Coincidências atravessam o enredo do Arranco do Engenho de Dentro e a trajetória de Anderson Morango. Assim como Maria Eliza dos Reis, a primeira palhaça negra do Brasil que se vestia de homem para seguir no picadeiro, o artista transforma-se em porta-bandeira para preservar o próprio legado e escrever um novo capítulo na história do pavilhão.
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Há sete anos, Anderson se transforma em Morango para ocupar a função de segunda porta-bandeira do Arranco do Engenho de Dentro, posição que consolidou sua trajetória no bailado do pavilhão. A presença masculina no posto, ainda incomum no universo das escolas de samba, ecoa a própria história narrada pelo enredo e reforça, na avenida, a ideia de permanência pela arte e pela tradição familiar.
No enredo deste ano, as aproximações entre Maria Eliza e a própria história do Arranco aparecem como fios que costuram passado e presente. A artista nasceu em 21 de fevereiro, mesma data de fundação da escola, ainda que separadas por mais de seis décadas. No circo, cozinhava, costurava e tocava tamborim; na quadra, a presidente Diná mantém viva a tradição das feijoadas, enquanto o instrumento segue essencial à bateria. Espelhamentos que reforçam, na avenida, a permanência de um legado construído pela arte e pelo trabalho coletivo.

Para Morango, o paralelo com Maria Eliza ultrapassa a coincidência narrativa do enredo e se torna experiência pessoal.
“Falo que o enredo tem tudo a ver comigo porque Eliza se fantasiava de homem para manter o legado da família e o sonho do pai dela. Eu digo que me visto de mulher para manter o meu sonho e o legado da minha família, que é o samba”, afirmou.
Antes de assumir o pavilhão do Arranco, Anderson trabalhou nos bastidores do carnaval, vestindo o então primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Mangueira, Marquinhos e Giovanna. O convívio despertou o interesse pelo bailado, que o levou inicialmente ao posto de mestre-sala.
A mudança para porta-bandeira veio depois, a partir do convite de um carnavalesco durante um enredo sobre intolerância religiosa na Acadêmicos do Sossego. Uma experiência que revelou contradições de um universo que, embora marcado pela celebração da diversidade, ainda preserva traços de conservadorismo.
A chegada ao posto também aconteceu de forma inesperada.
“A princípio, o presidente queria que eu fosse rainha de bateria. Achei que ele estava louco e disse que aquilo não era para mim, mas ele insistia que eu tinha bons giros. Fomos almoçar e, quando cheguei em casa, já tinha emissoras me ligando porque a assessoria tinha vazado a história. Era para ser só um ano, mas permaneci, fui promovida a segunda porta-bandeira e hoje estou há sete anos na função, quatro deles no Arranco”, contou.
Mais do que ocupar o posto, Morango projeta continuidade. No Arranco, ele mantém um trabalho de formação de novas porta-bandeiras, compartilhando técnica e experiência com alunos de diferentes idades e trajetórias.
“Acho importante passar o que você sabe, não guardar para tentar se eternizar. Eu aprendo todos os dias com meus alunos, inclusive com crianças autistas e pessoas com deficiência, que me ensinam com o próprio sonho. Segurar um pavilhão é segurar a história de uma escola e tudo o que os ancestrais construíram. O Arranco é uma dinastia familiar. A gente vive a escola todos os dias. Agora só saio daqui quando Deus quiser”, concluiu.









