O ensaio da Mangueira neste domingo não aconteceu como o roteiro tradicional prevê. A chuva que caiu sobre o Rio de Janeiro impediu o deslocamento da escola pela rua e obrigou a Verde e Rosa a concentrar suas forças em frente à quadra. Ainda assim, o que se viu foi uma Mangueira cantando, dançando e sustentando seu samba com intensidade do início ao fim, provando que evolução também se mede pela permanência da alma, mesmo quando o corpo não avança.
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Com os componentes parados, mas em movimento interno constante, o ensaio se transformou em um retrato fiel da proposta do Carnaval 2026: resistência, coletividade e força cultural. A escola segue se preparando para o ensaio técnico da próxima sexta-feira, na Marquês de Sapucaí, levando consigo a segurança de quem sabe o que está construindo.
COMISSÃO DE FRENTE
Mesmo sem a possibilidade de deslocamento, a comissão de frente realizou uma apresentação que permitiu observar claramente o trabalho desenvolvido até aqui. Parados em um ponto específico, os integrantes repetiram movimentos, marcaram entradas e executaram a coreografia com ritmo intenso, evidenciando um bailado treinado e alinhado à narrativa do enredo.

A leitura corporal deixou clara a conexão com a proposta amazônica da Mangueira para 2026, baseada no enredo “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”. Ainda que o espaço limitado não permita uma avaliação completa do impacto visual, foi possível identificar precisão, energia e entendimento do que está sendo contado.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal não pôde realizar o bailado completo devido às condições climáticas e à impossibilidade de deslocamento. Ainda assim, permaneceu presente, cantando o samba e demonstrando envolvimento com o ensaio, atentos ao ritmo e à condução musical.

Mesmo sem giros e marcações tradicionais, a postura em frente à comunidade mostrou um casal conectado ao momento e preparado para o próximo compromisso. A expectativa fica para o ensaio técnico, quando será possível avaliar plenamente o desenho coreográfico e a comunicação entre os dois na pista.
HARMONIA
A harmonia foi um dos pontos mais evidentes da noite. Mesmo sob chuva, com todos os setores concentrados, o canto da escola se manteve firme e contínuo. As alas cantaram de forma uniforme, com clareza de letra e energia constante, transformando a adversidade climática em elemento de união.
O intérprete oficial, Dowglas Diniz, destacou exatamente esse espírito coletivo ao avaliar a temporada e o ensaio: “O balanço da nossa temporada é o resultado disso aqui: a comunidade, antes mesmo de começar o ensaio, já canta o nosso enredo em claro e bom tom, se diverte e estamos lavando a alma com a chuva de hoje. Acredito que será um carnaval maravilhoso. A Mangueira vem linda e, na sexta-feira, o nosso ensaio técnico será para festejar na avenida”, afirmou o intérprete oficial da Mangueira.

O canto persistente reforça a assimilação do samba e a identificação da comunidade com a história que a escola levará para a Sapucaí.
EVOLUÇÃO
Mesmo sem deslocamento, a evolução pôde ser analisada a partir da manutenção do canto e da postura coletiva. A escola permaneceu organizada, atenta às orientações e sustentando a energia ao longo de todo o ensaio, sem queda perceptível de envolvimento.

O diretor de carnaval, Dudu Azevedo, falou sobre o processo vivido ao longo da temporada e a expectativa para os próximos passos: “A Mangueira cumpriu os ensaios da temporada e estamos como queríamos para a Marquês de Sapucaí, cantando e evoluindo. Buscamos a espontaneidade e fizemos muitos ensaios dedicados e, agora, o rumo é aos ensaios técnicos até o grande dia”, explicou o diretor de carnaval.

A fala reforça a ideia de que o trabalho realizado até aqui priorizou construção coletiva e naturalidade, elementos que se refletiram mesmo em um ensaio atípico.
SAMBA
O samba mostrou força justamente na repetição e na constância. Mesmo sem avanço pela pista, o rendimento permaneceu estável, com a comunidade cantando em volume alto e com clareza de interpretação. A letra, que homenageia mestre Sacaca e exalta a Amazônia Negra, encontrou eco na resposta dos componentes, criando um ambiente em que o samba deixou de ser apenas trilha sonora e passou a funcionar como elo entre escola, território e ancestralidade.
A bateria manteve o ritmo firme do início ao fim, mesmo com o ensaio comprometido pela chuva. A condução segura e a entrega dos ritmistas foram reconhecidas pelo próprio mestre, que destacou o processo de superação vivido ao longo do ano.

“Foi uma temporada muito satisfatória e boa. Vivemos coisas diferentes, e a galera absorveu, ensaiou, se dedicou e se superou, mesmo com os contratempos. Um ano muito feliz com o ritmista. O público pode esperar a melhor coisa possível, porque a nossa meta é reconquistar os 40 pontos da nossa bateria”, afirmou o mestre de bateria Rodrigo Explosão.
A declaração aponta para um trabalho focado em regularidade e ambição técnica, mirando diretamente a excelência no julgamento.

A chuva que impediu o deslocamento da Mangueira acabou revelando algo ainda mais valioso: a capacidade da escola de sustentar seu samba mesmo quando a avenida desaparece. Cantando parada, dançando sob limites e transformando contratempos em força coletiva, a Verde e Rosa mostrou que o Carnaval 2026 não será apenas contado em alegorias, mas vivido no corpo e na voz de sua comunidade.
Se o enredo fala de guardiões, saberes ancestrais e resistência amazônica, o ensaio deste domingo foi a prova prática de que a Mangueira sabe proteger aquilo que constrói. A próxima sexta-feira, na Sapucaí, será menos sobre testar e mais sobre celebrar um caminho que já se mostra sólido, pulsante e profundamente conectado à sua essência.









