A Maricá, caçula da Série Ouro, pisou na Sapucaí, em seu terceiro desfile no grupo, mais uma vez se postulando fortemente ao título. Com plástica de Grupo Especial, musicalidade de excelência e força nos quesitos de chão, a Vermelha e Branca da Região dos Lagos ouvia gritos das frisas e arquibancadas de “vai subir”. A escola estaria na briga pelo título, mas a última alegoria, “Reluz o Amuleto”, passou apagada do primeiro ao último módulo de julgamento e teve dificuldades para deixar a pista, fazendo com que a agremiação estourasse em dois minutos o tempo máximo de desfile. Já na dispersão, um momento triste: a última alegoria, “Reluz o Amuleto”, foi responsável por deixar quatro pessoas feridas. A alegoria bateu na grade da frisa do setor 12.
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Com comissão e casal tendo ótimo rendimento e boa resposta do público, evolução sem intercorrências e canto satisfatório da comunidade, a Maricá tem tudo para, pelo menos, estar nas primeiras colocações. Com o enredo “Berenguendéns e Balangandãs”, a União de Maricá foi a sexta escola a pisar na Sapucaí na segunda noite de apresentações da Série Ouro, com o tempo de 57 minutos.
COMISSÃO DE FRENTE
A comissão foi assinada mais uma vez pelo renomado coreógrafo Patrick Carvalho, que mais uma vez fez essa dobradinha com o carnavalesco Leandro Vieira, assim como na Imperatriz. Composta exclusivamente por mulheres negras, a comissão esteve intimamente ligada à ideia de empoderamento feminino e à construção simbólica da mulher negra como vitrine para o luxo e a exuberância das joias. O traje apontou para a memória africana de negras engalanadas, cobertas por adornos de ouro. Simbolicamente, o dourado presente no figurino lançou luz de forma poética sobre o acúmulo de poder traduzido por joias, enquanto o vermelho que tingiu a saia das componentes remeteu, de maneira metafórica, às lutas individuais de mulheres negras que se tornaram protagonistas de suas emancipações.

Já o elemento cenográfico que serviu de “palco” para a apresentação fez referência ao espaço público das ruas (local onde grande contingente de mulheres negras desenvolveu suas atividades de trabalho), num misto de arquitetura colonial acrescida de artigos diretamente associados ao imaginário afro-brasileiro. Coreograficamente, a luta de mulheres negras foi apresentada com garra e exuberância, enquanto o balangandã, artigo fundamental dentro do enredo, foi revelado em meio a imaginários de ancestralidade e devoção, quando a estrutura subiu acima das componentes, em união de duas partes que estavam inseridas em cada lado do elemento e se uniram no meio da alegoria.
Em consonância com isso, figuras cobertas de ouro, orixás femininos, também surgiam vindas do interior do carro através de elevadores. Na parte da frente do elemento, abaixo da figura da figa e dentro dela, na parte inferior do braço, uma mulher, como que em um domo utilizado para se colocar imagens de santos. Comissão com tamanho de Grupo Especial, bem desenvolvida, com clímax e efeitos. Serviu muito bem para apresentar o enredo. Indumentária e elemento cenográfico primorosos, de alto nível.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O experiente casal Fabrício Pires e Giovanna Justo se apresentou com a fantasia “Realeza e identidade”. Vestindo-se à moda africana, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira ostentou signos de realeza para mencionar o universo estético que o enredo aborda. Reforçando a ideia de que o uso de joias revela status e poder, o traje emplumado, luxuoso e ornamentado por búzios e joias douradas que vestia o primeiro casal impôs a narrativa de empoderamento negro proposta pelo enredo, debruçado sobre o balangandã.

A dança do casal mostrou bastante vitalidade, com a dupla aproveitando bastante as bossas que a bateria fazia para incluir algumas inserções de passos mais voltados para o afro. Fabrício, já de início, mostrou muita desenvoltura no refrão principal, riscando o chão com muita energia. E Giovanna, mesmo em um momento em que o vento estava mais forte, segurou muito bem e manteve o pavilhão bem desfraldado. O casal foi seguro, não ousou tanto, focando mais no bailado clássico. A dupla não teve intercorrências em seu bailado, e todas as apresentações nos módulos foram limpas, com correção e qualidade. A dupla é muito experiente e foi pelo caminho mais seguro.
ENREDO
“Berenguendéns e Balangandãs”, desenvolvido pelo carnavalesco Leandro Vieira, transformou uma joia produzida por mãos pretas em linguagem de resistência, autonomia e orgulho ancestral, reposicionando o corpo feminino negro no centro da narrativa carnavalesca. Nesse sentido, o enredo apresentou um artefato conhecido visualmente, mas com significado esvaziado ao longo do tempo. A abertura da escola apresentou as negras quitandeiras, mulheres fundamentais no Brasil colonial, responsáveis por gerar a renda que possibilitou o acúmulo de joias.

