A Unidos da Tijuca levou para a Marquês de Sapucaí um desfile de forte carga simbólica e execução segura ao homenagear Carolina Maria de Jesus. Com assinatura do carnavalesco Edson Pereira, a escola apresentou um enredo de fácil compreensão, estética literária bem resolvida e um conjunto que se destacou pela harmonia, evolução consistente e momentos de emoção coletiva, especialmente no refrão que ecoou pela avenida: “Muda essa história, Tijuca”.
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COMISSÃO DE FRENTE
Intitulada “Prólogo — Carolina Maria de Jesus”, a comissão de frente cumpriu com precisão a função de abrir as chaves de leitura do desfile. A cena trouxe a imagem antológica de Quarto de Despejo como porta de entrada para o universo da escritora. Cercada por bailarinos negros que representavam o povo da rua, da favela e da periferia, com muita teatralidade, Carolina surgiu conduzindo o emblemático carrinho de catar papel.

O elemento cenográfico, pequeno em dimensão, ganhou grandeza simbólica ao se transformar diante do público, metáfora visual da persistência e da capacidade de reinvenção pela escrita. A leitura foi imediata e clara. O público compreendeu a mensagem, e a comissão entregou teatralidade sem excessos, com narrativa direta e impacto emocional.
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MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Lucinha Nobre e Matheus André protagonizaram uma apresentação de gala. Em sintonia, firmes e elegantes, realizaram uma das melhores performances do casal nos últimos tempos. O bailado foi seguro, sem sustos, com domínio do pavilhão e perfeita comunicação entre os dois. A proposta de trajar fantasia tradicionalíssima reforçou o gesto simbólico de “assinatura” da escola sobre a obra apresentada, e o resultado foi clássico e eficiente.

ALEGORIAS E FANTASIAS

O conjunto alegórico se impôs pelo tamanho e pela criatividade. As fantasias, mais fluidas e com menor volumetria, favoreceram a evolução sem comprometer o acabamento. Detalhes inspirados em páginas de livros e elementos gráficos literários apareceram de forma recorrente, reforçando a identidade do enredo.

Houve uso de materiais plásticos e efeitos de fumaça na terceira alegoria, recurso que adicionou atmosfera à narrativa. Fantoches gigantes ampliaram a dimensão lúdica na quarta alegoria. No último setor, a paleta cromática da plástica tornou-se mais vibrante, sinalizando a ascensão da homenageada à imortalidade.

HARMONIA E SAMBA
A harmonia foi um dos pontos altos do desfile. A escola cantou com força nos primeiros setores e manteve bom desempenho ao longo da apresentação. O samba-enredo, de letra consistente e coerente com a proposta biográfica, ganhou explosão no refrão principal, quando a avenida respondeu em coro ao chamado para “mudar essa história”. A bateria de Casagrande apresentou andamento pulsante e cadenciado, sustentando o canto da comunidade. O intérprete Marquinho Art’Samba conduziu o carro de som com segurança, valorizando a poesia da obra e mantendo a escola conectada. Componentes emocionados e soltos reforçaram a entrega coletiva.

EVOLUÇÃO
A Tijuca desfilou com bom andamento. Não houve buracos nem correria. A ocupação do espaço foi bem distribuída, e a fluidez das fantasias colaborou para uma progressão natural. A escola cruzou a avenida com segurança e controle, sem sobressaltos técnicos; pelo contrário, com regularidade e boa ocupação do espaço.

OUTROS DESTAQUES
À frente da última alegoria, a presença de Vera Eunice de Jesus, filha da escritora homenageada, abriu a cena ao lado de mulheres negras que hoje ocupam espaços na intelectualidade brasileira, como Conceição Evaristo, Flávia Oliveira e Elisa Lucinda. A escultura majestosa de Carolina, jovem e sem o lenço, lia o final reescrito pela escola como um gesto simbólico de reparação.











