Por Carolina Freitas e Juliana Henrik

A praia de Copacabana foi palco de um momento histórico para o carnaval carioca no feriado de São Sebastião. Na Fan Fest, evento promovido pela Rio Carnaval, 1.243 ritmistas se reuniram para formar a Maior Bateria do Mundo, marca que entrou oficialmente para o Guinness World Records. A superbateria foi composta por cerca de 105 ritmistas de cada uma das 12 escolas de samba do Grupo Especial, sob o comando coletivo de seus respectivos mestres de bateria. Mais do que um espetáculo sonoro, o feito simbolizou o reconhecimento internacional do trabalho dos ritmistas, considerados o coração das escolas de samba. A apresentação ainda contou com os shows de Belo e de Neguinho da Beija-Flor.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

bateria maior26 20
Fotos: Carolina Freitas e Juliana Henrik/CARNAVALESCO

O presidente da Liesa, Gabriel David, explicou que o projeto nasceu de um planejamento antigo e ganhou força no início deste ano, viabilizado por parcerias estratégicas.

“Essa ideia surgiu desde quando a gente começou com a história da Fan Fest. Já estudávamos o evento há alguns anos. Quando virou o ano, o João Mourinho, diretor Institucional da Liga, chegou e falou: ‘cara, é o ano de a gente fazer’. Já temos aderência comercial suficiente para poder realizar esse momento”, afirmou. Segundo ele, a iniciativa foi construída a várias mãos.

bateria maior26 19

“A gente se juntou com o Abel Gomes. Ele, é preciso reforçar sempre, é um dos maiores gênios da história do entretenimento brasileiro. E quando você junta muitas pessoas boas, apaixonadas pelo que fazem, apaixonadas pelas escolas de samba, surgem boas ideias”.

A partir disso, nasceu a proposta de quebrar um recorde mundial: “Em uma mesa, surgiu: vamos fazer uma grande bateria. O Abel já tinha feito um encontro de baterias lá atrás. Aí pensamos: vamos fazer a maior bateria. Qual é a maior bateria que tem no Guinness? Vamos fazer uma maior ainda e chamar o Guinness. E estamos aqui por causa disso”.

bateria maior26 1

Apesar de tudo, para Gabriel David, o maior valor do feito vai além do livro de recordes. “Eu fico feliz não pelo reconhecimento do Guinness, mas pelo reconhecimento das artes carnavalescas. Na posição em que eu estou, com toda a responsabilidade que o cargo traz, o maior prêmio é ver os artistas sendo reconhecidos. A Liga existe para defender os interesses deles e lutar pela representatividade”.

O líder ainda destacou o impacto simbólico do recorde para todo o país. “Hoje, não são só esses 1.243 ritmistas que estavam aqui que são reconhecidos, são todos os ritmistas das escolas de samba espalhadas pelo país. Eles se sentem importantes, porque, se a gente tem um grande momento turístico no nosso país graças ao carnaval, isso é graças a todas as artes carnavalescas”.

Camila Borinsainz, adjudicadora oficial do Guinness World Records, falou sobre o recorde quebrado com um olhar analítico e, ao mesmo tempo, emocionado.

bateria maior26 2

“A emoção era evidente em todos. Posicionei-me na entrada, acompanhando a validação, a distribuição e o controle das pulseiras. Ver todos caminhando em direção a um objetivo comum, com a participação de 12 escolas e mestres, e 1.243 pessoas tocando simultaneamente, foi realmente grandioso. Inicialmente, imaginei que o número fosse inferior a 1.200, mas, para nossa surpresa, foram 1.243. Todas as pulseiras foram utilizadas. O acesso era restrito, com um espaço delimitado. Na entrada, distribuímos as pulseiras, uma por pessoa, e contabilizamos apenas aqueles que portavam seus instrumentos, pois este é um recorde de instrumentos de percussão brasileiros. A contagem foi feita à medida que as pessoas passavam com seus instrumentos. Acredito que seja muito especial, pois proporciona uma visibilidade autêntica do que é o carnaval”.

