Sempre que a Serrinha desponta na Avenida, há sempre uma coisa diferente que mexe com o público. E, quando a escola honra as suas raízes ao fazer homenagens a personalidades negras, e principalmente do sexo feminino, já se sabe que, no mínimo, vai emocionar a Avenida. Ela tem o dom. E, neste desfile de 2026, mais uma vez tocou o coração do imperiano e do sambista em geral. Homenagem importante e necessária. Além disso, o carnavalesco Renato Esteves apresentou uma estética pertinente, diferente, fora do óbvio, mas com alguns pequenos problemas de acabamento, tanto nas fantasias quanto nas alegorias. Apesar do bom canto da comunidade, o samba não pegou com o público, o que acabou trazendo também uma evolução mais arrastada.
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Com o enredo “Ponciá Evaristo Flor do Mulungu”, o Império Serrano foi a quarta escola a desfilar na segunda noite da Série Ouro, com o tempo de 55 minutos.
COMISSÃO DE FRENTE
Coreografada por Marlon Cruz, a Comissão de Frente do Império Serrano apresentou Ponciá-Evaristo a partir de suas referências fundadoras: a mãe, as tias, as mulheres do cotidiano, a ancestralidade e a escrita. Uma comissão que apostou no traço emotivo. Nesse ambiente, a comissão trouxe lavadeiras realizando o trabalho cotidiano. Enquanto isso, a artista que representou a personagem observava atentamente a cena e, a partir dessa observação silenciosa e profunda, nasceu sua paixão pela escrita. Já no elemento cenográfico que representava um rio, ou o entorno de um rio, as lavadeiras lavavam as roupas e faziam o movimento para quarar, batendo na pedra e produzindo um pequeno efeito de água no pano verde.

Depois, uma delas desenhava um sol no chão com um cajado. O ápice dramático da apresentação ocorreu com a representação da dor materna: uma das componentes simboliza ser baleada e cai nas mãos da pivô. Diante desse lamento coletivo, Oxum surgiu, enxugou as lágrimas e protegeu seu povo e suas crianças, reafirmando seu papel ancestral de cuidado, acolhimento e preservação da vida. O grande efeito estava na saia de Oxum, que ia ficando comprida enquanto a orixá dançava e se elevava para o delírio do público, e surgiam as imagens de mulheres relacionadas à homenageada. Comissão de ótima interação com o público, de mensagem forte e efeitos bem aplicados, que funcionaram e estavam de acordo com o enredo. Elemento cenográfico de acabamento apenas satisfatório.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O primeiro casal, Matheus Machado e Maura Luíza, vestiu “O Mulungu Ancestral e a Flor do Mulungu”, em que o mestre-sala representou a árvore sagrada, que simbolizou a memória profunda, a raiz africana e o tempo longo da diáspora. Já a porta-bandeira simbolizou a síntese da potência feminina negra e figura central da escrevivência-enredo. A flor é estado de graça, é beleza que nasce da resistência, é a mulher negra que verte em leite a seiva que dá a vida.

A dupla começou um pouco mais tímida no primeiro módulo, mas não cometeu erros aparentes e se soltou mais a partir do segundo. Coreografia que aproveitou muito bem os momentos mais afros do samba e as bossas da Sinfônica do Samba. No final da apresentação, já no refrão principal, no “É Kizomba…”, a dupla fez um passo afro com muita energia e vibração. No segundo módulo, onde o casal teve a sua melhor apresentação, Matheus deu uma leve hesitada ao pegar a bandeira, que parecia que iria escapar, mas, depois de dois toques, segurou firme. Só esse ponto de preocupação neste módulo. No último, não houve problemas desse tipo, mas o casal teve que esperar uma passada inteira porque a comissão demorou a tirar o elemento cenográfico da frente da cabine de jurados. A dupla pareceu incomodada. A apresentação ali não foi ruim ou problemática, mas ainda esteve um pouco abaixo na intensidade do que no segundo.
ENREDO
“Ponciá Evaristo Flor do Mulungu” trouxe a força e a vivência da mulher preta como foco principal, a partir de uma homenagem à professora, doutora em Literatura Comparada, considerada a maior literata negra deste tempo: Conceição Evaristo. O enredo foi concebido em formato de conto, incorporando elementos ficcionais que evocavam o conceito de escrevivência, formulado pela homenageada. A escola dividiu o desfile em cinco capítulos. No primeiro, “Olhos d’Água”; no segundo, “Becos da Memória”; no terceiro, “História de Leves Enganos e Parecenças”; no quarto, “Cadernos Negros”; e, no último, “Escrevivências”.

