A cada giro de saia, a ala da baianas da Acadêmicos de Vigário Geral transformou a Marquês de Sapucaí em um grande livro aberto. Batizada de “Relatos Sertanistas – Pergaminhos: as histórias que giram”, as baianas representaram cartas e registros oficiais que narram a história do Brasil, mas também evocou aquilo que nunca coube nos documentos oficiais: a memória viva da cultura afro-brasileira, transmitida pelos corpos, pelas famílias e pela oralidade.

Inserida no enredo “Brasil Incógnito – O Que os Seus Olhos Não Veem, a Minha Imaginação Reinventa”, desenvolvido pelos carnavalescos Alex Carvalho e Caio Cidrini, a ala reforçou a proposta da escola de revisar criticamente o imaginário colonial.

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MARIA INES
Maria Inês Ramos. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Ao transformar o “bestiário” da colonização em símbolo de resistência, a Vigário Geral, sétima a desfilar na primeira noite de desfiles da Série Ouro, inverteu a lógica do colonizador e celebrou a identidade brasileira sob a ótica da reinvenção e da antropofagia cultural.

Com dez anos na escola, a arquiteta Maria Inês Ramos Silva, de 66 anos, definiu a experiência de vestir a fantasia como um ato de reverência aos ancestrais.

“Eu sinto que estamos representando os nossos ancestrais. A nossa cultura afro-brasileira nasceu conosco. O samba nasceu conosco. É uma cultura que, por mais que tentassem, não conseguiram apagar. Nós estamos aqui representando exatamente isso”, afirmou.

Para ela, ser baiana é assumir o papel de guardiã da memória e da ética do samba. “A memória do samba é o respeito. E o respeito que está faltando muito hoje em dia. Precisamos reaprender a respeitar principalmente os mais velhos, que estão sendo tidos como descartáveis. Se a gente não aprende com os mais velhos, não aprende com ninguém”, disse. 

Ao definir o que representa ocupar aquele posto, resumiu: “Representa a alegria de viver. Somos guardiãs da memória da escola”, concluiu.

MARIA NAZARE
Maria Nazaré. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

A médica Maria Nazaré, de 69 anos, e irmã de Maria Inês, também há cerca de uma década na ala das baianas, descreveu a emoção de dar continuidade a uma linhagem que considera fundamental para a identidade das escolas de samba.

“É uma emoção incrível, porque estamos dando continuidade à tradição de uma ala que está nas raízes da escola. Somos as mães do samba. É a maternidade de um filho que você não pariu. É uma honra fazer parte da história de baianas famosas como Dona Neuma e de tantas outras que seguem atuando”, afirmou.

Ela relembrou que o samba é herança familiar e atravessa gerações. “Minha mãe nos levava para o Carnaval muito pequenas. Não lembramos de um único ano da nossa infância em que não estivéssemos fantasiadas e dançando com ela. Quinze dias antes de um Carnaval, ela faleceu, mas pediu que mantivéssemos a tradição. E nós dançamos em homenagem a ela”, disse.

Para Maria Nazaré, desfilar de baiana tornou-se uma escolha definitiva. “Passei a vida em outras alas, mas há cerca de dez anos desfilo de baiana e não quero outra vida. É tradição, é história, são nossos antepassados e as nossas descendentes que continuarão”, concluiu.

LETICIA MARTINS
Letícia Martins. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Representando uma geração mais jovem da ala, a pedagoga Letícia Martins, de 39 anos e há três anos na escola, relatou a força simbólica que sente ao entrar na avenida. “Eu sinto a ancestralidade. É como se a própria história do Carnaval estivesse sendo contada ali, através da fantasia e da ala. É uma sensação muito forte de conexão”, afirmou.

Primeira integrante de sua família a cruzar a Sapucaí, Letícia enxerga na ala das baianas um compromisso com a continuidade. “Representa a preservação da história do samba. É manter viva essa tradição tão importante”, disse.

JUCIARA DA CONCEICAO
Juciara da Conceição. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Quem também destacou o sentido ritualístico do movimento das saias rodadas, foi Juciara da Conceição, de 61 anos. Ela descreveu a sensação de fazer parte de um segmento tão importante da escola: “Eu sinto que levo o poder do movimento. Quando a gente gira, aquela saia enorme cria um redemoinho que parece limpar o caminho para a escola passar. É como se eu estivesse carregando o axé e uma energia de cura. Cada giro é um presente de alegria para quem está na arquibancada”, afirmou.

Ela também ressaltou que preservar a memória do samba passa pelo cotidiano da comunidade. “Faço questão de preservar a memória do acolhimento no barracão. O samba não é só o brilho da avenida; é o café compartilhado, é o cuidado de uma componente com a outra enquanto costuramos os adereços. A escola é uma rede de apoio onde ninguém fica para trás”, disse.

A baiana contou ainda que o samba chegou como processo de transformação pessoal. “O samba entrou na minha vida como cura e redescoberta na maturidade. Não nasci em berço de samba, mas o samba me adotou quando eu mais precisei de alegria”, afirmou.

Ao refletir sobre o papel da ala  dentro da hierarquia do desfile, foi categórica: “Ser baiana representa a soberania feminina. Mesmo que não sejamos o foco das câmeras como a rainha de bateria, somos o alicerce. Sem a ala das baianas, a escola nem pode competir. É orgulho de ser o fundamento da festa”, concluiu.