Por Maria Estela Costa e Matheus Morais

Faltando menos de um mês para o Carnaval 2026, a Portela realizou, neste domingo, seu penúltimo ensaio de rua na Estrada do Portela, em Madureira, Zona Norte do Rio de Janeiro. Alas posicionadas, bateria aquecendo e esquenta rolando, a agremiação se deparou com um obstáculo: o carro de som não andava. Porém, por decisão do presidente Junior Escafura, a comunidade faria o ensaio mesmo assim, cantando sem o auxílio do carro de som. Assim, com atenção e potência na voz, conseguiram ultrapassar o obstáculo com vigor. Em 2026, a escola irá apostar no enredo “O Mistério do Príncipe do Bará: A oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, desenvolvido pelo carnavalesco André Rodrigues, que homenageará o Príncipe Custódio, personagem importante para a negritude do Rio Grande do Sul e para o movimento negro nacional.

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“A Portela está trabalhando muito nesse pré-carnaval. A escola está feliz, está alegre, está com muita vontade de vencer, de fazer um grande Carnaval”, afirma Júnior Escafura, presidente da agremiação.

COMISSÃO DE FRENTE

Iniciando o ensaio, a comissão de frente, coreografada por Claudia Mota e Edifranc Alves, chegou com roupas confortáveis: todos estavam com a camisa oficial do enredo de 2026 e calça branca. A coreografia, conectada com os versos do samba, representava a resistência do povo negro e das religiões afro-brasileiras. Isso foi bem expresso no momento em que o samba diz “Portela, tu és o próprio trono de Zumbi”, quando os dançarinos se unem com o olhar direcionado para frente e cantam esse trecho com firmeza na voz, indicando pertencimento ao ocupar esse espaço.

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Em diversos momentos, os dançarinos atuavam em uma incorporação, em referência às giras realizadas nas religiões candomblé e umbanda. Um momento claro é quando a canção diz “Alupo, meu senhor, Alupô! Vai ter xirê no toque do tambor”, que é uma saudação ao orixá Bará, o senhor dos caminhos e encruzilhadas, e os dançarinos fazem essa simulação de incorporação. Além disso, um passo comum na dança é a roda, em que uma parte do grupo fica no meio fazendo movimentos com as mãos, enquanto os demais rodam em volta.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O casal Marlon Lamar e Squel Jorgea defendeu o pavilhão com muita potência. Cantaram e dançaram em sintonia, sempre com o pavilhão erguido. Há um bom diálogo entre eles, que resultou em maior naturalidade nos passos e interação com o público. Durante a apresentação, Marlon fez o movimento de orbitar Squel, enquanto a porta-bandeira girava com o pavilhão erguido.

Outro momento que chamou atenção é quando o samba chega ao verso “Portela, tu és o próprio trono de Zumbi”, e o casal segura as mãos e roda junto, com o outro braço aberto, demonstrando respeito pela agremiação. No look, eles optaram por roupas confortáveis e casuais: Marlon com roupa social branca, camisa do enredo de 2026 e sapato social azul; e Squel com a camisa do enredo de 2026, saia branca e bota marrom-claro.

HARMONIA

O desempenho do samba foi a estrela da noite. Este domingo foi diferente dos demais. A comunidade sempre precisa cantar, justamente por ser um dos quesitos, mas, dessa vez, foi além disso: a agremiação precisava da ajuda dos componentes para que o ensaio fosse realizado da melhor maneira possível, e assim foi feito. A comunidade mostrou que sabe o samba de ponta a ponta, além de provar seu amor pela agremiação.

Até a chegada da curva na Estrada do Portela, os desfilantes estavam em sintonia, cantando o samba sem embolar e com potência. Após a curva, já perto do final, os diretores de harmonia tiveram maior dificuldade para evitar que o canto embolasse, pois estava cada vez mais distante do carro de som e as primeiras alas estavam mais afastadas da bateria.

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Para resolver a situação, os diretores pediam para a ala parar de cantar e seguiam de acordo com o canto da ala seguinte. Esse atraso entre as alas foi um problema esperado, já que não é comum ensaiar sem o auxílio crucial da ala musical para acompanhar o canto, além da curva, que deixa as alas mais distantes umas das outras. No entanto, mesmo após o encerramento do ensaio, o público, que a todo momento se pôs à disposição de ajudar a escola, permaneceu cantando o samba-enredo.