Nesse contexto, a personagem Ponciá-Evaristo-Flor-do-Mulungu assumiu, neste desfile, papel central como síntese simbólica e narrativa, personificando tanto a vida e a experiência de Conceição Evaristo quanto os universos ficcionais que a autora construiu ao longo de sua atuação como escritora e intelectual negra. A personagem inédita, criada para a condução deste enredo, protagonizou uma narrativa que tensiona memória, ficção e ancestralidade, revelando o entrecruzamento entre vida, escrita e resistência. Ótimo ter saído do óbvio na homenagem para valorizar os pensamentos da escritora, ideia que ajudou o Império a também trazer uma estética diferente, mas muito pertinente.
EVOLUÇÃO
Nesse quesito, a Serrinha não fez uma grande apresentação. Talvez por um samba cadenciado, mas puxado para trás por conta de suas características, o Império Serrano evoluiu de forma muito arrastada, demorando a chegar aos módulos de julgamento. Grande, a escola inclusive nem fez a bateria de Mestre Sopinha entrar no segundo recuo, passando direto a fim de permitir um final de desfile sem maiores problemas. Nos últimos setores, a escola ainda apressou um pouco o passo.

Na última apresentação de módulo, a comissão de frente demorou a tirar o elemento cenográfico, o que fez o casal perder a passada do samba para entrar, fazendo com que a escola tivesse que ficar mais tempo parada. Entre casal e comissão também ficou um espaçamento maior na frente do júri, pois era o lugar onde o casal iria se apresentar. A dupla ficou mais próxima da ala, esperando a passada do samba, o que pode gerar questionamentos sobre esse espaço que ficou. Importante ver como os jurados de Evolução vão interpretar essa situação.
HARMONIA
Estreando na Serrinha, o intérprete Vitor Cunha não sentiu o peso e o tamanho de defender o pavilhão de uma escola detentora de grandes obras e com nove títulos no Grupo Especial. Ao contrário, mostrou-se bastante tranquilo, encarando a missão de impulsionar os componentes no canto, o que aconteceu bem e era esperado, vista a comunidade que a Serrinha tem.

Já o samba não rendeu tanto, não por culpa do carro de som, que realmente deu o seu melhor, mas por características da própria música, mais cadenciada, sem um grande momento de explosão. Bom entrosamento entre carro de som e bateria, vozes afinadas e excelente trabalho de sustentação das vozes de apoio para deixar Vitor mais à vontade.
SAMBA-ENREDO
O samba é de autoria dos compositores Hamilton Fofão, Dudu Senna, Leandro Maninho, Cláudio Russo, Lico Monteiro, Jorginho da Flor, Silvio Romal, Marco Aurélio, Victor Mendes, Mateus Pranto e Gabriel Simões. A obra até se relaciona com o enredo, com uma cara mais emotiva, mas nostálgica, com bons momentos, principalmente na cabeça do samba, que permitem algumas bossas mais afros para a bateria e para a dança do casal nos trechos em que faz reverência a Oxum.

O refrão do meio tem uma virada de melodia interessante. No “Folia de Reis”, há uma quebra interessante na linha melódica, com um caminho harmônico diferente do restante da obra, o que a engrandece. Porém, o samba não teve um grande rendimento, não houve muita interação do público, o que produziu um desfile morno, com uma evolução mais arrastada. Faltou maior vibração, ainda que a obra sempre se relacionasse com o caráter nostálgico.
ALEGORIAS
O carnavalesco Renato Esteves levou para o desfile do Império Serrano três alegorias. O carro abre-alas, “Consagração”, representou justamente a consagração da personagem central do enredo, Ponciá-Evaristo-Flor-do-Mulungu, a Nossa Senhora da Conceição e, consequentemente, a Oxum. Estruturado em duas partes, na porção frontal a escola trouxe a figura de Oxum e a força das águas doces, os Olhos-d’Água, concebidos como um grande assentamento simbólico da orixá. Já a parte traseira da alegoria retratou um grande festejo em homenagem a Nossa Senhora da Conceição.

