Por Marcos Marinho e Júnior Azevedo
A Acadêmicos do Grande Rio realizou, na noite do último domingo, mais um ensaio de rua em Duque de Caxias, confirmando um estágio avançado de maturidade em segmentos centrais do desfile. Com casal de mestre-sala e porta-bandeira em apresentação vigorosa e precisa, samba cada vez mais assimilado pela comunidade, bateria segura e consciente e uma evolução marcada pela beleza das alas coreografadas, a escola apresentou um treino que reforça confiança e leitura coletiva da obra. Na reta final de preparação para o carnaval, a Tricolor de Caxias demonstrou entendimento crescente do enredo “A Nação do Mangue”, assinado pelo carnavalesco Antônio Gonzaga, projetando um desfile consistente para a Sapucaí, onde será a terceira escola a se apresentar na terça-feira de carnaval.
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MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
É sempre impactante ver Daniel Werneck e Taciana Couto em cena. Há, desde a entrada, uma sensação de vigor e inteira disponibilidade corporal que sustenta a apresentação do casal. O que se destaca é o dinamismo da dança, construído a partir de uma combinação muito bem resolvida entre coreografia e fundamentos tradicionais do bailado de mestre-sala e porta-bandeira.
Os giros surgem com rapidez e precisão, e Taciana se afirma como uma porta-bandeira extremamente ágil, com finalizações limpas, bem desenhadas e “chegadas” no tempo exato do movimento. Há um rigor técnico evidente, mas nunca rígido: o vigor físico se traduz em fluidez, e não em tensão.

No trecho inicial, marcado por uma dança mais tradicional do casal, chama atenção a forma como Daniel conduz o cortejo, abrindo espaço com rapidez e clareza para que Taciana desenvolva seus giros com segurança e leveza. Esse momento estabelece uma base sólida, de leitura imediata, para o que vem depois.
Em outros pontos da apresentação, a coreografia incorpora movimentos que dialogam com a simbologia da orixá Nanã, integrando referências da dança ritual ao vocabulário do mestre-sala e porta-bandeira. Essa fusão é feita com inteligência e respeito à tradição, sem descaracterizar o bailado, mas ampliando seu repertório expressivo.

O resultado é uma apresentação dinâmica, coesa e visualmente muito bonita, que equilibra técnica, vigor e comunicação simbólica, reafirmando a maturidade e a força cênica do casal.
SAMBA E HARMONIA
Evandro Malandro se afirma como um intérprete de inteligência cênica rara. Querido pela comunidade e plenamente conectado ao público, ele conduz o samba com uma performance cativante, que não se limita à execução vocal, mas atua diretamente na mobilização da escola. Seu canto convida, chama para perto, envolve componentes e espectadores, criando uma atmosfera de participação coletiva.

Ao lado da equipe de som e da bateria comandada pelo mestre Fafá, Evandro é peça central para a manutenção do rendimento do samba da Grande Rio. Há um cuidado evidente com a sustentação da obra ao longo do percurso, ainda que se trate de um samba que exige mais constância do que explosão.
Do ponto de vista da harmonia, é possível perceber uma evolução clara na resposta da comunidade à medida que a temporada avança. A escola canta mais e canta mais forte, especialmente no trecho “Freire ensina um país analfabeto que não aprendeu o manifesto da consciência social”, entoado com vigor pelos componentes e acompanhado, inclusive, pelo público presente na Avenida 25 de Agosto. Trata-se de um momento em que o samba encontra ressonância direta na voz da escola.

O trecho “Ponta de lança e daruê / Dobra o gonguê, a revolução já começou”, do refrão principal, também apresenta sinais evidentes de maior assimilação. Se em ensaios anteriores ainda surgia de forma mais tímida, agora já se percebe uma confiança maior do componente em cantar o trecho de cabeça, com entrega e segurança. É um indicativo de amadurecimento da obra dentro da comunidade.
Ainda assim, o samba da Grande Rio apresenta uma característica particular que impacta diretamente sua condução: não se trata de um samba explosivo. Sua lógica não é a da crescente rumo a um clímax, mas a da permanência. Assim como o próprio mangue que inspira o enredo, um território de avanço difícil, de ritmo próprio, em que o caminhar exige adaptação, o samba pede constância, atenção e sustentação contínua.
Esse desenho impõe um grau de dificuldade elevado. Manter a intensidade sem um ponto explícito de explosão é um desafio, e a comunidade, em grande medida, consegue cumprir essa exigência. Ao longo do ensaio, no entanto, nota-se uma leve oscilação: o rendimento perde um pouco de força conforme a escola avança, recupera-se parcialmente mais adiante e volta a se afirmar nos momentos finais.
EVOLUÇÃO
A evolução da Grande Rio se apresenta, de modo geral, marcada pela constância. No primeiro setor, tudo transcorre de forma bem coordenada, com avanço tranquilo, ordenado e sem sobressaltos. A escola se desloca com segurança, mantendo fluxo e leitura clara do conjunto.
À medida que o olhar se desloca da bateria para trás, a dinâmica da evolução passa a exigir uma leitura mais atenta. Não se trata exatamente de um quadro problemático, mas de um processo que se torna mais denso, mais exigente em termos de organização e fluidez. Ainda assim, o canto se sustenta e a escola segue avançando, mantendo a estrutura do desfile em movimento.

