Por Gustavo Lima, Ana Carla Dias e Will Ferreira

A Mancha Verde realizou seu primeiro ensaio técnico nesta chuvosa sexta-feira. Mesmo com a cidade de São Paulo em caos, com diversos pontos alagados, os componentes não arredaram o pé e foram ao Anhembi cantar a todo vapor. Por falar em canto, a harmonia da escola foi um dos grandes destaques do ensaio. É sabido que a comunidade da Mancha canta forte, mas, com este samba reeditado de 2012, a expectativa é ainda maior. Trata-se da obra mais marcante da história da escola, apresentada em um desfile histórico, ao amanhecer. Mesmo em outro contexto, o ar de nostalgia permanece, e a garra pelo acesso vibra nos componentes da agremiação.

Tudo isso foi embalado por uma ala musical de ótima sonoridade, comandada pelo intérprete Fredy Vianna, que é um dos compositores da obra e teve sua estreia em 2012 — outra grande curiosidade deste desfile que está por vir. Um ensaio completo, sem erros, ainda com alguns pontos passíveis de ajuste para alcançar a excelência nas próximas etapas.

A Mancha Verde será a quarta escola a desfilar no domingo de carnaval, pelo Grupo de Acesso. Com uma comissão de carnaval definida, o enredo tem como título “Pelas mãos do mensageiro do Axé, a lição de Odu Obará: a humildade”, reedição do Carnaval de 2012. A “Mais Querida” volta a ensaiar no Anhembi no dia 31 de janeiro.

COMISSÃO DE FRENTE

O grupo, comandado por Marcos Kazan e Wender Lustosa, apresentou uma coreografia de fácil entendimento, ao menos neste ensaio técnico. Fato é que muita coisa ainda está por vir nesta comissão de frente, pois o elemento alegórico que será utilizado foi apenas demarcado como espaço e ainda não se encontra no Anhembi. Sendo assim, viu-se um grupo executando diversas danças afro, cumprindo os requisitos de saudar o público e apresentar a escola, além de mostrar uma prévia do enredo.

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Os bailarinos gritaram e simbolizaram as mazelas que o mundo enfrenta neste momento da humanidade. Em determinado ponto, o personagem que representa Oxalá altera o curso da narrativa, fazendo com que o bem prevaleça, para o desespero dos integrantes que simbolizam o mal.

Vale destacar a presença do ex-mestre-sala Marcelo Silva, que até 2025 foi parceiro de Adriana Gomes. Neste treino, ele auxiliou a comissão de frente e segue demonstrando engajamento com a escola.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O casal Thiago Bispo e Adriana Gomes realizou seu primeiro ensaio técnico junto no Anhembi. O mestre-sala desfilava como segundo e foi promovido a oficial, enquanto a porta-bandeira tem uma longa trajetória na Mancha Verde. Vale lembrar que ambos desfilaram juntos no Carnaval de 2024, quando Marcelo Silva adoeceu e precisou ser substituído. Na ocasião, conseguiram garantir a nota para a escola.

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Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

No ensaio, optaram por uma apresentação bastante técnica. Ao menos neste primeiro momento, houve uma coreografia discreta, priorizando os movimentos obrigatórios. Destaque para a leveza de Adriana Gomes, que demonstrou intensidade nos giros horários e anti-horários. Não faltou elegância ao estender o pavilhão para o público, arrancando aplausos dos presentes nas cadeiras e arquibancadas. Uma mostra de sorriso no rosto e alta sincronia para um primeiro ensaio técnico em conjunto. Resta observar se a dupla manterá essa estratégia nos próximos treinos ou se apostará em uma abordagem diferente.

“Eu acho que a grande mudança é a experiência de estar junto. Porque o segredo de um grande casal é você trocar ideias, experiência, a inexperiência. E não só a dele, a minha também. Acho que a gente se renova. Eu venho de parcerias muito grandes, eu fiquei oito anos com Emerson, eu fiquei 12 anos com Marcelo. É muita coisa, eu falo que eu tive uma separação e agora estou namorando de novo, namorando um homem maravilhoso. A gente está partindo para o nosso noivado. A gente fez o nosso noivado aqui hoje e vai para um casamento. Se Deus quiser, a lua de mel, vai ser o desfile das campeãs. Mas eu acho que tudo isso vale de experiência, vale de aprendizado. Eu estou aprendendo demais com ele. Ele está me ajudando a ter paciência, porque ele vem do novo, não porque ele é mais novo do que eu, mas ele vem novo, com ideias novas que a gente vai se implementando, se construindo, se completando. Acho que esse é o grande plus da nossa dança agora”, disse a porta-bandeira.

