A reedição do samba-enredo de 2012 impulsionou o belo desfile da Mancha Verde e deve assegurar o retorno da escola à elite do samba paulistano. Já a segunda vaga promete uma acirrada disputa na apuração, uma vez que as outras escolas da noite realizaram desfiles nivelados.

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Dom Bosco de Itaquera, Independente Tricolor e Pérola Negra foram as escolas que aparentemente fizeram apresentações mais técnicas e estão fortes na disputa. Vila Maria, Nenê, Tucuruvi e Camisa 12 ainda correm por fora, ao mesmo tempo em que também brigam pela permanência em um grupo extremamente nivelado com tradicionais agremiações.

CAMISA 12

De volta ao Grupo de Acesso 1 do carnaval de São Paulo, a Camisa 12 abriu o domingo de desfiles com o enredo “Princesas Nagô, Rainhas do Brasil – A origem da fé, Herança de Ketu”. A comissão de frente veio com integrantes em preto, azul e dourado, além de três mulheres de saias rodadas que mudavam de vestimenta ao longo da pista, representando as princesas nagô que vieram a um Brasil ainda escravocrata.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

O primeiro casal fez uma apresentação segura e empolgante em frente ao segundo módulo de jurados. Destaque para os belos giros dela e pela leveza dos movimentos dos dois. Com meia hora de apresentação a bateria entrou, saindo aos 44 minutos. O samba-enredo rendeu nas vozes de Clóvis Pê e Tim Cardoso. Da mesma forma que a bateria ajudou a elevar o canto da comunidade alvinegra.

As alegorias eram de bom gosto e com bastante capricho. O abre-alas veio “puxado” por três panteras negras, que vinham à frente de uma igreja e de uma grande escultura que carregava arco e flecha. Vale destacar o último carro, que continha quatro esculturas de ogãs tocando atabaque nas pontas, e um grande Oxalá na parte central. A escola fechou seu desfile com 57 minutos, dentro do tempo estabelecido pelo regulamento.

VILA MARIA

Com “fome de Grupo Especial”, a Vila Maria exaltou a culinária brasileira neste carnaval. A comissao de frente da agremiação da Zona Norte veio representando uma verdadeira feira, com direito a barraquinha de frutas nas cores da escola, com preço e tudo. Foi uma apresentação de fácil leitura, e que contou ainda com a participação de uma criança em alguns momentos da coreografia. As duas primeiras alas e o carro abre-alas passaram simbolizando o cultivo e a colheita de milho e do açaí, todo em tons de roxo, verde e amarelo, com esculturas de indígenas e camponeses.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

A bateria de cozinheiros trouxe um molho especial ao samba-enredo, interpretado por Clayton Reis de forma segura. A Cadência da Vila fez um breque no refrão principal em que um apagão, sustentado na palma da mão por toda a escola, levantou as arquibancadas. Os batuqueiros entraram no recuo aos 26 minutos de desfile, saindo de lá com 42. As baianas vieram todas de branco, com detalhes em verde e azul, além de um prato de acarajé na mão.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

O segundo carro era “puxado” por 2 charretes, com dois burros em cada. A alegoria trouxe também um grande fogão à lenha, colheres de pau e duas esculturas de chefes de cozinha na parte de trás. Por sua vez, no último carro havia um grande banquete, com a velha guarda nas laterais, sentados em mesinhas de bar, cercados de diversos copos de chopp com merchandising da marca de cerveja patrocinadora do carnaval paulistano. A escola encerrou seu desfile com o relógio marcando 1h, escapando de estourar o tempo por 5 segundos.

TUCURUVI

Terceira a desfilar no Anhembi no último domingo de carnaval, a Acadêmicos do Tucuruvi exibiu seu enredo crítico “Anti-Herói Brasil”, exaltando a resiliência do povo brasileiro. A comissao de frente passou toda no chão, com alguns integrantes descalços e outros vestidos com roupas feitas de sacola plástica preta. Eles fizeram uma coreografia intensa e repleta de movimentações em cima da letra do samba. O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Luan e Beatriz, fizeram uma passagem bastante segura, esbanjando sintonia nos passos para apresentar o pavilhão da Tucuruvi.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

O carro abre-alas, de extremo bom gosto, entrou no Anhembi imponente, porém, uma parte dos elementos da decoração se desprendeu da alegoria e precisou ser retirada em frente ao recuo da bateria, que possui um módulo de julgamento. A versátil bateria do Zaca, de mestre Serginho, deu sustentação ao samba-enredo durante toda a passagem da escola. Entraram no recuo com meia hora de desfile e saíram de lá aos 44 minutos. As alas vieram com fantasias bem coloridas e com certa variação nas formas.

