Às vésperas de completar 67 anos de história, a Acadêmicos de Santa Cruz cruzou a avenida com a serenidade de quem conhece o próprio chão e a responsabilidade de quem carrega um bairro inteiro no peito. Com o enredo “Brasil de Mil Faces em um só Coração”, a escola da Zona Oeste apostou naquilo que nunca sai de moda: a brasilidade.
As cores nacionais dominaram alas e alegorias, tingindo a passarela com patriotismo festivo. A velha guarda apresentou-se elegante e altiva, revisitando memórias como se cada passo contasse um capítulo desses 67 carnavais. As baianas, com graça e precisão, também trouxeram elegância ao conjunto.

Uma ala coreografada imprimiu leveza e movimento ao desfile, criando desenhos no asfalto e arrancando aplausos da arquibancada. Foi um daqueles momentos que lembram que o carnaval também é espetáculo visual, feito de ensaio, disciplina e entrega.
O samba, embora um pouco arrastado em determinados trechos, não comprometeu o conjunto. A escola seguiu firme, evoluindo com o apoio decisivo de sua torcida. Ainda assim, houve tensão no capítulo final: foi preciso acelerar o passo para não estourar o tempo regulamentar. A reta final exigiu fôlego extra e concentração redobrada. Mesmo assim, a Acadêmicos de Santa Cruz mostrou que sua maior alegoria é a própria resistência.
COMISSÃO DE FRENTE
Assinada por Rodrigo Avelar, a comissão levou onze integrantes à avenida, todos com fantasias semelhantes, de traços simples, em verde e amarelo. A proposta remetia aos povos indígenas, evocando ancestralidade e as raízes primeiras do Brasil — ideia coerente com o enredo.
Logo na segunda cabine de jurados, parte dos figurinos começou a dar sinais de fragilidade. Algumas peças se soltaram em plena coreografia, exigindo ação rápida dos diretores de harmonia, que puxavam e ajustavam as roupas enquanto os bailarinos seguiam dançando. A cena se repetiu na terceira cabine, quando novamente integrantes perderam partes da fantasia durante a apresentação.
Na última cabine, o problema voltou a ocorrer. O que deveria ser apenas movimento coreografado transformou-se também em exercício de improviso. Entre passos marcados e ajustes emergenciais, os dançarinos mantiveram profissionalismo e sustentaram a performance apesar dos imprevistos.
A comissão de frente, responsável por abrir caminhos e apresentar o cartão de visitas da escola, acabou protagonizando um desfile de superação.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Coube ao primeiro casal a missão de defender o maior símbolo da escola: o pavilhão. Johnny Matos e Cassiane Figueiredo surgiram na avenida alinhados ao tema do enredo, com cores que dialogavam em harmonia com a proposta e reforçavam o sentimento de pertencimento apresentado ao longo do desfile.
Vestidos predominantemente de verde e adornados por flores amarelas, transformaram o figurino em extensão da própria dança. As cores vibrantes valorizavam giros e deslocamentos, criando efeito plástico marcante a cada evolução.
No bailado, a sintonia era evidente. Giros precisos e o tradicional cortejo do mestre-sala, executado com atenção e respeito ao pavilhão, compuseram apresentação segura. Havia entrega, concentração e consciência do espaço — elementos indispensáveis em um quesito que exige técnica apurada sem abrir mão da emoção.
Diante das cabines de jurados, o casal manteve regularidade e cumpriu sua missão com serenidade, passando dentro das conformidades exigidas e sustentando o pavilhão com firmeza.
EVOLUÇÃO E HARMONIA
A escola fez desfile animado, e a comunidade da Zona Oeste deu seu recado na evolução e no canto dos desfilantes de chão, mesmo com o samba soando arrastado em alguns momentos.
A torcida, com bandeiras nas arquibancadas, ajudava a empurrar a escola para frente. Nos carros alegóricos, alguns componentes evoluíram com empenho, enquanto outros permaneceram parados, o que prejudicou parcialmente o conjunto visual.
A harmonia manteve-se pouco abalada durante grande parte do desfile. Contudo, na reta final, foi necessário acelerar consideravelmente para não ultrapassar o tempo regulamentar.
OUTROS DESTAQUES
A ala de passistas cruzou a avenida com energia, esbanjando beleza e simpatia. A bateria dos mestres Cleison Brown e Riquinho conduziu a escola com cadência e vibração. No entanto, no fim do desfile, a necessidade de correr fez com que parte do swing se perdesse em nome do cumprimento do tempo.










