A Unidos do Peruche exaltará no Anhembi, em 2026, um dos maiores símbolos da cultura popular brasileira. Com o enredo “Oi… Esse Peruche lindo e trigueiro… Terra de samba e pandeiro. ‘70 anos’”, assinado pelo histórico carnavalesco Chico Spinosa, a Filial do Samba fará uma longa viagem no tempo para revisitar os primeiros registros conhecidos do pandeiro — instrumento mais antigo do que inúmeras civilizações — até sua chegada ao Brasil e a consolidação ao lado do samba no Carnaval brasileiro.

A equipe do CARNAVALESCO visitou o barracão da Peruche e conversou com Felipe Milanes, assistente de Chico Spinosa no desenvolvimento do desfile, para conhecer melhor a proposta do enredo, que também marca a celebração dos 70 anos de fundação da escola, na busca pelo título do Grupo de Acesso II de São Paulo.
Brasilidade perucheana no início de uma nova década
A ideia de contar, na Avenida, a história do pandeiro surgiu da intenção de abordar um símbolo nacional por meio de uma escola que carrega, em seu pavilhão, as cores da bandeira do Brasil.

“A ideia original é do Chico Spinosa. Ele trouxe essa proposta para a escola, essa vontade, e a escola abraçou por diversos motivos. Um deles é o fato de o pandeiro ser um símbolo nacional e a Peruche carregar as cores do Brasil, além de ter, em seu símbolo, a constelação do Cruzeiro do Sul. É uma escola muito caracterizada pela brasilidade, e toda a comunidade abraçou essa ideia. A escola percebeu, de certa forma, que é um elemento que ainda não havia sido retratado com esse olhar de contar a sua história, a história que existe por trás do pandeiro”, explicou Felipe Milanes.
O artista destacou ainda que, neste século, tornou-se uma característica da Peruche apostar em temas ligados ao país sempre que a agremiação completa uma nova década de existência.

“Há uma coisa curiosa: quando a Peruche completou cinquenta anos, trouxe um elemento nacional, que foi Santos Dumont. Quando fez sessenta anos, contou o centenário do samba-enredo. Para os setenta anos, a escola também quis trazer essa brasilidade de alguma forma. Tudo isso culminou nessa grande festa de setenta anos”, completou.
Uma das imagens mais simbólicas do carnaval brasileiro é a da passista sambando ao lado de um pandeirista equilibrando o instrumento. Apesar disso, o pandeiro deixou de ser um elemento obrigatório nos desfiles e vem aparecendo cada vez menos nas apresentações das escolas de samba. Para Felipe, esse imaginário popular representa um elemento a ser resgatado, assim como o momento vivido pela Peruche nos últimos anos.

“Essa imagem foi muito forte para a construção desse carnaval. Hoje, pensando bem, é uma imagem muito clássica quando se imagina o carnaval, mas é um elemento que nós temos cada vez menos. O número de pandeiristas diminuiu significativamente ao longo dos anos. Foi mais um motivo e uma inspiração para trazer esse enredo, que fala de resgate. A Peruche está em um processo de autorresgate, que já vem acontecendo há alguns anos. O pandeiro chega também dessa forma, com a escola se reencontrando. É uma história a ser resgatada, um símbolo a ser revivido e a ter sua importância contada”, afirmou.
Um símbolo nacional de origem milenar
A narrativa do enredo da Peruche parte da reconstrução da história do pandeiro desde seus primeiros registros, ainda antes de o instrumento assumir o formato conhecido atualmente. Segundo Felipe Milanes, é a partir desse resgate que o desfile se desenvolve até alcançar a chegada do pandeiro ao Brasil.
“O enredo faz uma viagem pela história do pandeiro, que é um símbolo muito comum nas rodas de samba, nas escolas de samba e no carnaval de forma geral. Dentro da ideia proposta, ele percorre, de forma cronológica, a história do pandeiro desde os primeiros registros, cerca de seis mil anos antes de Cristo, até a sua chegada ao Brasil”, explicou.

