O altar de Nossa Senhora da Conceição Aparecida cruzando a Intendente Magalhães sob a luz do amanhecer já está eternizado na história da Império da Uva. Última escola a desfilar pela Série Prata na terça-feira, a agremiação mostrou que não se acomodou com o vice-campeonato do ano passado. Com chão, plástica e fome de título, apresentou um desfile de impacto visual e forte apelo emocional.

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Foto: S1 Comunicação

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Thiago Silva, a comissão abraçou o enredo com teatralidade e entrega. A apresentação representava a união de diferentes culturas do Brasil reverenciando a padroeira.

No verso “Vejo que não estou sozinho / A vela se acendeu”, o ápice cênico acontecia: os componentes se curvavam diante do altar e uma explosão de luzes tomava conta do cenário. O efeito impressionou. Contudo, a segunda projeção da chama apresentou pequeno atraso em relação à primeira, detalhe técnico que pode ser observado pelos jurados.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Douglas Rosa e Raquel Silva defenderam o pavilhão com segurança, sintonia e expressividade. O casal incorporou a temática religiosa ao bailado e recebeu aplausos calorosos do público.

Destaque para o momento em que simularam uma oração nos versos “São rezas, canções e batuques / É missa dos pretos”, unindo interpretação e técnica. As fantasias, exuberantes em verde, azul e dourado, eram ricas em detalhes e ampliavam o impacto visual da apresentação.

ENREDO

Com o enredo “Nos Caminhos da Fé, o meu sonho anunciou: Salve Nossa Senhora Aparecida, a Mãe Preta do Brasil”, o carnavalesco Sílvio César Ribeiro propôs uma homenagem que evidenciasse a força religiosa e cultural da padroeira na formação social brasileira.

A narrativa destacou a santa como símbolo de acolhimento aos pobres e desfavorecidos. Também evocou o Santuário Nacional de Aparecida, em São Paulo, destino de milhões de devotos que realizam peregrinações movidos pela fé.

EVOLUÇÃO

A escola encerrou o desfile em 39 minutos e 22 segundos. Próximo ao fim, houve apreensão: ainda restavam alas e dois carros para cruzar a avenida, o que gerou breve espaçamento próximo à última cabine de julgamento. A situação, porém, foi rapidamente corrigida, garantindo conclusão segura dentro do tempo regulamentar.

HARMONIA

O entrosamento entre o intérprete Nêgo e a comunidade foi um espetáculo à parte. Todas as alas cantaram com intensidade, demonstrando forte identificação com o samba.

Mesmo na última avaliação, a comissão de frente manteve o canto firme, fortalecendo a energia do encerramento. A Império mostrou-se uma escola coesa, vibrante e consciente do próprio potencial.

SAMBA-ENREDO

Com um time numeroso de compositores, a obra foi um dos grandes trunfos da escola na Série Prata. A Império da Uva destacou-se como uma das agremiações que mais soltaram a voz na competição.

O refrão “Faz de mim seu altar, o milagre da vida / Nossa Senhora Aparecida!” emocionou do início ao fim. A letra também abordou o sincretismo religioso ao relacionar Aparecida a Oxum, orixá das águas doces, enriquecendo a narrativa com sensibilidade cultural.

FANTASIAS E ALEGORIAS

O conjunto de fantasias era colorido, coeso e de fácil leitura. A narrativa visual fluía com clareza do primeiro ao último setor.

A ala dos mantos brancos foi um dos pontos altos. Sob a luz natural do amanhecer, os detalhes dourados ganharam brilho especial, valorizando ainda mais o acabamento das peças.

A escola investiu fortemente nas alegorias, que apresentaram acabamento refinado e impacto visual marcante.

O abre-alas trouxe o trio de pescadores que, em 1717, encontrou a imagem de Nossa Senhora no Rio Paraíba do Sul. A segunda alegoria fez referência à devoção da Princesa Isabel, sugerindo a passagem do tempo e a consolidação da fé.

O último carro, representando a devoção popular na cidade de Aparecida, encerrou o desfile de forma apoteótica, consolidando a força narrativa da proposta.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Sangue Verde”, comandada pelo Mestre Dó, elevou o samba com paradinhas bem executadas e excelente diálogo com o carro de som. A energia irradiada pela bateria contagiou arquibancadas e componentes, fortalecendo a atmosfera de celebração e confiança no título.