Leandro Vieira não tem dúvidas: a Imperatriz Leopoldinense vive um de seus momentos mais ousados. Para ele, os últimos desfiles provaram que a escola deixou de ser a “Certinha de Ramos” para assumir um espírito camaleônico, agora coroado pela escolha de Ney Matogrosso como enredo de 2026. O carnavalesco destacou a multiplicidade e a força política do artista, diferenciou sua proposta de desfile da cinebiografia “Homem com H”, ligou o enredo à linha autoral de homenagens que já assinou, comentou a sintonia com a presidente Cátia Drumond.

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leandro imperatriz
Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

A fase de experimentação da Imperatriz

Leandro Vieira afirmou que a Imperatriz Leopoldinense viveu, nos últimos anos, uma fase marcada pela experimentação. Para ele, a escola entendeu que quanto mais liberdade e diversidade assumisse em seus desfiles, mais forte se apresentaria. “Havia uma imagem de que a Imperatriz era a ‘Certinha de Ramos’, e eu nunca consegui enxergar escola de samba como esse lugar da coisa quadrada, pré-determinada”, comentou.

Nos últimos carnavais, a escola transitou por diferentes universos: foi Lampião que visitou céu e inferno, uma cigana que desejou boa sorte, vestiu-se de branco para revisitar a oralitura de Oxalá e, para 2026, se prepara para cantar Ney Matogrosso. “A Imperatriz dos últimos quatro anos não tem regra”, resumiu.

Ney Matogrosso como coroação desse momento

Para Leandro, a escolha de Ney Matogrosso como enredo é mais do que uma homenagem: é a síntese de uma fase da Imperatriz que aprendeu a se reinventar. “É a coroação de uma fase da escola que está disposta a vestir qualquer coisa e a ser feliz de qualquer maneira”, afirmou. O carnavalesco destacou que, ao longo de cinco décadas de carreira, o cantor fez do próprio corpo uma bandeira de liberdade, transgressão e prazer.

Segundo ele, a grande marca de Ney é a multiplicidade. “O que o Ney mais fez foi ser outro. Sendo tantos, de alguma forma, ele só fortaleceu a identidade do cara que ele é”, afirmou, acrescentando que essa vocação também ecoa na trajetória recente da Imperatriz: “É uma escola que se veste de muitas maneiras e prova que pode ser boa fazendo de tudo”.

Leandro sublinhou ainda que essa trajetória não se restringe ao campo estético. Para ele, Ney sempre trouxe um recorte político em sua obra: a denúncia do genocídio de povos originários em “Sangue Latino” e a postura performativa que marcou sua presença nos palcos. “Quando esse cara canta, ele está produzindo beleza, falando do Brasil e nunca deixa de ser político”, disse, indicando que essa conjunção entre estética e política é também a base de sua própria concepção de enredo.

Ney como artista carnavalesco

O carnavalesco comentou que, apesar de Ney já ter recusado convites anteriores para ser enredo, havia uma percepção de que somente sambistas poderiam ocupar esse lugar. “Alguns artistas acreditam que precisam ser do meio do samba para virar enredo. Mas a escola de samba celebra o Brasil, e o Brasil é plural”, explicou.

Na sua avaliação, é pura modéstia o próprio Ney se considerar pouco carnavalesco. “Um cara que se apresentou como homem de neandertal, que fez da nudez, do brilho e da lantejoula um padrão estético, se considerar pouco carnavalesco é a modéstia de quem tem uma cara de tímido, mas sabe exatamente que traz a cultura carnavalesca como bandeira”, disse.

Para ele, o cantor foi um dos poucos artistas a incorporar de forma radical a performance carnavalesca à cena musical brasileira: “O que ele fez foi trazer a estética carnavalesca para os grandes palcos”.

Um enredo com outro perfume

Depois de reforçar o caráter carnavalesco de Ney, Leandro fez questão de esclarecer que o desfile da Imperatriz não toma como referência a cinebiografia “Homem com H”, do diretor Esmir Filho, lançada em 2025. Para ele, embora a obra seja “maravilhosa”, trata-se de um trabalho biográfico, enquanto o enredo busca outro enfoque. “São perfumes diferentes. O filme é biográfico. E eu trato do artista que muda de pele, que fez da música a bandeira que leva no visual, no corpo”, explicou.

Continuidade de uma linha autoral

Questionado sobre o lugar desse enredo em sua trajetória, Leandro lembrou das homenagens que já realizou: Maria Bethânia (2016), Lamartine Babo (2020) e Cartola, Jamelão e Delegado (2022). O fio que une todas essas escolhas, disse ele, é a possibilidade de retratar o Brasil em sua diversidade: “Em comum, todas essas homenagens retratam o Brasil em que eu acredito, e existe um recorte que mostra a pluralidade do Brasil”.

No caso de “Camaleônico”, essa pluralidade se expressa na música, na latinidade, na luta política e na própria performance do homenageado. “Ney traz uma coisa que, de alguma forma, marca o meu trabalho, que é a possibilidade de produzir beleza, falar do Brasil e nunca deixar de ser político”, declarou.

Leandro e Cátia: uma parceria de operários do Carnaval

O carnavalesco também comentou sua relação com a presidente da escola, Cátia Drumond. Segundo ele, a sinergia entre os dois se deve ao fato de ambos terem começado como operários do carnaval, ainda em funções distintas dentro da Imperatriz. “Ela era compradora quando eu era assistente do carnavalesco. Hoje, ela é presidente e eu carnavalesco, mas seguimos dois operários”, contou.

Para ele, esse encontro de trajetórias ajuda a explicar a boa sintonia no trabalho da escola. “A Imperatriz tem uma presidente operária e um carnavalesco operário”, afirmou.