Por Guibsom Romão, Matheus Morais, Luiz Gustavo e Marcos Marinho

Com uma comissão de frente primorosa, um casal de mestre-sala e porta-bandeira de excelência e um canto estonteante, a Mangueira deixou a Sapucaí encantada com a magia da Estação Primeira do Amapá. A Verde e Rosa, a terceira escola a ensaiar na primeira noite de ensaios técnicos do Grupo Especial, fecha o domingo de carnaval, 17 de fevereiro, com o enredo “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”, desenvolvido pelo carnavalesco Sidney França.

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Fotos: Guibsom Romão/CARNAVALESCO

O enredo homenageia Raimundo dos Santos Souza, o Mestre Sacaca, que foi um curandeiro conhecido como um “doutor da mata”, pois transformou o saber empírico sobre ervas e raízes em uma ponte entre a ancestralidade e a ciência. Além da homenagem ao Mestre, o enredo enaltece as tradições afro-indígenas do Norte do Brasil, em específico o Amapá, a Amazônia Negra, onde o Mestre Sacaca viveu e fincou sua raiz.

O Amapá esteve evidente em todo o cortejo verde e rosa na Sapucaí, mas sobressaiu na bateria, na qual 15 caixeiros(as) de marabaixo, vindos diretamente do Amapá, inclusive, uma neta do mestre Sacaca, executaram uma bossa com o instrumento do estado nortista em evidência.

COMISSÃO DE FRENTE

Sob a coordenação dos coreógrafos Karina Dias e Lucas Maciel, os 15 componentes, dos quais 14 estavam vestidos de rosa da cabeça aos pés e um pivô representava um preto-velho, transmitiram, por meio de seus figurinos, a natureza mística, orgânica e encantada do enredo. A coreografia se baseou inteiramente no chão, como uma raiz que brota do solo e se fortifica: das folhas que cresceram, fez-se um chá medicinal para beber; das flores que desabrocharam, saiu um aroma encantado, que enfeitiçou a Sapucaí de ponta a ponta, das arquibancadas às frisas.

Foi uma dança executada com muita precisão diante das três cabines de jurados; tudo deu certo. A coreografia apresentava um alto nível de sofisticação e execução. Alguns elementos cênicos, como dois tecidos que se uniam por velcro e formavam um solo com raízes neon, e que precisavam ser desgrudados no momento exato, foram manipulados com maestria nas três apresentações, assim como uma bandeira que unia as bandeiras do estado do Amapá e da Mangueira e era entregue ao preto-velho, sendo repassada corretamente para que todos pudessem vê-la do lado certo.

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Ainda sobre o momento do tecido de raízes, no qual as luzes da avenida se apagavam e uma luz neon era acesa, deixando em evidência as raízes desenhadas no tecido, alguns componentes brotavam em seu meio, levantando o público presente, assim como no momento da entrega da bandeira.

Em suma, mais uma noite de gala para o casal de coreógrafos da Verde e Rosa e seus componentes. O conjunto coreográfico, aliado aos figurinos e aos elementos cênicos, construiu uma apresentação coesa e visualmente impactante, que traduziu com clareza o misticismo e a força orgânica do enredo. A precisão na execução, o sincronismo entre luz, movimento e cenário, além das interações que despertaram reação imediata do público, evidenciaram o alto nível técnico e artístico do grupo. Com isso, a performance se consolidou como um momento marcante do ensaio, unindo estética, narrativa e emoção em uma exibição segura e encantadora.

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“A execução é sempre um desafio. Quando a gente vem para cá, é um desafio enorme, mas eles conseguiram executar tudo o que a gente vem treinando, com o fôlego e a dinâmica da coreografia. Claro que não será a mesma coreografia do desfile, mas as dinâmicas são parecidas, justamente para treinar esse fôlego e essa resistência. A cabine espelhada acho que será uma grande surpresa, tanto na forma como cada escola vai trabalhar sua apresentação quanto na maneira como cada jurado irá avaliar. Na semana que vem, como estaremos muito perto do desfile oficial, não mudaremos muito. Claro que a gente sempre pensa em alguma coisa para ser diferente, mas deve ser praticamente a mesma ideia, com a mesma energia”, comentou Karina Dias.