Destaque para a ala com os guardas-chuva, em referência aos bailes funk de São Paulo, que entre os dizeres trazia escrito “É o fim 6×1”, criticando a escalada de trabalho que fornece apenas uma folga semanal. Também vale mencionar a ala seguinte, que trazia escudos em que podia-se “Tá em Choque Malandragem”, além de materiais escolares no costeiro, passando a mensagem de que a educação pode ser uma “arma” perante às injustiças. A última alegoria trazia integrantes na parte do meio fazendo uma movimentação coletiva, às vezes balançando bandeiras, o que dava um belo efeito. Um grande Exu, ajoelhado, encerra o carnaval da escola da Cantareira.

MANCHA VERDE

Reeditando seu histórico samba-enredo de 2012, a Mancha Verde apresentou na avenida o enredo “Pelas Mãos do Mensageiro do Axé, a Lição de Odu Obará: a Humildade”. Novamente interpretado por Freddy Vianna, o samba foi o mais cantado da noite pelas arquibancadas. A escola refez toda a coreografia da comissão de frente, se comparada ao desfile original, trazendo um elemento alegórico para sustentar a representação dos orixás.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

O primeiro casal da Mancha, Adriana e Thiago, demonstrou equilíbrio e leveza ao conduzirem o pavilhão da agremiação alviverde, mesmo com uma fantasia luxuosa em tons terrosos e que aparentava ser pesada. A ala das baianas foi fragmentada em quatro fileiras de fantasias com cores distintas: azul, branco, amarelo e vermelho. O carro abre-alas era gigantesco e suntuoso, todo em marrom, bege, branco e dourado, digno de Grupo Especial.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

Já o segundo carro trouxe cinco leões dourados na parte frontal, repleto de crianças nas laterais e com uma enorme coroa vermelha e dourada na parte superior. Também havia abóboras recheadas de ouro, que estão diretamente ligadas a lição abordada no enredo, em que a prosperidade provém da humildade. O apagão geral da bateria nos últimos versos do samba fez ressoar o canto da escola. O desfile foi encerrado aos 59 minutos, sem alterações de andamento. Sem dúvidas a Mancha é fortíssima candidata a retornar ao Grupo Especial em 2027.

PÉROLA NEGRA

Tentando retornar ao Grupo Especial do carnaval paulistano, a Pérola Negra homenageou a figura de Maria Bonita, a rainha do cangaço, retratando-o como símbolo de coragem, inteligência e ruptura. A comissão de frente mostrou um certo duelo entre cangaceiros e militares, em que um grupo rendia o outro, apontavam-se as armas e assim prosseguia o embate.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

O primeiro casal veio com suas roupas nas cores laranja, dourado, marrom e branco. Eles realizaram uma apresentação segura e síncrona, sem intercorrências. Vale ressaltar a beleza e originalidade da ala das baianas, com saias vazadas, inteira em tons de marrom, bege e branco. De modo geral, as fantasias eram de fácil leitura dentro do enredo, muitas delas com costeiros de penas que se sacudiram no ar conforme o balanço dos componentes.

Enquanto o abre-alas vinha com Lampião, o cangaceiro, o segundo carro trazia bonecos característicos de Mestre Vitalino e uma grande escultura de Luiz Gonzaga, no alto. Já o último carro carregava uma escultura de Maria Bonita empunhando um facão. Grande apresentação da bateria do Pérola e de seu carro de som, que trazia também uma sanfona na melodia do samba. O ponto alto da parte musical do desfile foi o ritmo de xota que era feito em uma das bossas da Swing da Madá.