Na sequência, o desfile mergulhou nos antecedentes do balangandã, passando pela influência das joias portuguesas, pela expertise dos negros malês na forja do metal e pela relação do artefato com Ogum, senhor da forja. Nessa parte, o visual priorizou o tom metálico. O terceiro setor mostrou a individualidade de cada peça que compõe o balangandã: figa, estrutura metálica, dentes de animais e pingentes ligados aos orixás. No encerramento, a Maricá exaltou o empoderamento feminino por meio de mulheres pretas cobertas de joias, senhoras autônomas de sua própria história.
Outra ótima sacada de Leandro Vieira ao revestir uma joia de muito significado e ancestralidade. Fácil leitura das fantasias para apresentação de um tema com tamanho para os desfiles da Série Ouro, fácil de contar com três alegorias e o número de alas próprio para este grupo. O empoderamento feminino no final também foi um acerto e justificou a importância da história contada.
EVOLUÇÃO
A Maricá fazia um desfile de bom nível na evolução, cadenciado no início, mas com espontaneidade dos componentes. Parecia ter boa dosagem do tempo, fazendo suas apresentações sem correria, de forma controlada. Mas, no final, o último carro da escola, “Reluz o Amuleto”, teve dificuldades para deixar a pista, fazendo com que a agremiação estourasse em dois minutos o tempo máximo para encerrar o desfile.

Com isso, pelo regulamento, a agremiação deverá perder dois décimos, cada décimo referente a cada minuto ultrapassado do tempo limite. No final, também houve pequena correria da escola para fechar. Na pista, não se viram problemas de buracos. Como detalhe informativo, a União de Maricá optou pela não entrada da bateria no segundo recuo a fim de não prejudicar ainda mais a questão do tempo.
HARMONIA
Fazendo dobradinha neste carnaval, Zé Paulo Sierra, que também vai comandar o carro de som da Portela, mostrou que as preocupações com a maratona de trabalho em duas agremiações não afetaram seu rendimento, pelo menos não na Maricá. Com um carro de som de excelente musicalidade, Zé esteve bem à vontade e mostrou entrosamento das vozes e trabalho muito bem feito de preparação e ensaio. Zé Paulo fez, em diversos momentos, solos com a resposta do coro, em alguns trechos apenas com as vozes femininas, como no refrão do meio, em que ele cantava sozinho o “Balanço que lembra meu adarrum”, com a resposta das vozes cheias no “Na amargura de Ogum, memória ancestral”. Fantástico.

Excelente trabalho das cordas e ótima consonância entre carro de som e bateria, abrilhantando ainda mais a obra que a Maricá levou para a Sapucaí. Já o canto da comunidade foi satisfatório. Alguns momentos com um pouco mais de força, mas sempre presente. Em alguns trechos, o carro de som deixava a escola cantar sozinha o “Claro, tinha que ser preto” do refrão principal. A comunidade comprou a ideia e mostrou força e rendimento para nota máxima.
SAMBA-ENREDO
A obra escolhida pela Maricá para este carnaval foi composta por Babby do Cavaco, Rafael Gigante, Marcelo Adnet, Hélio Porto, Jefferson Oliveira e André do Posto. O trabalho realizado pela direção musical da escola fez com que o samba fosse levado ao máximo na Sapucaí. Com andamento muito adequado à obra, a escola aproveitou todas as partes para que a bateria “Maricadência” pudesse inserir bossas muito pertinentes ao contexto da música. Logo na cabeça, no verso “Nega da Ladeira do Pelô”, foi introduzida uma bossa com levada de axé. E, no refrão do meio, “Balanço que lembra meu adarrum…”, uma bossa de atabaque com batida para orixá, totalmente dançante e evocando ancestralidade.
No geral, um samba muito gostoso de se ouvir, conduzindo bem o desfile, com pegada para frente sem prejudicar a melodia e a métrica. Além disso, ótima interação com o público. O trecho mais cantado, obviamente, foi o último verso da segunda parte do samba, “Vai dormir com esse barulho”, algumas vezes com o carro de som deixando para a escola cantar sozinha.
FANTASIAS
O conjunto de fantasias da União de Maricá teve nível dos conjuntos apresentados por Leandro em títulos da Série Ouro com Imperatriz e Império Serrano, e até mesmo de desfiles que ele assinou no Grupo Especial. Entre os pontos altos, destaca-se o bom uso da paleta de cores para retratar cada ponto do enredo, variando o uso do prata, dourado e branco com tons de marrom e palha quando o enredo pedia mais ancestralidade. Costeiros e adereços de mão muito bem desenvolvidos, como nas alas “Herança dos Malês” e “Armadura de Ogum”.