A segunda alegoria, “Navio Mudança: Refúgio dos Becos e Vielas”, materializou o momento de travessia vivido pela Favela do Pindura-Saia após o aguaceiro provocado pela violência estrutural e pela especulação imobiliária. O carro se estruturava a partir do barro, que remete à criação, à fertilidade e à memória moldável. A escultura central em forma de navio, em barro, representou as lembranças de Ponciá sobre o Pindura-Saia. A figura de Sabela se impôs como eixo da alegoria: divindade-navio, ventre-travessia, corpo que carregou a comunidade inteira. As construções de favela surgiram integradas ao corpo do navio, reforçando a ideia de que o território não é apenas espaço físico, mas seus corpos, vínculos, afetos e identidades. Cenograficamente, a alegoria estabeleceu uma transição visual e emocional no desfile.

A última alegoria, “Casa de Preto Também é Academia”, constituiu o ponto de consagração intelectual e simbólica do desfile, encerrando o percurso narrativo. Cenograficamente, a alegoria apresentou uma arquitetura que fundiu casa, biblioteca, terreiro, palácio e escola de samba. Livros, símbolos da escrita, expandiam-se em formas monumentais, dialogando com elementos ancestrais e populares. Ao elevar a Casa Escrevivência à condição de Academia Ancestral, um palácio, o desfile consagrou Ponciá-Evaristo, Conceição Evaristo e as escrevivências negras como saberes eternos. Na conclusão da alegoria, o elemento visual final propôs uma releitura crítica da imaginária clássica do herói e do monstro, tão recorrente na tradição ocidental, nela a forma de uma menina negra em posição de comando.
No geral, Renato Esteves mostrou boas soluções estéticas, relacionando ancestralidade com elementos do hoje, relacionando o afro e o religioso católico, como no primeiro carro. Apesar de uma estética interessante e ousada, os carros ficaram devendo no acabamento. No abre-alas, por exemplo, na parte de cima havia um buraco e escada não decorada, quebrando a carnavalização da alegoria.
FANTASIAS
Fantasias também foram um ponto em que o Império enfrentou um contraste técnico. Se, por um lado, as soluções estéticas e de material foram interessantes, como nos carros, por meio do uso de materiais não tão óbvios como espuma e cordões, por outro, o acabamento dos figurinos não esteve tão apurado, como na ala 9, “Sabela”, e na ala “A Gente Combinamos de Morrer”, ambas com estética interessante, mas o collant por baixo, que aparecia, diminuía o apuro plástico. E a ala “Kizomba de Preta Literatura”, já no fim do desfile, celebrou a festa da literatura negra e consagrou a obra e a intelectualidade de Conceição Evaristo, mas era simplesmente composta por pessoas com camisa e calça, como em ensaio.

Por outro lado, posso encerrar a análise do quesito enaltecendo a ala das baianas, “Conceição Yalodê”, que fazia referência à origem do nome de batismo de Conceição Evaristo, por ter sido consagrada a Nossa Senhora da Conceição. Esteticamente, a fantasia apresentou uma releitura dos elementos e signos presentes na indumentária de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Logo no início do desfile, foi uma das alas de baianas mais bonitas que passaram na Sapucaí.
OUTROS DESTAQUES
A bateria “Sinfônica do Samba”, de Mestre Sopinha, em sua fantasia representou Fio Jasmim, personagem extraído do romance da autora intitulado “Canção para Ninar Menino Grande”, que traz para o centro do desfile o único protagonista masculino da obra de Conceição Evaristo. Em sua construção estética, a indumentária da bateria se inspirou na figura do maquinista ferroviário, associando trabalho, deslocamento e modernidade. A fantasia tinha até luz no chapéu.

A rainha Quitéria Chagas veio de Oxum, simbolizando a força ancestral que está por trás da vida de Conceição Evaristo. A fantasia dos passistas fez referência ao artigo “Samba-Favela”, escrito por Conceição Evaristo em 1968, publicado no Diário Católico, período em que a autora integrava a Juventude Operária Católica. Nas vias plásticas, a fantasia se estruturou a partir de cores vibrantes e contrastantes, com predominância dos verdes, que evocam vitalidade e continuidade. No esquenta, como não poderia faltar, Vitor Cunha cantou “Aquarela Brasileira”, seguido pela Sapucaí inteira, e também “Besouro Mangangá”, do título de 2022.










