Por Carolina Freitas e Mariana Santos
Golfinhos do Rio de Janeiro, Ainda Existem Crianças na Vila Kennedy e Petizes da Penha encantaram a Marquês de Sapucaí com samba no pé, alegria e emoção no segundo dia de desfiles das escolas mirins. Mirando o futuro, crianças e adolescentes compartilharam com o CARNAVALESCO suas inspirações, expectativas e sonhos no carnaval, em uma noite histórica: pela primeira vez, os jovens puderam ter um gostinho do prestígio de “gente grande”, ao ensaiarem no mesmo dia que as escolas do Grupo Especial. A missão gerou sentimentos mistos em cada um, mas um deles era unanime: a alegria.
O prestígio de ensaiar no dia do Grupo Especial
A oportunidade inédita de ocupar a Sapucaí antes dos ensaios técnicos das grandes escolas trouxe nervosismo, responsabilidade e, acima de tudo, alegria. Para muitos, foi o primeiro contato com um público maior e com a grandiosidade da avenida.
Golfinhos da Guanabara
Adaílton Carvalho, o famoso “mestre Da”, mestre de bateria da Golfinhos da Guanabara, destacou a importância social e cultural do projeto.

“É uma oportunidade de estar aqui hoje no dia do ensaio do Especial é muito grande. Essa mudança agora é para ver o que vai acontecer. Graças a Deus, o Papai do Céu já abençoou com essa chuva. A nossa juventude, nossa garotada, está na faixa etária de menos de 16 anos, e a gente veio mostrar para a sociedade que criança tem que participar. A nossa maior preocupação é que eles não errem, mas, se errarem, faz parte do trabalho. O mais importante é trazer essas crianças e mostrar que ainda existe infância, que ainda existe criança. Essas são as nossas realizações. Se é deles, deixa eles curtirem. Acho que essa é a melhor coisa da vida. É aproveitar para que essa parte cultural nossa não acabe. O horário e a possibilidade de eles estarem fazendo tudo isso é muito importante. Meu grupo está desfilando pela primeira vez aqui na Marquês de Sapucaí, e eu sou muito grato por isso. Tenho a maior satisfação em trazer eles todos os anos, sempre renovando, já na quarta, quinta geração, e isso é um prazer muito grande. O que eu espero do desfile é que tudo dê certo, que seja um desfile feliz, porque isso é trabalho, é deles, é nosso”.
No carro de som, os intérpretes mirins também ressaltaram a emoção que estavam sentindo. Sophia Russo, intérprete oficial da Golfinhos da Guanabara, deu seu relato pessoal.
“Estamos aqui, em mais um ano, com um peso maior por sermos a primeira escola do domingo, antes do ensaio técnico, mas estamos muito felizes com a oportunidade. Tem muita gente aqui para nos ver, muitos olhos atentos, o que ajuda a levar a escola ainda mais para frente. É só agradecer”.
Seu parceiro de canto, Gabriel Reis, também intérprete oficial da escola, complementou: “Como a Sophia falou, é uma felicidade imensa ter essa oportunidade de vir aqui na Sapucaí, com a casa cheia, e cantar antes das escolas do Grupo Especial. É uma oportunidade que a Valéria, nossa presidente, está nos dando. É uma alegria imensa”.
Petizes da Penha
Na Petizes da Penha, o nervosismo se misturava à felicidade. O primeiro mestre-sala da escola, Henry Soares, falou sobre a emoção de pisar na avenida.

“Estou me sentindo um pouco nervoso, mas estou me sentindo muito feliz de passar nessa avenida linda, só com gente de bem, gente maravilhosa que vai acompanhar a minha escola esse ano”.
O jovem e estreante intérprete Davy Pietro, de apenas 9 anos, viveu sua estreia com emoção.

“Estamos ansiosos e também nervosos para ver a nossa escola ganhar o título. E também queria dizer que estou muito feliz que vamos fazer homenagem ao nosso cachorrinho Orelha, que foi agredido por alguns adolescentes”.
Ao seu lado, os também estreantes cantores Bernardo Moura, de 10 anos, e Daniel Thierry, de 13, compartilharam suas expectativas.
“Estou bastante animado. Vou entregar muito e vou dar o meu melhor. Gosto bastante da Mangueira, e também canto no Salgueiro”, disse alegre Bernardo Moura.
“Estou ansioso. Vou brincar muito na avenida, vou animar o povo, porque tem que animar. Vai ficar todo mundo feliz. Eu torço para uma escola, só que ela não vai se apresentar hoje. É a Acadêmicos de Niterói. Eu amo o samba do Lula”, compartilhou muito empolgado Daniel Thierry.
Na bateria, o jovem mestre Marques Pacheco, de 16 anos, vive seu primeiro ano no comando, e dividiu conosco como está sendo a experiência.