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NENÊ DE VILA MATILDE

A Nenê de Vila Matilde levou ao Anhembi o enredo “Encruzas – Nenê de Corpo e Alma no Coração de São Paulo” para falar da esquina mais famosa do Brasil, o cruzamento da Rua Ipiranga com a Avenida São João. A comissão de frente foi um dos pontos fortes da Vila Matilde, trazendo um tripé com muita boemia, Exu e malandragem, resumindo bem o enredo e apresentando a escola ao público. O primeiro casal Edgar e Graci veio com uma coreografia baseada no samba, com movimentos bem sincronizados e muita simpatia. Eles usavam belas fantasias em azul, prata e branco.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

Já a ala das baianas desfilou de azul e amarelo, logo à frente de uma belíssima Águia, símbolo da escola, que vinha no carro abre-alas. Bondes e o Teatro Municipal também faziam parte da alegoria, além da ala das crianças, presente no primeiro chassi desse grandioso carro. As fantasias eram de bom gosto e fácil leitura, fazendo no Anhembi um verdadeiro festival de cores.

A bateria de Bambas fez um breque de apagão no refrão de cabeça que contagiou todo o público presente no sambódromo. Eles entraram no recuo aos 29 minutos de desfile e saíram com 40. A Harmonia da Águia Guerreira da Zona Leste foi uma das melhores da noite, com a comunidade cantando forte o samba, muito bem puxado por Tiganá e seu afiado time de canto. A escola enfrentou alguns problemas de evolução na pista, mas conseguiu encerrar sua passagem dentro do tempo.

DOM BOSCO

Penúltima agremiação a pisar na passarela do samba paulista, a Dom Bosco trouxe o enredo “Mariama – Mãe de todas as raças, todas as cores. Mãe de todos os cantos da terra. A escola cantou Nossa Senhora Aparecida em sua identidade negra, reafirmando sua essência litúrgica e popular. Destaque para a bossa na parte final do samba, em que os surdos de terceira seguravam o andamento enquanto a comunidade da escola cantava alto o melodioso samba.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

Logo de início, pode-se ver uma comissão de frente dinâmica e com movimentos extremamente precisos. O ponto alto da coreografia foi a aparição de uma componente simbolizando Nossa Senhora Aparecida no alto do belo elemento alegórico. O primeiro casal, Leonardo e Mariana, manteve o alto nível de abertura da escola, praticamente toda em dourado. Ele veio com uma rede de pescadores como capa, demonstrando originalidade na fantasia.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

As baianas e o abre-alas, que trazia uma escultura de Nossa Senhora com tom de pele negra, seguiram no mesmo tom. A alegoria tinha ainda água como parte da decoração do piso. Em frente à arquibancada monumental, a bateria da Dom Bosco soltou balões de gás helio que formavam um belo terço nos ares, enquanto a escola dava sequência ao seu cortejo. As fantasias das alas também merecem elogios por conta do belo acabamento, algumas delas traziam adereços de mão, dando volume e movimento na evolução da escola, que passou tranquila no tempo, fechando com 59 minutos.

INDEPENDENTE

Faltavam 20 minutos para as 5 horas da manhã de segunda quando a Independente Tricolor deu início ao seu desfile, com certo atraso por conta de ter um rastro de água na pista, que foi seca pelos funcionários da limpeza do sambódromo. Com um enredo entitulado “N’goma – A Primeira Festa na Manhã do Mundo”, a Tricolor trouxe a história de como o tambor funda o Brasil.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

A comissão de frente trouxe um tripé onde dançavam sete orixás, entre eles Oxalá, além de outros integrantes que compunham a coreografia. O primeiro casal da Independente, Thais e Jeff, fez uma apresentação segura nos movimentos e encantadora pela fantasia. Fantasias da escola, aliás, que fizeram boa utilização dos costeiros. Já as alegorias também estavam bem acabadas. Vale destacar o luxo do abre-alas e a alegria das crianças, que vieram no último carro, que também tinha esculturas de ogãs e um grande Xangô no alto da alegoria.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

A bateria Ritmo Forte transformou o Anhembi em um verdadeiro xirê, especialmente com o apagão geral feito no refrão principal do samba-enredo, que foi intensamente cantado. A bateria entrou no recuo aos 25 minutos e saiu quando o relógio marcou 40, porém a escola não conseguiu cumprir o tempo máximo do desfile, estourando em 1 minuto sua apresentação, o que poderá custar alguns décimos preciosos na apuração.