Entre os mestres de bateria, a emoção foi unânime. Mestre Vitinho, da Portela, resumiu o sentimento coletivo. “Cara, é incrível. É uma experiência que fica marcada na minha vida. Dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião. Estar ao lado de grandes amigos, músicos, percussionistas, ritmistas, mestres de bateria, todos fazendo o ritmo em prol do mesmo ideal é algo muito especial.” Sobre o Guinness, ele resumiu em uma palavra: orgulho. “Orgulho da história das baterias, da história de todos os mestres. Foi muito bacana ver o ritmo de tantas baterias unidas, juntas, fazendo o som da maior bateria do mundo”.

bateria maior26 7

Para mestre Casagrande, da Unidos da Tijuca, o momento foi de celebração cultural. “Eu acho que o mais importante hoje foi a celebração da nossa cultura. Imagina 1.200 ritmistas mostrando para o mundo a importância da cultura do carnaval carioca. O presidente Gabriel David e todo o pessoal do Rio Carnaval acertaram em cheio. Fomos de alma lavada, deu tudo certo, com os mestres todos juntos”.

O sentimento de pertencimento também foi exaltado por Fred Almeida, engenheiro, de 53 anos, ritmista há décadas, que vai desfilar na sua escola do coração, a Estácio de Sá, na Unidos de Niterói e no Jacarezinho. “Isso aqui parece uma festa de família, porque a gente toca em diferentes escolas e acaba se encontrando pouco. No fundo, essa superbateria é uma grande família, a família carioca do xrnaval. É uma brincadeira gostosa. Carnaval é isso: brincar e tocar com os amigos. Parece que a gente está em casa”.

bateria maior26 15

Mestre Fafá, da Grande Rio, destacou o clima de confraternização e o impacto geracional. “Foi uma experiência incrível, muito legal. A gente teve um dia de confraternização, pôde até tirar o estresse do dia a dia dessa correria de carnaval. Eu acho que isso é importante não só para mim, que sou de uma geração mais nova, mas para todo mundo, para muitos adolescentes e jovens que estavam aqui poderem vivenciar isso”.

bateria maior26 9

Essa percepção ganhou vida no depoimento de Bryan Rodrigues, de 13 anos, morador de Copacabana e ritmista de tamborim da Acadêmicos de Niterói. “A emoção é uma coisa que não dá para explicar. É muito bom. É uma felicidade que faz a gente ficar alegre, querer pular, querer sambar o tempo todo. Na hora, pensei: ‘caraca, eu estou vivendo um momento histórico, um momento que vai para o mundo’. Foi a melhor experiência da minha vida”.

bateria maior26 14

Outra jovem que também pôde descrever o sentimento foi Maria Eduarda, de 21 anos, moradora de Bangu, estudante, motoboy e bombeira civil, ritmista da Mocidade e tocadora de repique. “Foi incrível, uma experiência única. A gente se preparou bastante para estar aqui. Sou Mocidade desde berço. Prometi para mim mesma que a única bateria que eu tocaria seria a da Mocidade, na qual já estou há três anos. É ótimo saber que agora estamos no Guinness. Vamos para cima”.

bateria maior26 18

Mestre Macaco Branco, da Vila Isabel, destacou o simbolismo do feito. “Foi muito gratificante poder estar, como mestre da minha escola, vivendo esse momento tão marcante para o nosso carnaval carioca”.

bateria maior26 5

Mestre Marcão, do Tuiuti, celebrou a união. “Ver as 12 escolas formando uma bateria de 1.200 ritmistas é muito legal. Isso pode ficar para a história. Ver as 12 escolas, cada uma com 105 ritmistas, formando uma bateria de 1.200 ritmistas é muito legal. Isso pode ficar para a história. Ano que vem pode ter 1.300, 1.400, 1.500. Este ano já deu certo”.