No último setor, por exemplo, houve excelente mistura entre o dourado, os tons pastosos, o acabamento mais metálico das joias com estampas africanas, como nas alas que vinham antes do último carro, destacando-se as fantasias “Espelho e Orgulho” e “Pretas Consagradas”. O primeiro figurino, inclusive, com saias rodadas que produziam bonito efeito. Um conjunto estético primoroso, de acabamento luxuoso. Assinatura de Leandro. Outro destaque para a ala das baianas, que recriou de forma carnavalesca o imaginário das negras que praticavam a venda ambulante e, por meio do trabalho diário e de estratégias de existência e resistência, passaram a adquirir variada sorte de joias de ouro e prata como uma espécie de poupança financeira.
ALEGORIAS
Leandro Vieira trouxe para a Sapucaí, assim como no conjunto de fantasias, um conjunto alegórico primoroso e impactante. Com esculturas com a assinatura do carnavalesco e traço fino, as alegorias apresentaram boa volumetria, principalmente para o que Leandro vinha trazendo para a Série Ouro. Alegorias com movimento e bem inseridas no enredo. Porém, a última alegoria, “Reluz o Amuleto”, causou muitos problemas na Sapucaí. O primeiro deles foi passar em todos os módulos completamente apagada, o que deve fazer com que a escola perca vários décimos. A alegoria também foi responsável por deixar quatro feridas. A alegoria bateu na grade da frisa do setor 12.
O abre-alas, “Nêga da Ladeira do Pelô”, reproduziu cenograficamente o espaço público das ruas da Bahia colonial. Inspirado nos registros de artistas como Jean-Baptiste Debret (1768-1848), o conjunto cênico reproduziu, de maneira carnavalesca, os velhos casarões que testemunharam mulheres escravizadas realizando o comércio ambulante nas ruas. A segunda alegoria, “Ogum é a Forja do Metal”, fez menção ao imaginário do orixá Ogum dentro da simbologia da joia de tradição afro-brasileira. Caracterizado como o “deus-ferreiro” e o “senhor da forja”, o saber africano da manipulação de metais, que tanto foi usado para a produção dos berloques que compõem a penca, é associado ao universo simbólico da divindade. No centro do conjunto alegórico, o orixá foi representado como uma espécie de guerreiro retinto que veste sua armadura de prata. No topo, o conjunto escultórico fez menção carnavalesca ao assentamento de Ogum e às pencas feitas com artigos de ferro e prata que tradicionalmente estão penduradas, imbuídas de devoção. São reproduções carnavalescas de espadas, martelos e outras ferramentas de trabalho que, pendendo em uma estrutura igualmente metálica, reforçam as semelhanças entre os símbolos associados ao universo votivo do orixá e o design dos balangandãs usados como uma espécie de “joia-amuleto”.

O último carro, “Reluz o Amuleto”, encerrou o desfile apresentando o balangandã como uma joia que traduz o status e o empoderamento de mulheres pretas. Predominantemente dourada e ricamente decorada, a cenografia geral mencionou a narrativa de poder revelada pelo artigo e celebrou o corpo preto como vitrine de luxo, ostentação e beleza, apesar das limitações raciais impostas por uma sociedade racista marcada pelo sistema escravocrata.
OUTROS DESTAQUES
Os passistas vestiram a fantasia “Força Animal”, utilizando uma estética “selvagem e animal” para mencionar uma prática comum junto às pencas de balangandãs: a utilização de dentes de javalis, onças, gatos-maracajás e jacarés como amuletos de proteção e evocação de força por aqueles que os levavam junto ao corpo. A bateria “Maricadência”, de mestre Paulinho Steves, foi vestida pelo carnavalesco Leandro Vieira, ostentando como signo imagético de seu traje um popular, simbólico e recorrente artigo presente em boa parte das pencas como uma espécie de amuleto capaz de propiciar a evocação de caminhos abertos: a chave. Na pista, os ritmistas mostraram segurança.

A rainha Rayane Dumont veio com o figurino “Joias da Princesa”, vestindo o brilho dos artigos dourados que compuseram seu figurino, ostentando luxo e exibindo estética exuberante influenciada pelo contorno africanizado, personificando todo o imaginário de luxo e ostentação associado à joalheria negra.

No esquenta, Zé Paulo Sierra cantou a obra do carnaval passado, “O Cavalo do Santíssimo e a Coroa do Seu 7”. Com drones, antes do desfile, a escola escreveu no céu “Vai dormir com esse barulho”, além de seu nome e símbolo, sendo ovacionada pela Sapucaí nesse momento.









