Por Gustavo Lima, Eduardo Frois e Will Ferreira

O Camisa Verde e Branco viveu tempos de turbulência nos últimos meses. A bolha do carnaval paulistano se perguntava se a escola iria ensaiar ou até mesmo desfilar, mas eis que o Trevo da Barra Funda pisou no Anhembi firme e forte, com um dos melhores sambas do ano. O primeiro ensaio do Camisa teve como destaque a ala musical, liderada pelo intérprete Charles Silva. A condução do samba-enredo, juntamente com a bateria de mestre Jeyson, se sobressaiu no treino. Outros quesitos apresentaram pontos positivos, mas há ponderações a serem feitas. Fato é que, com essa potência de samba, a escola deve voltar melhor para o Anhembi no dia 31 de janeiro. O Camisa Verde e Branco encerra os desfiles do Grupo Especial com o enredo “Abre Caminhos”, que abordará a entidade Exu. O tema é desenvolvido pelo carnavalesco Guilherme Estevão.
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COMISSÃO DE FRENTE
Comandada por Luiz Romero, a comissão de frente do Camisa Verde e Branco ainda tem alguns pontos a serem desvendados. Havia, claro, a figura central de Exu circulando o tempo todo pela pista, que por vezes era venerada pelos demais integrantes, além de bailarinos realizando diferentes coreografias, como danças de terreiro e saudações ao público.

Paralelamente, outros componentes carregavam uma espécie de pilares, que se juntavam e se separavam ao caminhar com a evolução. Resta saber se isso terá algum efeito quando for confeccionado ou se pode ser revelado no próximo ensaio. Contudo, foi uma comissão de frente que ocupou a pista de maneira satisfatória e saudou Exu, deixando a mensagem explícita ao público.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal Marquinhos Costa e Lys Grooters realizou um ensaio seguro. Devido à pista bastante molhada pela forte chuva que caiu momentos antes do ensaio do Trevo, a dupla optou por realizar seus movimentos mais amplos nos pontos estratégicos, especialmente nas cabines de jurados. Pelo restante da pista, foram evoluindo tranquilamente, com leves giros horários e anti-horários. O terreno molhado impossibilitou a dupla de realizar um treino intenso, característica dos dançarinos. É o primeiro ano juntos, mas ambos já dançavam dessa forma com seus antigos parceiros.

“Antes da responsabilidade eu acho que vem o prazer porque eu vi Gabi, eu vi Cláudia e Cláudia, eu vi Léo dançando com a Joyce, Pâmela e Douglas, eu vi muita gente que foram espelhos para mim dançando no Camisa. O Douglas, ao mesmo tempo que ele era mestre-sala mirim no Camisa, eu era mirim também na São Lucas. São grandes amigos que eu vi nessa escola tradicional, acho que é uma responsabilidade e um prazer imenso por causa disso. A nota, cada um ano, mas é uma responsabilidade defender essa nota 40. A gente teve uma passagem de quatro anos e dois carnavais na X-9, na época da pandemia e no ano que ela quebrou o pé no ensaio. Os dois anos na avenida foram nota máxima. Estamos recuperando esse trabalho que foi muito gostoso”, disse o mestre-sala.

“Nessa reta final fica um pouco mais puxada, já começaram os nossos ensaios específicos aqui. Hoje, a gente fez as marcações muito rápido. Testamos e graças a Deus funcionou. É claro que a gente tem mais o que melhorar, mais o que aperfeiçoar, mas a gente está muito feliz com o que a gente apresentou hoje”, completou a porta-bandeira.
EVOLUÇÃO

A escola evoluiu corretamente; não se viram espaçamentos nem buracos entre as alas. É um samba-enredo que permite à comunidade ficar solta, sem coreografias, apenas na repetição do meio: “Eu sou da rua, macumbeiro, sim, senhor”. Nesse trecho, os componentes batem palmas, como se estivessem em um ponto de matriz africana dedicado ao orixá. Algumas alas carregavam lenços e outras, bexigas nas cores da escola, mas a maioria priorizou as camisas igualitárias. Entretanto, não se sabe se a direção de carnaval e a harmonia do Camisa priorizaram um maior preenchimento da pista. O fato é que faltou uma intensidade maior de movimentação dos componentes, algo que o samba pede.

HARMONIA
Nitidamente, a comunidade do Camisa Verde e Branco está habituada ao samba-enredo e não se intimidou com palavras que fogem da língua portuguesa. Contudo, especificamente neste ensaio, faltou vigor no cantor. Assim como no quesito evolução, a intensidade foi deixada de lado.

A melodia do samba é de guerra e pede força e garra, o que não ocorreu. Talvez isso não configure erro, mas, com as caixas de som completas no Anhembi, pode ser difícil para os julgadores escutarem o canto. Ainda há mais um ensaio técnico para correções, além dos ensaios de rua e de quadra.
SAMBA-ENREDO
Um ponto positivo foi o carro de som comandado pelo intérprete Charles Silva. O carioca é estreante no Camisa Verde e Branco e no carnaval de São Paulo, chegando para substituir o renomado Igor Vianna. Viu-se, no primeiro ensaio técnico, um cantor promissor, que pode se identificar com a comunidade tanto quanto o “Gordão” conquistou seu afeto. Desde o esquenta, com os hinos e o histórico samba-enredo de 1988, o alto desempenho foi notório, levantando o Setor A, que consegue ouvir todos os esquentas.

Durante o ensaio, Charles mostrou um entrosamento consistente com sua ala musical. Executou os cacos nos momentos certos, chamou a comunidade e conduziu bem a obra com sua voz potente.
OUTROS DESTAQUES

Criada na escola, Camila Prins, reconhecida por sua luta LGBTQIAPN+ no carnaval, foi coroada rainha do Camisa Verde e Branco. O ato aconteceu momentos antes do ensaio.
A bateria “Furiosa”, liderada pelo mestre Jeyson Ferro, teve a estreia de sua dupla, Jeferson da Conceição. Os dois comandarão juntos a batucada do Trevo no Carnaval 2026. No ensaio, destaque para uma longa bossa, que ocupou todo o refrão de cabeça e terminou na primeira parte do samba.