“Para mim, ensaiar no dia do Especial é legal, porque dá mais visibilidade. O desfile mirim costumava ficar muito vazio. Hoje está cheio. Assim, dá mais atenção para as crianças. Confesso que estou pouco nervoso, mas vamos seguindo aí. Como mestre, é meu primeiro ano, apesar de já ter desfilado como ritmosta em várias baterias grandes do Grupo Especial. Por isso, também estou muito feliz. A Petizes me deu a oportunidade de ser mestre de bateria”.
Entre os ritmistas, Antônio Pedro, de 18 anos, chocalheiro, exaltou o trabalho do mestre.

“Eu acho bacana o trabalho do mestre Marques. É incrível o que ele faz com as crianças, dá oportunidade para as pessoas aprenderem a tocar e se sobressaírem. Eu entrei na bateria há pouco tempo, mas desde que cheguei achei o trabalho incrível. A experiência no geral está sendo muito legal, ainda mais por ser a primeira vez. Estrear logo no dia em que tem ensaio das escolas é uma energia superincrível, não tem sensação melhor do que viver essa emoção. Estou ansioso para hoje. No futuro, me vejo em uma escola do Grupo Especial, tocando em algumas que eu gosto”.
Iago Souza Machado, de 19 anos, também falou sobre o momento especial.

“Estou na bateria há um ano e já desfilava antes, nessa mesma escola. Entrei com 17 para 18 anos. Acho que o mestre Pacheco, que está pela primeira vez como mestre depois de já ter passado pela diretoria, vai fazer um bom trabalho. Estou muito ansioso para o desfile, ainda mais depois do ensaio das escolas do Grupo Especial. É muito gratificante ver escolas como Beija-Flor, Imperatriz e tantas outras. Hoje estar aqui na Marquês de Sapucaí, no Palácio do Samba, é especial. Torço para o Paraíso do Tuiuti”.
Ainda Existem Crianças na Vila Kennedy
No carro de som da Ainda Existem Crianças na Vila Kennedy, o intérprete estreante Matheus Queiroga falou sobre seguir o legado familiar no samba.

“Estou um pouquinho ansioso, primeiro ano, mas confiante. É uma coisa que eu já gosto de fazer, é de família. Minhas inspirações de carnaval, eu diria meu padrinho Rodrigo Tinoco, Ito Melodia, que foi intérprete da minha escola, União da Ilha, por mais de 20 anos. Tenho o maior carinho por ele também. Meu sonho no carnaval, é ganhar um reconhecimento pelo meu trabalho. Espero estar fazendo um bom trabalho e espero ser reconhecido por isso”.
No primeiro casal da escola, Poliana Silva, de 17 anos, e Júnior Silva, de 15 anos, falaram sobre a emoção que estavam sentindo.

