som ligado. No dia 31, com o som, a comunidade vai cantar com ainda mais força. A gente vem mantendo surpresas no carnaval há muitos anos e, em 2026, elas são ainda maiores. No Carnaval de 2025, reinamos e acabamos perdendo em detalhes, especialmente na evolução. Agora é fazer o dever de casa, corrigir o que precisa ser corrigido e seguir em frente. É o feijão com arroz bem temperado”, afirmou o intérprete Serginho do Porto.

EVOLUÇÃO
Em razão da chuva intensa, os componentes do Águia de Ouro evoluíram de forma mais lenta. Não foi possível perceber uma movimentação mais ousada ou uma empolgação intensa por parte dos desfilantes. Ainda assim, algumas alas demonstraram mais animação do que outras, alternando o rendimento ao longo dos setores.

Dessa forma, não foi possível identificar claramente a proposta de evolução da escola, se mais solta entre as fileiras ou priorizando a progressão em linha reta, característica já conhecida da agremiação. Um destaque ficou para o verso “Com o rei daqui e o rei de lá”, no final da segunda parte do samba, quando os componentes movimentam os braços para a esquerda e para a direita.
Também chamou atenção a presença de adereços de mão, que criaram um belo contraste visual na pista, especialmente nesse trecho citado. O samba permite uma leitura mais leve e brincante, com cara de carnaval, algo que era esperado neste ensaio, mas que acabou comprometido pela forte chuva.
SAMBA-ENREDO
Os intérpretes Douglinhas Aguiar e Serginho do Porto, mais entrosados do que nunca, realizaram um ensaio seguro. A dupla empolgou o público e demonstrou equilíbrio, sem que um interferisse no desempenho do outro. Foram poucos cacos, deixando o samba fluir naturalmente e, quando aconteceram, ficaram bem distribuídos, respeitando o espaço de cada intérprete.

Destaca-se também o entrosamento com o recém-chegado mestre Moleza. Ambos trabalharam por muitos anos ao lado do mestre Juca e agora têm a missão de se adaptar a um novo comandante da Batucada da Pompeia.
Analisando a obra, percebe-se que se trata de um samba de fácil assimilação e confortável para o componente cantar. A composição oferece bons respiros entre os versos, favorecendo um canto mais fluido e consistente.
OUTROS DESTAQUES
A “Batucada da Pompeia”, liderada pelo estreante mestre Moleza, deu sustentação satisfatória ao samba. Destaque para a bossa em ritmo de reggae, localizada nos versos finais da segunda parte.

Moleza exaltou o andamento da bateria e o desempenho dos ritmistas. “A chuva veio para lavar. É assim que acreditamos espiritualmente. Ela vem para tirar o que não estava tão bom, seja das pessoas, seja do ambiente. Mesmo assim, com um samba-enredo muito alegre e debaixo de muita chuva, a bateria conseguiu cumprir seu papel: sustentar o samba durante toda a avenida”, afirmou.

O mestre também elogiou sua diretoria e destacou o êxito na execução das quatro bossas previstas. Segundo ele, a chuva não atrapalhou o desempenho. “Conseguimos executar todas as bossas planejadas. Foi mais do que um treino, foi um grande jogo. Costumamos dizer que é uma pré-temporada, um momento de adaptação. Nos preparamos para vir aqui e executar tudo o que planejamos. Saímos felizes com o resultado. Temos uma diretoria experiente, com muitos carnavais, o que nos permite nos adaptar a qualquer clima e, mesmo com chuva, realizar um grande ensaio”, declarou.










