Entre santos, doces e devoção, a fé dedicada à proteção da infância ganhará forma na Avenida em 2026. Inspirada no sincretismo entre as entidades da cultura iorubá e São Cosme e Damião, a Imperador do Ipiranga apresentará o enredo “Bejiróó, Onipé Doum – Ibeji”, desenvolvido pelo carnavalesco Rômulo Roque.

Nos terreiros, os Ibejis — entidades gêmeas ligadas à alegria, à inocência e à fartura — encontraram nos santos padroeiros das crianças as figuras ideais para a construção de um sincretismo religioso único. Dessa união nasceu a associação com Doum, o protetor dos menores de sete anos. Segundo a crença da Umbanda, todo par de gêmeos é acompanhado por um terceiro irmão espiritual que não encarnou neste mundo. Essa presença é representada nos congás por um menino ao lado de São Cosme e São Damião.
Anseio da comunidade sem perder sua raiz
A Imperador do Ipiranga nasceu de um projeto social que visava construir uma escola de samba voltada para as crianças, mas que, com o tempo, cresceu e passou a abraçar pessoas de todas as idades. Essa relação com os baixinhos é percebida por meio de muitos enredos que a agremiação da Vila Carioca leva ao Anhembi. Em entrevista ao CARNAVALESCO, Rômulo Roque explicou que, para 2026, essa visão permanece, mas atrelada à religiosidade, em função de um anseio da própria comunidade.

“O enredo surgiu a partir de uma série de coincidências. Houve o pedido do presidente Neto por um enredo ligado à religião de matriz africana, algo que ele queria abordar por ser um desejo da comunidade. Ao mesmo tempo, eu tinha a ideia de manter esse clima de enredo alegre e infantil, que já é uma característica da Imperador. E, por mais uma coincidência, o aniversário da escola é no dia 27 de setembro, que é o dia de São Cosme e Damião. Essa sequência de fatores acabou conduzindo naturalmente à escolha do tema”, revelou.
Doum, o irmão que… veio depois?
A expressão à qual Doum é ligado é a do “irmão que não veio”. De acordo com Rômulo, a entidade inicialmente não faria parte do enredo, que falaria apenas dos Ibejis. A decisão de incorporar o terceiro gêmeo ao desfile levou a uma pesquisa aprofundada, que despertou curiosidades no carnavalesco.
“Durante o desenvolvimento do enredo, surgiram novas questões a partir da proposta inicial, que nós, na escola, fomos destrinchando e moldando. A presença de Doum, por exemplo, a princípio não estaria no enredo, mas foi sugerida, e eu ainda não havia me aprofundado nesse aspecto. É interessante essa ideia de ele ser ‘o irmão que não veio’, e toda a mística por trás disso também foi uma grata surpresa”, comentou.
O fato de a escola ter sido fundada no dia dos santos gêmeos também chamou a atenção do artista, que vê nesse detalhe um sinal espiritual positivo.
“Outra questão que me chamou a atenção foi o aniversário da escola. A princípio, ninguém havia pensado nisso, mas depois percebemos que a data é 27 de setembro, dia de São Cosme e Damião. Acredito que seja uma coincidência muito bonita e sinto que boas energias estão vindo por aí”, completou.
Imperador na Avenida: da ancestralidade africana ao sincretismo no Brasil
A Imperador realizará um desfile dividido em três setores. O primeiro será responsável por narrar a ancestralidade africana à qual os Ibejis estão relacionados. Rômulo Roque explicou também que há um fator simbólico na parte inicial da apresentação, na forma de uma demanda espiritual.

“O nosso setor de abertura começa na África, abordando a ancestralidade, os Itãs, os saberes e os primórdios da religião, toda a base espiritual que sustenta o enredo. Nesse início do desfile, temos o primeiro casal, uma ala e o abre-alas tratando desse tema. Também haverá um elemento surpresa legal na frente do abre-alas que, apesar de não ter muita relação com essa parte do desfile, é necessário para dar tudo certo, pois está sendo atendido um pedido feito em trabalhos”, explicou.
A chegada da crença nos Ibejis ao Brasil e o início da associação das entidades com São Cosme e Damião serão abordados na segunda etapa do desfile, destacando o culto realizado na Umbanda.

“No segundo setor, mostramos a passagem da África para o Brasil, a chegada da fé ao nosso país. Nosso enredo é na linha de Umbanda; trabalharemos a mistura que caracteriza a religião, que reúne elementos da cultura africana, do cristianismo e das tradições indígenas. Esse setor já aponta para o sincretismo entre Cosme e Damião e os Ibejis. Nele aparecem as oferendas, os Erês e os próprios Ibejis representados nas fantasias, além do segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira”, detalhou.

O desfile será encerrado com uma grande celebração junto ao segundo carro da escola, exaltando os santos gêmeos, os Ibejis e a própria agremiação, que faz aniversário na mesma data em que se celebram as deidades.
“O encerramento do desfile, que seria o terceiro setor, entra diretamente na celebração de Cosme e Damião, com os doces, o costume de distribuir guloseimas e a relação com a saúde e a medicina, das quais são padroeiros. Esse momento também dialoga com o aniversário da escola, que acontece no dia 27 de setembro, Dia de São Cosme e Damião, dos Ibejis e dia da própria Imperador”, completou.
Trunfo vem do chão da comunidade
A força da Imperador do Ipiranga para buscar o sonhado acesso em 2026 está enraizada na própria base da escola. Para Rômulo Roque, o principal diferencial da agremiação é a comunidade, aliada a uma bateria consistente e à retomada da grandiosidade estética que marcou a trajetória recente da escola no grupo..
“Eu acredito que o maior trunfo da Imperador seja a própria comunidade. A Imperador é uma escola de comunidade, uma escola guerreira, de pé no chão, e isso já é um diferencial muito grande. Outro ponto é a bateria, que todo ano vem bem e, neste Carnaval, está ainda mais forte. O enredo também casa muito com a escola. Além disso, voltamos com a grandiosidade que a Imperador inaugurou no grupo, com o abre-alas acoplado e um desfile mais imponente. A escola vem forte, buscando esse acesso que já persegue há algum tempo. Está batendo na trave, mas, se Deus quiser, vai conquistar esse objetivo em 2026”, afirmou.
Ficha técnica
Enredo: “Bejiróó, Onipé Doum – Ibeji”
Componentes: 610
Alegorias: 2 carros
Alas: 10
Diretor de barracão: Comissão de barracão
Diretor de ateliê: Comissão de ateliê