Um ponto alto da evolução está na liberdade progressiva dos componentes, que aos poucos soltam mais o corpo e ocupam a pista com maior espontaneidade. Nesse contexto, as alas coreografadas da Grande Rio merecem destaque: são alas visualmente bonitas, que introduzem dinamismo e enriquecem a leitura da evolução, funcionando como respiros ao longo do percurso.
A região da bateria, no entanto, concentra um dos principais desafios do ensaio. A presença da rainha de bateria, Virgina Fonseca, acompanhada por um número elevado de seguranças, interfere diretamente na fluidez da evolução durante o treino de rua, criando zonas de contenção e impactando o deslocamento natural da escola. Trata-se de um fator circunstancial, mas que, ainda assim, produz efeitos visíveis no rendimento do conjunto.
Mesmo assim, percebe-se que o componente vem se soltando gradualmente. Há margem clara para que a Grande Rio permita ainda mais liberdade ao corpo coletivo, favorecendo uma evolução mais solta, mais viva e mais confiante. É nesse espaço de liberação que a escola pode encontrar um ganho decisivo para transformar o ensaio em um desfile plenamente competitivo na Sapucaí.
OUTROS DESTAQUES
Entre os pontos altos do ensaio, merece registro especial a bateria comandada pelo mestre Fafá. Com execução precisa e condução segura, a bateria apresentou um rendimento correto do início ao fim, sustentando o samba com clareza rítmica e regularidade, qualidades fundamentais para uma obra que exige constância mais do que explosão. A solidez da bateria funciona como eixo de sustentação para o canto da escola e para a leitura geral do desfile.
No fim do ensaio, mestre Fafá avaliou o treino de forma positiva, destacando a forte resposta da comunidade nesta reta final de preparação. Segundo ele, mais do que a música, “a Nação do Mangue já está na rua”, percepção reforçada pelo ensaio cheio, pelo canto consistente da escola e por uma bateria que ele definiu como madura e consciente do próprio papel. “A gente trabalhou, trabalha e está trabalhando muito para recuperar os pontos perdidos, sempre com humildade, sabedoria e respeitando o manual do julgador. A expectativa é fazer, na semana que vem, o último ensaio de rua de forma positiva, como uma celebração, e chegar aos ensaios técnicos com maturidade para voltar a disputar a nota 10 e brigar lá em cima com a pontuação máxima”, afirmou o mestre.

O ensaio também contou com a presença da rainha de bateria Virginia Fonseca, que acompanhou de perto o trabalho do segmento, atraindo atenção do público e reforçando a visibilidade do momento. Gabriel David, presidente da Liesa, também esteve presente no ensaio da Grande Rio. Ele acompanhou a atividade ao lado do intérprete Evandro Malandro e gravou seu quadro de entrevistas.
OPINIÃO DO DIRETOR
Após o ensaio, o diretor de carnaval, Thiago Monteiro, avaliou de forma muito positiva o rendimento da escola nesta reta final de preparação. Segundo ele, o momento confirma um processo de amadurecimento gradual e consistente da Grande Rio.
“Cada dia que vai chegando mais perto do Carnaval, a escola vai ficando mais pronta, mais preparada para aquilo que ela vai enfrentar no dia 17 de fevereiro. Hoje eu estou muito feliz. A escola respondeu muito bem: as alas, a bateria, o carro de som, enfim, a organização como um todo”, afirmou, destacando a resposta da comunidade como um dos pontos centrais do ensaio.

Ao comentar especificamente o rendimento do samba, Thiago reforçou a leitura estratégica adotada pela escola ao longo da temporada. Para ele, o crescimento da obra faz parte de um planejamento consciente. “O nosso samba vai esquentando, vai crescendo a cada etapa da preparação. Quando chega na avenida, ele estoura. E esse é o momento certo de estourar. Não adianta queimar a largada”, explicou. Demonstrando confiança no processo, o dirigente projetou um desfile de forte impacto: “A escola está consciente de onde quer chegar. No dia 17, vocês vão ver uma Sapucaí dominada pelo mangue”.
Apesar da avaliação positiva, o diretor fez questão de adotar um discurso exigente em relação aos ajustes finais. “Nós não estamos prontos ainda em nada. Agora é a sintonia fina”, disse, citando todos os setores da escola. Para Thiago, o bom desempenho não basta quando se pensa em título. “Não adianta passar bem. O bom não ganha. O que ganha é o ótimo. O que ganha é o ‘uau’. O que ganha é a surpresa”, concluiu.