“É meu primeiro ensaio como primeiro mestre-sala, porque 2024 só foi ‘vai lá cara, vai pra pista e vamos ver o que dá’. Mas brincadeiras à parte, foi um ensaio incrível! Tem um nervosismo, mesmo tendo 24 anos de dança, ser o primeiro mestre-sala de uma escola tão grande como a Mancha Verde, a escola do meu coração é difícil. Mas foi um um ensaio muito bom mesmo, eu saí muito contente. Se a gente conseguir executar da mesma maneira na pista, vamos estar 1.000% feliz, 100 e pouco”, completou o mestre-sala.

HARMONIA

O canto dos componentes foi o grande destaque do ensaio técnico. Até o momento, a Mancha Verde acertou em cheio ao escolher a reedição do enredo de 2012 para buscar o retorno ao Grupo Especial. Nas outras duas ocasiões em que houve rebaixamento, a escola também apostou em reedições, mas, desta vez, escolheu o samba mais querido pela comunidade.

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Do refrão de cabeça ao último verso, a comunidade cantou sem parar. Não há uma estrofe específica que se sobressaia, mas vale destacar os versos finais, quando a bateria “Puro Balanço” realizou dois ou três apagões:

“Oh Senhor,
Perdoai a humanidade,
Iluminai a consciência
Pra guiar essa mudança.
Vou guardar no coração,
Levar em minhas mãos
A mensagem de esperança”.

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Um “paradão” que culmina em uma explosão no refrão principal.

O único ponto de atenção é o tempo de canto entre as alas. Na retomada da bateria, houve uma divergência perceptível entre os componentes da cabeça da escola e os desfilantes do fundo, possivelmente em razão da falta de som no Anhembi, já que todos se orientam apenas pelo carro de som do intérprete, que por vezes fica distante. Com o sistema completo nas próximas semanas, a tendência é que essas falhas sejam minimizadas.

EVOLUÇÃO

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A escola apresentou uma evolução de alto nível no Anhembi. Houve grande animação por parte dos próprios componentes, com movimentação constante de um lado para o outro da pista. Também estiveram presentes alas coreografadas no ritmo do samba, que evoluíram de forma contínua. Não houve teatralização excessiva, mas o conjunto gerou um belo contraste dentro do ensaio da Mancha Verde.

Não foram registradas ocorrências de espaçamento ou divisões entre alas. Tudo ocorreu de forma correta, reflexo de um fundamento que vem crescendo na escola nos últimos anos. Vale destacar ainda a montagem da cabeça da escola: comissão de frente, ala coreografada, casal de mestre-sala e porta-bandeira, ala de enredo e, por fim, a marcação do abre-alas. Atenção máxima para evitar sobras de grades no desfile oficial.

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“O samba, ele já traz essa energia. Desde 2012, um samba meu, uma composição minha. Fico muito orgulhoso de cantar ele pela segunda vez. Sou o primeiro do Brasil a cantar uma reedição e uma composição minha e, eu acho que a comunidade, ela desde o início, quando nós lançamos o enredo ela abraçou a causa e está todo mundo no mesmo pensamento, todo mundo veio na mesma energia de ‘nós vamos levar a Mancha para o Especial com o samba favorito da gente’, porque esse samba ele ganhou numa enquete da escola o melhor samba-enredo. Não tinha uma escolha melhor. Tenho o costume de cantar, que cabe muito bem na minha voz, porque eu fiz a melodia dele. É muito orgulho para uma só pessoa. A expectativa é voltar ao Grupo Especial. Ficou engasgado esse rebaixamento, mas vamos ver o que vai dar. É uma briga boa, muitas escolas boas, mas a Mancha está forte e unida. Está com um carnaval incrível de barracão. Um carnaval de comissão de frente incrível, vai ser uma coisa sensacional, que vocês nunca viram”, disse o intérprete Fredy Viana.

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SAMBA-ENREDO

Outro grande destaque do ensaio. Além da qualidade da letra, já amplamente reconhecida, a ala musical mostrou-se extremamente entrosada. O intérprete Fredy Vianna conduziu o samba com interação constante com o público, contando com apoios de altíssimo nível e presença marcante de vozes femininas.

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No trecho “Orunmilá criou senhores do destino”, há um contracanto bastante conhecido, repetido pelos componentes (“ôôô”), executado pela ala musical, enquanto Fredy permanece responsável pela melodia principal. Um excelente samba, perfeitamente alinhado a um carro de som de qualidade ímpar.

OUTROS DESTAQUES

A rainha de bateria da “Puro Balanço”, Viviane Araújo, esteve presente e levou o público ao delírio. Integrante da Mancha Verde há mais de duas décadas, desfilou ao lado da princesa Duda Serdan, vista como um espelho de sua pupila.

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A bateria “Puro Balanço”, dos mestres Vinny e Cabral, levou um ritmo mais cadenciado do que o habitual para a avenida. Houve a realização de bossas, com destaque para o apagão nos últimos versos do samba.

As baianas, vestidas em diferentes tons de verde, ajudaram a cantar o samba a plenos pulmões.

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