“O ensaio técnico serve para trabalharmos tudo o que foi ensaiado, mas a gente não pode deixar de trazer uma surpresa que as pessoas esperam. O ensaio técnico virou um novo show, então pensamos em preparar algumas coisas especiais para a galera curtir. Pegamos os detalhes do minidesfile, um pouco do que vamos trazer para o oficial, juntamos e fizemos o espetáculo de hoje. A gente já tinha a característica de trabalhar uma coreografia de forma que todo o público pudesse participar desse trabalho com a gente. Óbvio que agora há momentos que precisarão de reverência para o jurado, mas nosso trabalho já abrangia todos os lados. Foi um acerto colocar a cabine espelhada para poder contemplar, de fato, os dois lados”, citou Lucas Maciel.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Vestidos de dourado, o casal-furacão da Visconde de Niterói, Matheus Olivério e Cintya Santos, entrou com o vigor de sempre para se apresentar nas cabines de julgadores. Está evidente o quanto o casal exala felicidade, sintonia e companheirismo; isso se reflete na notável e exemplar sintonia que demonstram a cada apresentação juntos. O encantamento mútuo entre eles, em alguns momentos, assemelha-se à atração de ímãs, pois suas mãos se juntam suavemente, mas com muita precisão e magnetismo.

Com uma coreografia vigorosa, porém muito delicada, o casal foi aclamado pelas arquibancadas e frisas do começo ao fim. Matheus, que apresentou uma dança madura, leve e sagaz, deslizou pela avenida com maestria; seu desempenho foi irretocável. Cintya, que poderia dançar com os olhos vendados, transmite a sensação de segurança no que faz e muito controle de todo o seu corpo.

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A clássica bandeirada da porta-bandeira, ao se despedir dos jurados no fim da apresentação, foi arrepiante. Se há um símbolo deste ensaio que ilustra o primeiro verso do samba, “Finquei minha raiz”, é essa bandeirada.

“É importante enfatizar que são quatro coreografias, e a gente está trabalhando desde junho, com coreógrafa nova e empenho máximo. Ainda mais porque o ano passado foi um trabalho de muita luta, mas também de vitória, já que a nossa entrega de dança foi maravilhosa. A despontuação foi em cima da fantasia. Está sendo muito gratificante confirmar a parceria e afirmar, no cenário, o casal Furacão, empenhando, colocando a grife e a nomenclatura de um casal da Estação Primeira de Mangueira, com características próprias, que defende sua identidade até o final e defende o seu trabalho em qualquer lugar. Ainda mais defendendo o pavilhão da Estação Primeira de Mangueira na avenida, em busca da nota máxima, que é o mais importante para a gente, para a nossa comunidade e para essa gestão inteligente da Guanayra, que dá todo o suporte possível. Estou muito feliz com tudo o que a gente entregou hoje e vou te falar, de coração: acho que nunca falei isso, mas a gente brincou”, disse o mestre-sala.

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“Brincamos hoje pela primeira vez em quatro anos. É o meu quarto ano na Estação Primeira de Mangueira, e fiquei feliz por me sentir em casa e poder dizer que hoje eu me diverti. Hoje o casal Furacão foi furacão. Vocês viram que ainda temos pontos para acertar; sempre há algo para melhorar, a gente sempre busca a perfeição, apesar de ela não existir. Então, sempre tem um detalhe, alguma coisa para acrescentar ou tirar. Sim, há observações a fazer, e na sexta-feira que vem vocês vão ver ainda melhor”, completou a porta-bandeira.

HARMONIA E SAMBA

O departamento musical da Mangueira, com Dowglas Diniz no comando do microfone principal, merece todos os louros. O canto da comunidade foi impecável, entoado com entusiasmo, nuances e muita garra. Para quem duvidava do desempenho do samba na avenida, a comunidade deu a resposta. O canto foi exemplar; a comunidade deu o tom do samba neste ensaio.

O carro de som estava, como sempre, em estado de graça. Dowglas fez uma apresentação de altíssimo nível em sua primeira vez sozinho no microfone principal da Mangueira na Sapucaí; a Mangueira do Amanhã produziu um fruto que veio para ficar.