Milanes contou que a escola optou por não seguir uma divisão tradicional em setores.
“Não fizemos uma divisão muito clássica, como muitas escolas costumam fazer. O enredo transcorre mais como uma história contínua, quase como se fosse um único setor. Ainda assim, existe uma separação conceitual entre o pandeiro como origem e o pandeiro como legado”, apontou.
O desfile abordará a origem milenar do pandeiro, quando ele ainda não possuía as conhecidas soalhas — as peças metálicas que chacoalham na circunferência do instrumento. A narrativa tem como base uma escultura descoberta em um território localizado na atual Turquia, antiga Anatólia, onde o pandeiro aparece retratado nas mãos da deusa Cibele.
“A partir dessa escultura, que a mitologia local acreditava ter caído dos céus por causa de um meteoro, começamos a entender o quanto existe de história por trás do pandeiro. Ele passa por diversas civilizações, pela Índia, por meio dos grupos ciganos, pela Europa, nas procissões e festas religiosas, e por outros povos, sempre como forma de cultura, lazer, entretenimento e expressão artística”, explicou.
No Brasil, o pandeiro se consolidou como muito mais do que um instrumento musical. Seu uso tanto na música quanto em rituais religiosos o transformou em um elemento identitário do povo brasileiro, conectando-se diretamente ao desfecho do desfile da escola.

“Quando ele chega ao Brasil, o pandeiro vai criando novas formas, lugares e personalidades. Ele chega quadrado e aqui se torna redondo, meia-lua, mantendo diferentes formatos. Vai passando pelos festejos populares, pelas tradições culturais, e se transforma ao longo da história. Vamos falar do pandeiro como aliado do samba na resistência, quando o samba era marginalizado, até encerrarmos com esse pandeiro celebrando os setenta anos da Peruche”, afirmou.
A linha musical que costurará o desfile será inspirada em “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, canção eternizada mundialmente na voz de Carmen Miranda. A referência estará presente desde o título do enredo até o último verso do samba-enredo.
“O título do enredo é inspirado em ‘Aquarela do Brasil’, que utilizou o pandeiro como elemento musical. A música foi interpretada por Ary Barroso e também por Carmen Miranda, que a levou aos Estados Unidos. Essa obra vai atravessar o desfile tanto musical quanto visualmente”, contou.

O enredo também destacará o momento em que o pandeiro se transforma em símbolo da identidade brasileira fora do país, levado por nomes como Carmen Miranda e Jackson do Pandeiro.
Anseio pelo acesso e estética como trunfos
Pela primeira vez, a Peruche celebra uma nova década de história fora do Grupo Especial. O retorno ao Acesso I esteve próximo em 2025 e, para Felipe Milanes, o grande combustível da escola para 2026 é o desejo coletivo da comunidade.
“A comunidade está com essa gana. Sonhou muito com o carnaval de 2025, que homenageou o Seo Carlão, e acreditou que poderia subir, mas ficou a um décimo do acesso. Isso criou uma vontade engasgada. Comemorar 70 anos fora do Grupo Especial é um incentivo a mais para buscar essa ascensão”, destacou.
No campo artístico, Milanes aponta a estética como um diferencial importante.
“Acreditamos que a estética será um dos grandes trunfos. Ela será diferente do que a Peruche apresentou nos últimos anos, com referências retrô misturadas à modernidade e elementos contemporâneos. Tudo isso para celebrar esses 70 anos. O enredo, por si só, já motiva muito a comunidade, e isso tem gerado uma ansiedade positiva dentro da escola”, concluiu.

Ficha técnica
Enredo: “Oi… Esse Peruche lindo e trigueiro… Terra de samba e pandeiro. ‘70 anos’”
Número de componentes: 1.100
Alegorias: 2 carros + 1 tripé
Alas: 11
Diretor de barracão: Julião
Diretor de ateliê: Maurílio Oliveira
Ordem de desfile: Sexta escola a desfilar pelo Grupo de Acesso II









