A Estácio de Sá, quinta agremiação a cruzar a Passarela do Samba neste sábado de crnaval, entregou uma apresentação vigorosa e espiritualmente densa na Série Ouro. Com o enredo “O Papa Negro: Tata Tancredo e o Fundamento do Omolokô”, desenvolvido pelo carnavalesco Marcus Paulo, a vermelho e branco mergulhou nas raízes do Morro de São Carlos para contar a trajetória de Tancredo Silva. O desfile foi uma demonstração de força da comunidade, aliando um visual tecnicamente consistente a uma harmonia que ecoou como um verdadeiro manifesto de fé e resistência.
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COMISSÃO DE FRENTE
Apresentando dois corpos de baile que personificavam a essência do enredo, o primeiro grupo representava o cotidiano e a malandragem do Morro de São Carlos, enquanto o segundo, oculto na parte inferior de um imponente tripé metálico com estampas étnicas, simbolizava a ancestralidade africana e contava apenas com mulheres.

O bailarino que interpretou Tata Tancredo serviu como elo místico entre esses dois mundos. No clímax da encenação, o segundo ato revelou um bailado de passos ancestrais, pulsantes, intensos e aguerridos, traduzindo com clareza a concepção do Omolokô e a mediação espiritual do homenageado.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O primeiro casal, Feliciano e Raphaela, protagonizou uma exibição de gala sob o título “Sentinelas da Fé”. O figurino chamou atenção pela riqueza de materiais e pelo efeito visual inovador, com uma capa de textura holográfica para o mestre-sala, em uma paleta dominada pelo vermelho e preto.
Feliciano exibiu um bailado deslizante e carismático. Com giros precisos e um cortejo de extrema elegância, incorporou coreografias que remetiam às religiões de matriz africana sem perder a essência da dança tradicional do quesito.

Raphaela conduziu o pavilhão da agremiação com maestria esvoaçante. Sua performance foi marcada pela segurança e pelo sincronismo com o par, executando giros com excelente controle de eixo e mantendo a bandeira altiva, simbolizando a guarda dos fundamentos religiosos trazidos por Tancredo.
HARMONIA E SAMBA
A Estácio de Sá reafirmou sua fama de escola de chão. A harmonia foi o combustível do desfile, impulsionada pela interpretação de Tinganá, que conduziu o samba com sua ala musical, sentindo a ausência de Serginho do Porto (cantou pelo Águia de Ouro em SP), mas suprindo-a com técnica e garra. O canto da comunidade atingiu o ápice no trecho “Atabaques no terreiro, na porteira o guardião, uma vela no cruzeiro, duas velas pro leão”, entoado com intensidade. A bateria, sob o comando de mestre Chuvisco, garantiu a cadência necessária para que a escola desfilasse com segurança e organicidade.

EVOLUÇÃO
O quesito Evolução foi um dos pilares da apresentação. A Estácio manteve uma cadência firme e segura, ocupando a avenida de forma orgânica. Não houve registros de buracos ou correrias para compensar o cronômetro. As alas pareciam conscientes de sua função espacial, resultando em um deslocamento coeso até o último módulo de julgamento. Foi uma evolução madura, que não buscou o excesso, mas sim a consistência técnica que o regulamento exige.

ALEGORIAS E FANTASIAS
O conjunto plástico de Marcus Paulo dialogou perfeitamente com a narrativa. O abre-alas, “O Primeiro Fundamento da Curimba”, trouxe o leão, símbolo da escola, em uma proposta festiva e colorida, destacando-se sobre o fundo preto e as luzes da pista. As esculturas apresentaram boa volumetria e acabamento cuidadoso, embora o último carro tenha enfrentado um problema técnico com refletores apagados em sua parte superior.

As fantasias, por sua vez, foram um ponto alto de criatividade, ricas em materiais diversos e com uma paleta de cores amarrada. Preservaram a leveza necessária para a mobilidade dos componentes, garantindo que o luxo não comprometesse a performance das alas.
OUTROS DESTAQUES
Entre os momentos mais simbólicos, a ala das baianas executou elegância e técnica. Com saias amplas e ricamente trabalhadas, ocuparam a pista com uma presença ancestral hipnotizante. Outro ponto de destaque foi um destaque de chão, que desfilou sem o tradicional costeiro, que foi carregado por apoios.

A Estácio de Sá encerrou o desfile com a sensação de dever cumprido, ao unir o fundamento religioso de Tata Tancredo à competência carnavalesca de sua comunidade.









