Quem passa pelo entorno do barracão da Estácio de Sá já percebe que algo grande está sendo construído para o Carnaval 2026. Mesmo para quem observa de fora, os carros alegóricos chamam atenção pela imponência, pelo colorido intenso e pelo impacto visual. As alegorias já estão prontas, em fase final de acabamento, recebendo detalhes de pintura e ajustes finais. Dentro do galpão, o cenário confirma a expectativa: carros irradiantes, volumosos e cheios de textura, que despertam curiosidade até de quem não consegue ver tudo por completo.

 

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A escola aposta em um desfile denso, forte e cheio de camadas simbólicas para contar a história de Tata Tancredo da Silva Pinto, figura central na formação do carnaval carioca, da umbanda africanizada e da cultura negra no Brasil. À frente do projeto está o carnavalesco Marcus Paulo, que assina seu terceiro carnaval na Estácio e conduz o enredo com rigor acadêmico, sensibilidade artística e compromisso político.

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Ao explicar como nasceu a ideia do enredo, Marcus deixa claro que a escolha é fruto de uma trajetória pessoal e intelectual profundamente conectada ao personagem homenageado:

“A ideia do enredo é uma vontade minha. O Tata Tancredo é muito conhecido na academia. Eu faço doutorado sobre a história do povo preto, sempre pesquisando carnaval e cultura afro-diaspórica. Então eu sempre tive muito contato com a história dele. Na academia, ele é celebrado, há dissertações, mestrados e artigos sobre ele.”

Além do reconhecimento acadêmico, o carnavalesco destaca a relação viva que a comunidade do Estácio mantém com Tata Tancredo:

“Aqui no Morro de São Carlos, eles falam do Tata Tancredo como se ele ainda estivesse vivo. Não falam como alguém que morreu. Parece um espírito que está sempre próximo. No início isso me causou estranheza, depois eu me acostumei. Hoje eu também acho que ele está aqui.”

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Visualmente, o desfile foge da leveza predominante em outras escolas e assume um corpo mais robusto, em sintonia com a grandiosidade da trajetória do homenageado:

“É um carnaval muito volumoso. As pessoas estão muito vestidas. Tata Tancredo tem uma história muito robusta para contar. Ele escreveu mais de 30 livros, mais de 60 músicas, fundou a primeira liga de escolas de samba, fundou um bando, criou festas que marcaram o Rio de Janeiro. Isso pede volume, textura e cor.”

Durante a pesquisa, Marcus se surpreendeu com a dimensão da produção intelectual e cultural de Tata Tancredo e, principalmente, com o apagamento histórico de sua obra:

“Foi chocante perceber o quanto ele produziu e como há pouco registro disso. Um homem preto, macumbeiro, vindo do Morro de São Carlos, que escreveu tanto, compôs tanto, foi colunista durante 21 anos e quase não aparece nos registros oficiais. Isso diz muito sobre o apagamento da cultura preta.”

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O samba-enredo surge como peça central para traduzir essa narrativa de resistência, fé e africanidade:

“A caneta caiu em pé. O samba traz a essência dele como religioso, como umbandista que lutou para reafirmar a africanidade dentro da umbanda. Ele viveu numa época em que havia um projeto institucional de embranquecimento da população e da cultura. Ele lutou contra isso. E o samba está passando tudo isso.”

Um dos grandes trunfos do desfile, segundo o carnavalesco, está na concepção integrada da abertura, rompendo com a ideia de uma comissão de frente isolada do restante do cortejo:

“Este ano eu fiz de tudo para que a comissão de frente faça parte do desfile. Toda a abertura — comissão, primeiro casal, primeira ala e abre-alas — tem a mesma leitura. Não é um espetáculo à parte. Quem assistir vai ver que tudo está interligado.”

Com cerca de 2.600 componentes, três alegorias e um elemento cenográfico na comissão de frente, a Estácio aposta na força de sua comunidade, que literalmente “desce o morro” para ocupar a avenida:

“A Estácio joga em casa. O Morro de São Carlos desce inteiro. A escola é grande; o desafio aqui não é colocar gente, é segurar o tempo.”

O desfile se desenvolve em setores que acompanham a vida de Tata Tancredo desde a infância em Cantagalo, passando pela chegada ao Morro de São Carlos, a fundação da primeira escola de samba, a atuação como compositor, escritor e líder religioso, até chegar ao ápice espiritual do enredo.

O encerramento promete ser um dos momentos mais marcantes da Sapucaí, com uma grande alegoria que representa o Xirê, concebida como uma instalação artística:

“Essa alegoria é o céu dos Orixás. Não aquele céu com nuvens e anjinhos. É uma encruzilhada de espíritos, um trânsito entre Orun e o mundo material. Ela tem o símbolo do infinito, porque, para a nossa religião, não existe fim. Tudo continua.”

No barracão, cada detalhe reforça a proposta de um carnaval que não busca apenas impacto visual, mas também reflexão, memória e afirmação cultural. A Estácio de Sá prepara um desfile forte, volumoso e profundamente conectado à sua origem — um cortejo que transforma história, religiosidade e resistência preta em espetáculo na avenida.