bateria maior26 6

Mestre Branco Ribeiro, da Acadêmicos de Niterói, celebrou a sua estreia em grande estilo. “Um momento histórico como esse, eu, como estreante, poder já estrear e, de algum modo, sem ter desfilado ainda, já entrar para a história do Carnaval fazendo parte desse evento”.

bateria maior26 13

Mestre Dudu, da Mocidade, foi sincero ao falar sobre o desafio técnico que foi enfrentado. “Eu achei que fosse dar errado, porque já participei de diversos workshops em outros estados e, no máximo, o que eu fiz foi com 450 ritmistas. Com mais de 1.200, achei que a gente não fosse dar conta. Mas a gente está acostumado com isso, são muitos anos de Carnaval, e foi muito bacana. Nossos filhos, netos e bisnetos vão poder falar disso e saber que nossa história está registrada no Guinness”.

bateria maior26 4

Mestre Lolo, da Imperatriz, reforçou a dificuldade logística. “Foi muito grande o desafio, porque 1.200 pessoas, para você manter tudo sem embolar a bateria, é difícil. Mas rolou legal, rolou legal. É gratificante para a gente, pois somos o primeiro quesito a chegar na avenida e o último a sair”.

bateria maior26 3

Alex Franklin, 49 anos, morador de Bangu, ritmista há 37 anos na Mocidade, escola pela qual desfila atualmente, e com passagem de dez anos pela Grande Rio, valorizou todo esse esforço dos comandantes do espetáculo. “Mesmo a gente estando há tanto tempo na avenida, quando aparece uma coisa diferente assim, a expectativa é nova, mas a emoção é a mesma de entrar para desfilar. Não é fácil comandar mais de 1.200 ritmistas. A gente se coloca no lugar dos mestres. Eles são feras, foi maravilhoso”.

bateria maior26 16

Pelo Salgueiro, os mestres Guilherme e Gustavo falaram sobre união e celebração. “É um dia para celebrar o encontro com todas as baterias, faltando menos de um mês para o carnaval. Sabemos que estamos fazendo história, por isso estamos aqui curtindo e celebrando”, disse Guilherme. “Mostrar para o grande público o quanto as escolas de samba são unidas é muito importante. É um momento muito histórico e muito importante. Fazemos parte disso”, completou Gustavo.

bateria maior26 11

Mestre Taranta Neto, da Mangueira, destacou a convivência entre os segmentos. “O que vale é essa interação: ver todo mundo curtindo, brincando, zoando, fazendo música. E, na hora do trabalho, todo mundo com seriedade. Agora a gente também está no Guinness. É uma honra para todos nós”.

bateria maior26 10

Representando a Beija-Flor, mestre Rodney celebrou a conquista coletiva. “Não é fácil ter uma bateria e lidar com o quantitativo de ritmistas, a distância, o retorno, o delay. Mas estou muito feliz em participar disso tudo. Quando eu receber a placa do recorde, vou deixar com os ritmistas. Vai ficar eternizado lá. Não tem jeito, ninguém tira da gente”.

bateria maior26 12

Mestre Plínio, também da Beija-Flor, reforçou o reconhecimento ao ritmista. “Não tem coisa mais importante na vida do ritmista do que participar desse programa que a Liga fez”.

Criada na Mocidade e moradora de Padre Miguel, Liliane Carvalho, de 50 anos, que toca chocalho e já desfilou por diversas escolas, destacou a valorização do samba. “É dar um novo patamar. Gosto de ver o carnaval do Rio patrocinando e valorizando as escolas. Foi um momento emocionante participar disso, por causa de tantos anos desfilando em várias escolas de samba. Todas têm o meu respeito, sejam grandes ou pequenas, de todos os grupos. Todas têm o DNA do carnaval”.

bateria maior26 17

Desse jeito, a Maior Bateria do Mundo entrou para o Guinness não apenas como um recorde numérico, mas como um marco de união, reconhecimento e celebração do maior espetáculo da Terra.