A Imperatriz da Pauliceia chegou para transformar o Anhembi em uma grande procissão, com santos católicos, entidades da umbanda e orixás do candomblé. Com o enredo “Congá – O Altar Sagrado da Minha Fé”, a escola da Zona Leste inseriu sua leitura religiosa no início da noite de sábado, sendo a segunda a desfilar pelo Grupo de Acesso 2.
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Com forte chuva, pista molhada e um problema na entrada da última alegoria, a agremiação terminou dentro do tempo permitido, com os portões se fechando no laço, aos 49:56.
Apesar de eventuais deslizes, a escola apresentou alegorias e fantasias que dialogaram com o enredo, sempre em torno da religiosidade e de suas expressões na cultura popular. No fim, a Pauliceia deixou a avenida comemorando, com componentes cantando alto e demonstrando alívio e felicidade pelo desfile realizado.
COMISSÃO DE FRENTE
A comissão de frente, coreografada por Paula Penteado, apresentou a cena “A força do meu Congá”, concebida como um clamor simbólico de fé e devoção que abriu os caminhos da escola. A proposta reuniu diferentes figuras do universo devocional, como Exu, Ogum, Oyá, Zé Pilintra, Erê, Caboclo, Baiana, Preto Velho, Maria Padilha, São Miguel Arcanjo, Jesus e Nossa Senhora de Aparecida.

O tripé materializou o altar sagrado do congá, acionado em momentos específicos da coreografia, com esculturas de Exu, Caboclo e Preto Velho na parte traseira do elemento. No chão, a coreografia se desenvolveu por cerca de cinco minutos, com todos os personagens em cena.
Em outro momento, as entidades ocuparam o tripé em uma coreografia que remetia a um ritual. Cerca de dois minutos depois, os personagens desceram e cercaram a figura de uma devota que clamava no congá.
A apresentação teve leitura clara, com coreografia bem executada e repetida ao longo das cabines.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O casal formado por Ronaldo Ferreira e Leila Cruz representou o encontro simbólico entre a religiosidade católica e as religiões de matriz africana. Mesmo sob forte chuva, o casal se apresentou com segurança, sem erros aparentes. A coreografia dialogou com o samba-enredo, explorando movimentos de cortejo, giros e apresentações firmes, além de passos que remetiam a danças afro. Nas cabines, o tempo médio de apresentação foi de cerca de três minutos, com performance que remeteu a uma saudação ao congá.
HARMONIA
A condução do canto, com Dom Junior à frente do carro de som, manteve o clima empolgado ao longo do percurso, com resposta perceptível das arquibancadas.
Já o rendimento das alas variou: as alas 3 e 4 demonstraram um pouco mais de cansaço a partir da metade da avenida, enquanto as alas 5 e 6 sustentaram o canto alto e forte até o fim, além de manterem boa organização de fileiras.
ENREDO
O desenvolvimento do enredo se estruturou com clareza a partir da ideia do congá como um altar em movimento, organizado em forma de procissão ao longo da avenida. A narrativa foi conduzida de maneira contínua, com setores que dialogavam entre si e mantinham unidade visual e simbólica, permitindo ao público acompanhar a proposta sem rupturas de leitura.

A abertura dos caminhos com Exu, a exaltação de Ogum no abre-alas e a sequência dedicada aos diferentes orixás se articularam de forma progressiva, com alas e alegorias construindo uma leitura encadeada do universo devocional apresentado. A presença recorrente de búzios nas fantasias reforçou essa unidade temática e contribuiu para a coesão do conjunto, que se manteve consistente até a culminância no louvor às Yabás.
EVOLUÇÃO
O desfile apresentou boa fluidez geral, com alas organizadas e deslocamento contínuo na maior parte do percurso. Houve, porém, um problema na entrada da última alegoria, que atrasou momentaneamente o andamento do desfile e exigiu que a ala posicionada à frente do carro aguardasse para avançar. A situação gerou uma ameaça de abertura de buraco naquele trecho, sem que o espaço vazio chegasse a se configurar um erro. No restante do desfile, as alas se mantiveram bem, com destaque para a última alegoria, com crianças cantando forte em cima do elemento alegórico.
SAMBA
O samba-enredo, conduzido por Dom Junior, sustentou o andamento do desfile mesmo sob forte chuva, com boa resposta do público e das alas nos momentos de maior apelo. A bossa aplicada no refrão do meio se mostrou empolgante na avenida, criando um ponto de energia que ajudou a manter o fôlego do canto coletivo.
Estreante no comando do carro de som, Dom Junior chamou o público e conduziu o samba com presença e entrega, sem se deixar abater pelas condições climáticas. A resposta das alas oscilou em alguns trechos, acompanhando variações observadas na harmonia, mas o conjunto manteve o andamento que esse samba forte pede.
FANTASIAS
As fantasias acompanharam de forma direta o desenvolvimento do enredo, com alas que representaram a mistura de credos, entidades e orixás. A ala 2 chamou atenção de forma positiva e apresentou dois elencos distintos: um ligado ao batucajé, com trajes e coreografias inspirados nas danças das religiões afrodiaspóricas, e outro que simbolizou a tirania religiosa da “casa-grande”, representada pela figura de padres. A leitura visual foi clara e estabeleceu contraste direto entre fé, resistência cultural e repressão religiosa.

A ala dedicada a Obaluaiê se destacou visualmente pela inspiração em trajes tradicionais de devotos, com uso de palhas e discos recobertos de pipoca no chapéu e na gola.
A ala de Nanã apresentou boa concepção estética, mas com limitações de funcionalidade, já que o “chorão” do chapéu dificultava a visão de alguns componentes. Na ala 9, que representou Oyá, foi observado um caso pontual de fantasia com estrutura se desprendendo durante o desfile, contornado com solução improvisada para manter o componente em evolução.
ALEGORIAS
As alegorias materializaram os eixos centrais do enredo, com o abre-alas dedicado a Ogum, trazendo simbologia do orixá, uso marcante de búzios e efeitos de fumaça, além de figuras que remetiam à devoção popular, como referências a procissões de São Jorge. A última alegoria, “Louvor às Yabás”, apresentou impacto visual e crianças animadas à frente, cantando o samba com energia.

Foi justamente esse carro que enfrentou dificuldade na entrada na avenida, vindo com oscilação perceptível, o que impactou momentaneamente a evolução do setor. A alegoria trazia uma escultura giratória no topo, com movimento tão sutil que a intenção cênica não ficou totalmente clara, sem ser possível afirmar se a rotação lenta fazia parte da proposta ou se houve limitação técnica.
OUTROS DESTAQUES
A bateria “Swing da Pauliceia” foi um dos destaques do desfile, sob o comando da consolidada mestra Rafa. A apresentação concentrou atenção pela caracterização ligada a Ogum e pela interação direta com a arquibancada Monumental, no setor B. Em frente ao setor, os ritmistas realizaram coreografia na bossa, virando para o público e levantando a arquibancada. A presença de Mestra Rafa, primeira e única mulher no comando de uma bateria no carnaval paulistano, mais uma vez se destacou pela condução segura e impacto.
A rainha de bateria Ariê também foi um dos destaques de chão da escola da Zona Leste, com forte interação com o público, cantando o samba e sambando à frente da bateria no ritmo conduzido.










