Quarta escola a desfilar na Marquês de Sapucaí, o Império Serrano apresentou um desfile marcado pela força da literatura e da memória ancestral. Com o enredo “Ponciá Evaristo Flor do Mulungu”, assinado pelo carnavalesco Renato Esteves, a verde e branca de Madureira exaltou a trajetória e a obra de Conceição Evaristo. 

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CARRO
Segunda alegoria do Império Serrano intitulada “Navio-mudança: Refúgio dos Becos e Vielas”. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Um dos pontos altos do desfile foi a segunda alegoria, intitulada “Navio-mudança: Refúgio dos Becos e Vielas”. O carro representa uma enchente na favela e a transformação da personagem mítica Sabela em um navio de barro para salvar a comunidade. Com estética terrosa, a alegoria aposta no barro e coletividade como imagem de recomeço.

No alto do carro, três componentes deram vida a essa narrativa: Wellington Ramos, de 59 anos, aposentado e há dois anos desfilando pela escola; Ticiane Gomes, de 39 anos, técnica de enfermagem e estreante no Império; e Juliana Amorim, de 30 anos, enfermeira, também em seu primeiro desfile na agremiação.

Representar a resistência em meio à enchente

WELLINGTON RAMOS
Wellington Ramos. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Para Wellington, desfilar no carro vai além da estética e do espetáculo. “Sinto-me honrado com essa oportunidade. Estar ali em cima representa muito mais do que um desfile, é um reflexo fiel do povo brasileiro, que é um povo batalhador. Estar naquele carro é dar voz a essa resiliência de quem enfrenta as adversidades e se mantém de pé”, afirmou.

TICIANE GOMES
Ticiane Gomes. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Ticiane revelou que o tema dialoga diretamente com sua própria trajetória. “Essa representação toca em um ponto muito íntimo da minha vida, pois eu já vivi na pele essa situação exata. Eu sei o que é enfrentar o desespero e a perda causados pelas enchentes, por isso, estar aqui hoje representa muito para mim. Sinto uma identificação profunda com a proposta desse carro; é como se eu estivesse ali não apenas desfilando, mas honrando a minha própria história de sobrevivência e a de tantas outras pessoas”, disse.

Juliana destacou a emoção de integrar um desfile que homenageia Conceição Evaristo. “Eu estou me sentindo extremamente à vontade e muito feliz com essa oportunidade. Foi maravilhoso poder me integrar à comunidade do Império; eu adorei participar ativamente, ir até o barracão e ajudar inclusive na confecção das fantasias. Ver o processo de perto e colocar a mão na massa tornou tudo muito mais gratificante”, afirmou.

A estética do barro e a conexão com a ancestralidade

A alegoria foge do luxo tradicional e das pedrarias para apostar em uma estética crua, ligada à terra e à reconstrução. Para Wellington, essa escolha dialoga diretamente com a origem do povo brasileiro. “Essa conexão é muito forte e presente. Essa estética me remete diretamente à nossa ancestralidade e, acima de tudo, à verdadeira origem do povo brasileiro. É uma estética que fala sobre a nossa base, que vem da força da favela e da pureza do samba, mostrando de onde realmente viemos”, disse.

Ticiane também enxergou na proposta visual um retorno às raízes. “Sem dúvida alguma. Eu sinto que essa estética é profundamente ancestral. Ela foge do óbvio e nos transporta para as raízes da nossa gente, mostrando a beleza que existe na verdade e na força do povo que resiste. É um visual que fala diretamente com a nossa essência e com o que somos de verdade”, afirmou.

JULIANA AMORIM
Juliana Amorim. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Juliana reforçou a mesma percepção ao relacionar o barro à memória coletiva. “Essa estética mais crua e ligada aos elementos da terra e da história do nosso povo traz uma conexão muito forte com as nossas raízes e com tudo o que veio antes de nós”, concluiu.

O Império como porto seguro

Além de simbolizar o refúgio diante da enchente, o carro também ecoa a própria vivência dos componentes dentro da escola. Para Wellington, o Império Serrano é abrigo. “O Império Serrano é, sem dúvida, um refúgio para mim. Quando estou aqui, vivenciando o dia a dia da escola e participando do Carnaval, eu me sinto renovado e muito melhor. É um ambiente que me acolhe e me faz bem de uma forma muito especial”, afirmou.

Estreante, Ticiane destacou o acolhimento recebido. “O acolhimento tem sido maravilhoso. Eu me sinto totalmente à vontade aqui. Mesmo sendo estreante, a comunidade do Império Serrano nos abraçou de uma forma muito calorosa e o tratamento que recebemos é impecável. Estou saindo daqui com uma sensação de extrema satisfação e felicidade por ter escolhido esse refúgio para o meu primeiro carnaval”, disse.

Juliana já projeta o futuro na verde e branca de Madureira. “A experiência tem sido tão positiva e acolhedora que eu já fiz planos para o futuro: pretendo desfilar no Império Serrano por muitos e muitos anos. Encontrei aqui um lugar onde me sinto bem e que quero levar para a vida”, concluiu.