“É uma sensação muito boa, porque a gente vai desfilar e também vai poder ver outras escolas, outros casais de mestre-sala e porta-bandeira para buscar inspiração e sentir ainda mais emoção. Veremos mais referências, mais inspirações, mais truques de dança”, dividiu a porta-bandeira.
“Eu me sinto bem e feliz, porque muita gente queria estar no nosso lugar hoje, como primeiro casal. Isso dá emoção, dá felicidade, traz alegria e também futuro para nós. Não só para nós, mas para todos”, contou feliz o mestre-sala.
Inspirações que vêm da avenida
As referências de cada um deles no mundo do carnaval revelam o quanto o mundo do carnaval mirim acompanha e se inspira no mundo do carnaval em geral, revelando como as gerações futuras estão bem entrosadas com o legado desse universo.
“A minha maior referência é o meu mestre Nivaldo, o mestre Rico da Fina Batucada, e todos aqueles que fazem essa diversidade virar alegria para todos. Todos os mestres estão de parabéns, consagrados junto com seus diretores. Um salve para todos eles”, mandou Mestre Da, da Golfinhos da Guanabara: “A minha referência é o falecido Gilsinho da Portela, que infelizmente não está mais aqui. E também o meu irmão, que é intérprete oficial da Escola Mirim da Portela e que sempre me incentiva a vir aqui e fazer essa história na Sapucaí acontecer”, revelou o cantor Gabriel Reis, mostrando que se inspira nos seus antecessores.
Quem seguiu a mesma linha foi o Daniel Thierry, cantor da Petizes da Penha, que mesmo muito jovem, com apenas 13 anos, também provou que está por dentro do mundo do samba ao revelar seu ídolo no cargo: “Minha maior inspiração é o Zé Paulo Sierra”.
Luísa, primeira porta-bandeira da Golfinhos do Rio de Janeiro, citou o casal ‘Furacão’ da Mangueira: “É uma alegria muito grande todo ano estar aqui. Tenho duas inspirações, primeiro que é Matheus e Cintya da Mangueira, o segundo que é o Renan e a Débora, e um dia quero ser primeira porta-bandeira da Mangueira”.
Henry Soares, da Petizes, também revelou suas referências: “Minhas inspirações no carnaval são Daniel Werneck da Grande Rio e Matheus Oliverio da Mangueira. São os melhores para mim. Meu sonho para o futuro do carnaval é, se Deus quiser, ser o primeiro um dia de alguma escola especial. Eu gostaria muito de ser da Portela ou da Grande Rio. As escolas que eu mais amo”.
Sua parceira de dança, Kemelly Vitória, primeira porta-bandeira da Petizes da Penha, também opinou: “Minha inspiração é a Tatiana, que eu sou apaixonada nela. Eu sou Grande Rio, então ela sempre foi uma inspiração desde pequenininha. Meu sonho, no futuro, é vir desfilando em escolas maiores, vir pra Sapucaí disputando notas. E quem sabe, um dia, na Grande Rio”.
Poliana Silva relembrou sua trajetória inspirada na lendária porta-bandeira da Beija-Flor: “Eu via muito a Selminha Sorriso desfilando. Meu sonho era ser que nem ela. Eu comecei entrando na Portela, e lá comecei a ter ensaios para o cargo. Foi aí que eu conheci o Júlio. Depois tive a oportunidade de ser a segunda porta-bandeira da Vila Kennedy Mirim. Passou um tempo e eu conquistei o posto de primeira porta-bandeira. Eu agradeço muito à Tia Turquinha por estar aqui e ao Tio Bruno também, por ter me ajudado”.
Seu parceiro Júnior Silva completou: “Admiro muito um mestre-sala lá de Acari. Eu fui ao primeiro encontro e vi ele sambando. Gostei e perguntei o que era aquilo. Aí me explicaram que era mestre-sala e porta-bandeira. Foi daí que eu comecei. Depois conheci o Gallo e a Tia Estelita, que também admiro muito. Entrei para o projeto da Portela e estou lá até hoje. Já faz quatro anos”.
Mestre Marques Pacheco, mestre de bateria da Petizes da Penha, não esqueceu de exaltar quem não recebe tanto holofote como merecia: “Tem uns caras que não são muito famosos, mas para mim são os mais brabos que tem, que são o Darlan, o Celso, e dos famosos o mestre Marcão, da Tuiuti. E também tem o Ciça, entre outros”.
E na bateria da escola mirim da Vila Kennedy, o grande homenageado do carnaval, Mestre Ciça é inspiração para o jovem Mestre Enzo: “Minha inspiração é o mestre Ciça. mestre Fafá. Os dois são minha inspiração desde a infância. Meu sonho é me tornar um mestre de bateria de uma escola no Grupo Especial”, contou.
E enquanto Enzo se inspira em grandes mestres, ele também já serve de inspiração para outras pessoas. O jovem Yuan, de 14 anos, falou sobre a experiência de tocar na bateria e fez elogios ao jovem condutor.
“Toco bateria há sete anos, nessa escola mesmo. Hoje estou um pouquinho nervoso, mas estou indo. A bateria está muito boa. Trabalho muito com o mestre Enzo, ele já está há bastante tempo aqui com a gente e ele é muito bom. Eu sempre fui da bateria, nunca passei por outra ala. Antes eu tocava caixa, agora fui para o surdo. O que eu mais gosto nos ensaios é a bateria. Nossa ala também está com a roupa muito bonita”.
Olhando para o futuro
Sonhar é uma das coisas que mais fazem parte de ser jovem. Planejar o futuro e construí-lo desde os primeiros anos da vida é o que dá o gás para continuar. A prova disso é o relato de Mestre Da, que se emocionou ao falar sobre transformação de vida que teve graças a sua escola mirim, reforçando o poder de mudança e impacto social que essas instituições têm na vida dos jovens.
“Na verdade, foi o Golfinho que me resgatou, que me socializou. Eu mandava em gangue de rua, vivia na marginalidade. Em 1998, mesmo trabalhando, eu ainda tinha um lado ocioso da vida. Minha expectativa de vida era chegar até os 24 anos e hoje eu tenho 57. Sou grato até hoje. Desde 1998 venho me dedicando a esse trabalho social e cultural”.
Júnior Silva, da Vila Kennedy resumiu seu futuro em poucas palavras, mas muito determinado: “Me vejo como um grande mestre-sala. É isso”.
Poliana Silva, porta-bandeira da Vila Kennedy, vislumbrou um futuro onde é referência para gerações mais novas.
“Eu vou lembrar que, assim como eu, outras crianças vão ter a mesma oportunidade que eu tive. E eu vou estar lá na frente, vendo outras crianças tendo essa chance, evoluindo como eu evoluí”.
Sophia e Gabriel, da Golfinhos da Guanabara, sonham alto: “Esperamos um futuro muito bom, que só coisas boas aconteçam e que, futuramente, estejamos em uma escola do Grupo Especial”.
Daniel Thierry, cantor da Petizes, também não sonha baixo: “Eu me vejo cantando em uma escola do Grupo Especial, animando o povo, e com o povo sendo muito grato por mim”.
E o mestre Marques Pacheco, da Petizes, finalizou com seu maior desejo: “Me vejo como um grande mestre de bateria, no Grupo Especial. Ter um futuro próspero”.