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O trecho “Iyá, Benedita de Oliveira” é ovacionado e continua fazendo uma boa abertura para o refrão principal, trazendo o público junto, assim como já era notado nos ensaios de rua.

No entanto, é preciso atenção ao canto da escola como um todo, pois no paradão há uma quebra de expectativa quanto ao volume do canto.

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“Analisando a nossa passagem, o carro de som, juntamente com a bateria, conseguiu colocar em prática tudo aquilo que a gente vem ensaiando. Estou muito feliz com o resultado de hoje e acredito que, na sexta-feira, a gente tem que manter esse padrão para chegar ao dia do desfile como passamos aqui, cantando o samba e envolvendo todos que estavam na Marquês de Sapucaí. No som, está rolando um delayzinho no retorno, mas já estamos conversando com a equipe. Tenho certeza de que, até o dia do desfile, a gente conseguirá acertar isso e vai dar tudo certo. Mas, comparando ao som de antes, o som de hoje é, sem palavras, excelente”, assegurou o intérprete Dowglas Diniz.

EVOLUÇÃO

A Mangueira deu uma aula de evolução, pois nem estagnou nem correu. Sua experiência foi posta à mesa, e a escola soube administrar o tempo e a avenida. Com alas espaçadas, fluidas e com muitos componentes dançando, a Verde e Rosa transformou o percurso em um verdadeiro desfile técnico, demonstrando maturidade e consciência coletiva. Foi um ensaio com muitas nuances. Não houve buracos nem atropelos: cada setor parecia compreender exatamente o seu papel dentro do conjunto, permitindo que o espetáculo se mantivesse vivo do início ao fim. A cadência constante favoreceu o canto forte da comunidade. Foi uma evolução segura, mas sem acomodação, um equilíbrio que evidencia entrosamento e preparo, mostrando que a escola não apenas ensaia, mas constrói, passo a passo, uma performance pensada para brilhar na avenida.

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“Já estamos batendo papo aqui. Foi um ensaio bom, com bom canto e boa evolução; é o que a gente vem aprendendo na Visconde. Aqui a gente sente alguma diferença: já fizemos um tempo maior de avenida, mas não tem carro alegórico. Então, aquela inércia do carro, para sair aqui, é o empurrador que empurra a placa, e a gente estava dosando isso. Fizemos o tempo bem encostado na mão, para brincar mesmo, vamos usar o tempo inteiro e já estamos conversando sobre isso. Há correções a fazer. Na segunda-feira, vamos ter uma reunião no barracão, um bate-papo com a liderança. Tenho certeza de que a gente já está chegando ao topo da montanha para o próximo ensaio e, depois, para o grande desfile do carnaval”, explidou Dudu Azevedo, diretor de carnaval.

OUTROS DESTAQUES

A ala das crianças é o resumo de tudo o que há de mais belo no cortejo da escola; elas performam nas bossas e imitam passos das rainhas e musas.

A rainha de bateria Evelyn Bastos é sempre um destaque quando a Mangueira está na avenida. Vestida de indígena, com penas verde e rosa e pintura corporal, Evelyn sambou como sempre e encantou o público, que a ovacionou.

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“Estou extremamente feliz com o que foi apresentado hoje. A galera absorveu muito bem tudo o que ensaiamos, o nervosismo natural do primeiro ensaio foi controlado e o resultado até superou a nossa expectativa. O som atendeu bem na nossa passagem, deu base para a bateria executar tudo como foi pensado. Com ajustes normais para o próximo ensaio, a tendência é vir ainda melhor, se continuar assim, vamos buscar os 40 pontos”, garantiu mstre Rodrigo Explosão.

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“A avaliação é super positiva. Já no primeiro box deu para sentir a energia: a escola evoluiu bastante e, principalmente, cantou. A bateria foi perfeita hoje; claro que sempre há detalhes para lapidar, como andamento e alguma bossa, mas tudo funcionou. Tivemos pequenos ajustes de retorno no início e um leve delay na avenida, nada que atrapalhasse. No geral, foi um ensaio muito positivo da Mangueira”, afirmou mestre Taranta Neto.