“A gente teve uma perspectiva de chuva, a gente veio. A gente teve um calor extremo, a gente veio. E hoje a gente teve uma condição técnica além da nossa vontade: uma falha que não é comum, mas ocorreu, uma falha técnica no carro de som. Primeiramente, o presidente Júnior Escafura já falou, e a gente tem que endossar e reforçar nossas desculpas à comunidade da Portela pela falha técnica. Mas os nossos parabéns à comunidade da Portela por ter mantido o canto diante de todas as impossibilidades de um terreno que tem subida, que tem curva, em que a gente não teve a melhor perspectiva de canto por essa razão, mas em que a harmonia trabalhou sem cessar dentro das alas, mudando sua configuração física para que pudesse cantar junto do componente, e esse componente respondeu a esse estímulo. Ou seja, parabéns à comunidade da Portela. Hoje podemos dizer que a comunidade da Portela fez o ensaio. O alicerce foi a bateria do mestre Vitinho e o alicerce da nossa harmonia, mas o mérito é da nossa comunidade, a quem, de novo, agradecemos e pedimos desculpas. Porém, evoluímos por entender que caminhamos em mais uma adversidade. O regulamento diz: a falha do som é uma coisa que pode acontecer, e a escola terá que seguir”, diz Schall, diretor de carnaval.

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EVOLUÇÃO

Apesar das dificuldades enfrentadas, as alas vieram alegres e bem posicionadas, seguindo um enfileiramento que exigia atenção, pois, nos momentos em que a escola prosseguia, havia certa velocidade; ou seja, se alguém se distraísse, poderia acabar ficando para trás e atrapalhando as outras fileiras.

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Apesar desse cuidado, os desfilantes seguiam confortáveis, cantando, dançando e interagindo com os espectadores. Havia também alas coreografadas: a ala 1, com giros para os lados, palmas em sincronia com a música e mãos elevadas saudando o orixá Bará; e a ala 10, em que os desfilantes seguravam um cabo de vassoura como adereço, incorporado à dança, que era simples, mas com muita referência às danças típicas das religiões afro-brasileiras. Os passos principais contavam com as duas mãos no cabo de vassoura; assim, movimentavam as mãos e o corpo de um lado para o outro, depois seguravam o cabo somente com uma mão e erguiam a outra para o céu, em sincronia com a música.

SAMBA

O samba foi muito bem recebido pela comunidade. Apesar das dificuldades enfrentadas devido à ausência do carro de som, os desfilantes cantaram a letra sem erros. O refrão é fácil de pegar; a repetição de palavras facilita o entendimento. Um ponto alto do samba, que faz toda a comunidade cantar — não só os desfilantes, como também o público que assistia — é o verso “Portela, tu és o próprio trono de Zumbi”. Isso porque há uma leveza, quase como uma declaração de amor, no momento em que se fala o nome da agremiação. Não é à toa que o verso foi destacado na coreografia da comissão de frente e do casal de mestre-sala e porta-bandeira, pois traz o sentimento de pertencimento.

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“O rendimento do samba está além das nossas expectativas. O samba está indo muito bem, é um samba que conta muito bem a história do nosso enredo e, além disso, é um samba com frases fortes, que chama a comunidade para cantar, para vibrar, e o resultado a gente está vendo. O samba da Portela está sendo considerado, em todas as enquetes, como um dos melhores do carnaval. Isso deixa a gente muito feliz e com uma responsabilidade ainda maior de fazer um grande carnaval”, diz Junior Escafura.

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OUTROS DESTAQUES

A rainha de bateria, Bianca Monteiro, esteve presente com um look todo trabalhado em pedrinhas azuis brilhantes e, na altura do quadril, franjas em degradê em tons de azul. Ela mostrou sua conexão com os portelenses e, em diversos momentos, parou de sambar para cumprimentá-los. Também protagonizou um momento fofo ao sambar ao lado de uma criança, mostrando que o samba atravessa gerações.

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Outra figura que marcou presença, registrando sua confirmação no desfile da agremiação, foi a atriz Cacau Protásio, que há dois dias afirmou, junto à escola, que participará do desfile de 2026. Ela vestia um vestido azul, com diversas lantejoulas da mesma cor na composição. A atriz foi bem recebida pela comunidade e se mostrou muito confortável ao interagir com eles.

Sobre os últimos ajustes, Schall comenta: “Hoje a gente teve a nossa comissão de frente e o casal, dentro de uma transição que vem sendo muito boa, com o trabalho do Edifranc e da Cláudia junto com a nossa equipe do casal, Marlon e Squel. É um trabalho que já está bem alinhado e que a gente dá continuidade, por exemplo, na Cidade do Samba. Evoluímos também nesse sentido, porque hoje tivemos a comissão. É boa a sinergia, entender o timing e também em relação às alas que estavam fazendo ensaios em separado e hoje se juntaram. Exemplo: não tivemos a condição técnica, mas o canto dessas alas está tão bom quanto o daquelas que vêm fazendo esse trabalho mais periódico aqui”.

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Fotos: Maria Estela Costa e Matheus Morais/CARNAVALESCO

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