Por Letícia Sansão, Ana Carla Dias e Will Ferreira
A Mancha Verde abriu os ensaios técnicos do último sábado no Sambódromo do Anhembi com um rendimento superior ao apresentado em sua primeira passagem. Com o sistema de som funcionando plenamente, a escola contou com uma comunidade mais quente, canto forte e resposta imediata aos chamados da bateria, o que transformou a avenida em um grande terreiro a céu aberto.
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O ensaio foi encerrado em 1h00, tempo confortável dentro do limite, e indicou uma escola organizada, animada e consciente do projeto que constrói para o Carnaval. Após a queda em 2025, a Mancha retorna ao Grupo de Acesso com certo favoritismo, apostando em um projeto robusto para brigar pelo retorno ao Grupo Especial.
A escola será a quarta a desfilar no domingo de Carnaval, pelo Grupo de Acesso, com o enredo “Pelas Mãos do Mensageiro do Axé, a Lição de Odu Obará: a Humildade”, uma releitura do desfile apresentado em 2012, agora sob a liderança do carnavalesco Rodrigo Meineirs.
COMISSÃO DE FRENTE
A comissão de frente mostrou quem vai abrir caminho, como manda o enredo. No ensaio, foi possível observar a marcação de um tripé que contará com coreografias executadas em sua parte superior, enquanto outros componentes desenvolvem movimentos no chão.
A encenação apresenta personagens que remetem a diferentes orixás, como Oxalá, Exu e Oxum, entre outros. Em determinado momento, os bailarinos realizam saudações aos orixás, enquanto, no chão, os passos afro dialogam diretamente com a proposta do enredo e reforçam a atmosfera que a escola pretende levar para a avenida.
As referências ao desfile de 2012, especialmente ao abre-alas que reunia todos os orixás, aparecem de forma clara, mas os coreógrafos Marcos e Wander reforçam que se trata de uma releitura com outra linguagem e novos recursos. Wander explicou que a comissão atual incorpora ferramentas adotadas pelo carnaval nos últimos anos e que muitas das surpresas ficam reservadas para o desfile oficial.

“Esse trabalho é legal porque foi um trabalho que nós fizemos como componentes da comissão de 2012. Refazer algo do qual você participou é muito interessante. Ele é bem diferente do que era naquele carnaval. Vamos usar muitos recursos que o carnaval adotou nesses últimos oito ou dez anos. A questão do enredo vai estar muito latente na comissão.
Muita coisa que vocês estão vendo nos ensaios talvez não apareça no dia do desfile. A ideia é confundir um pouco para surpreender”, afirmou.
Marcos reforçou o peso histórico do quesito e o impacto esperado na nova versão. “A comissão de 2012 foi muito marcante, era um xirê, a primeira vez em São Paulo com todos os orixás. A releitura é diferente. Não podemos dizer como será porque é surpresa, mas vai ser bem impactante.”
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Adriana Gomes e Thiago Bispo farão sua estreia como primeiro casal da escola e já demonstram uma construção de trabalho com entrosamento crescente. Apesar de estilos distintos — Adriana com uma dança mais clássica e Thiago com uma movimentação mais contemporânea —, a dupla encontrou uma identidade em comum sem perder as particularidades individuais.
A evolução de um ensaio para o outro ficou evidente. Adriana destacou os ajustes realizados desde a primeira passagem. “Nós só melhoramos do primeiro ensaio para cá. Ajustamos o que entendemos que precisava ser ajustado e eu acho que rolou, deu tudo certo.”

Thiago chamou atenção para a adaptação do casal às paradas propostas pela escola, especialmente no paradão da bateria. “No segundo ensaio tivemos uma parada que não imaginávamos, mas a escola resolveu fazer uma parada maior para o canto. Isso mostra que estamos muito sincronizados, colocando a coreografia em pauta quando é necessário e fazendo os encaixes durante a pista. Precisamos entender o que a escola está demandando, e conseguimos fazer isso.”
HARMONIA
A harmonia foi um dos grandes destaques do ensaio. A escola cantou forte ao longo de toda a pista, com resposta coletiva expressiva, especialmente durante o paradão da bateria, quando os componentes sustentaram o samba em uníssono.
No ensaio anterior, a ausência do sistema de som impediu uma leitura mais precisa do impacto musical. Com o equipamento instalado, o rendimento cresceu de forma visível, o que se refletiu em maior empolgação e regularidade de canto entre os setores.
O intérprete Fredy Vianna destacou o trabalho da ala musical e a segurança que o conjunto proporciona ao canto. “A ala musical só me dá orgulho. É um prazer cantar do lado deles, um profissional melhor que o outro. Eles me dão todo o suporte para eu ficar livre, fazer cacos, terças e aberturas de voz. É um samba já conhecido pela escola, e eles estão pintando e bordando. É uma ala muito consciente do que faz.”
EVOLUÇÃO
A evolução se apresentou organizada e fluida. Não foram observados buracos significativos, e as alas mantiveram bom espaçamento e andamento regular durante todo o percurso.
Destaque para as alas coreografadas, que desfilaram sempre no ritmo do samba, com movimentos bem amarrados. Mesmo com coreografias marcadas, os componentes mantiveram o canto forte, o que demonstra entrosamento entre evolução e harmonia.
SAMBA-ENREDO
Reeditado do Carnaval de 2012, o samba-enredo segue amplamente assimilado pela comunidade e é cantado com entrega do início ao fim do ensaio. A obra carrega forte memória afetiva e funciona como motor de empolgação da escola.
Um ponto simbólico é que o samba é defendido pelo intérprete Fredy Vianna, um dos compositores da obra, que estreou justamente no ano do desfile original. Sobre a expectativa para o retorno do enredo à avenida, ele afirmou que a escola executará exatamente o que vem sendo ensaiado e que ainda guarda uma surpresa para o desfile oficial.

“Eu só projeto o melhor. Nós não vamos deixar de fazer nada do que ensaiamos. O que estamos fazendo fora, fizemos aqui dentro e vamos fazer um pouco a mais. A escola vai colocar uma surpresa na avenida.”
OUTROS DESTAQUES
A Bateria Puro Balanço, comandada por Mestre Cabral e Mestre Viny, teve atuação segura. O paradão foi bem sustentado e potencializou o canto da comunidade. As bossas apresentadas mostraram diferenças claras em relação à versão de 2012, o que indica uma atualização musical da releitura.
Cabral avaliou o desempenho da Puro Balanço:
“É um trabalho de formiguinha. A gente vê os resultados pouco a pouco e achamos o ensaio maravilhoso. Claro que foi só mais um ensaio. Ainda temos muito o que corrigir para chegar no dia do desfile, mas acreditamos que conseguimos buscar esse acesso ao Grupo Especial mais uma vez”, comentou Felipe Cabral.










