Desde quando os Gaviões da Fiel anunciaram “Vozes Ancestrais Para Um Novo Amanhã” como enredo para 2026, uma dúvida que por vezes aparece em desfiles da “Torcida Que Samba” por conta de uma tradição da escola voltou à tona: como fazer um desfile com temática indígena sem utilizar a cor verde em nada? Para responder a tal questão, a reportagem do CARNAVALESCO conversou com Julio Poloni e Rayner Pereira, carnavalescos dos Gaviões da Fiel, na Festa dos Protótipos dos Gaviões da Fiel para 2026.

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Foto: Will Ferreira/CARNAVALESCO

Contextualizando

A escola de samba Gaviões da Fiel nasceu ligada à torcida organizada do Corinthians de mesmo nome. Ao contrário de outras agremiações carnavalescas ligadas aos adeptos de um clube na cidade de São Paulo, entretanto, a diretoria que cuida do Carnaval e das atividades mais próximas do futebol é a mesma.

O maior rival do Corinthians é o Palmeiras, e a rivalidade é levada muito em conta nos Gaviões. Existem diversas placas que informam que é terminantemente proibido o uso de verde (cor do arquirrival) nas dependências da quadra da instituição, no Bom Retiro, Centro de São Paulo. No banheiro, placas alertam para que todos mantenham a boa higiene do local, já que ninguém no local é porco – um dos mascotes do clube da Barra Funda.

Apesar de tais mensagens, é importante destacar que a relação entre as diretorias de Gaviões da Fiel e Mancha Verde (escola de samba que surgiu por meio de uma torcida organizada do Palmeiras) em todos os eventos carnavalescos é bastante amistosa, assim como são as relações entre todas as escolas de samba ditas desportivas – ou seja, que surgiram de uma torcida organizada que acompanha um clube de futebol.

Enredo com múltiplos caminhos

Rayner destaca que, mesmo com uma temática originária, uma cor não limita o trabalho: “A primeira coisa que me vem à cabeça é o porquê que tem que ter essa cor. A gente está dentro de um Carnaval em que a gente tem inúmeras possibilidades e formas de trabalhar o nosso modelo de enredo. Isso é o de menos dentro do que a gente vem buscando. Claro, a gente sabe que é uma cor característica do enredo que a gente vem falando, mas a gente está dentro do Carnaval, a gente está dentro de um concurso, de um prêmio que a gente quer levar. Por que não arriscar com alguma outra cor, com algum outro modelo de efeito que a gente pode usar?”, indaga.

O próprio carnavalesco, aliás, promete que ninguém sentirá falta de nada: “Por sinal, fica a dica: a gente está usando muito efeito. Vocês não vão sentir a menor falta de determinada cor – e acredito que vai ficar ainda muito melhor”, garantiu.

Fio condutor misterioso

Julio destacou que tais desafios motivam a dupla de carnavalescos dos Gaviões: “A gente gosta de propor o diferente até nessas soluções criativas para não utilizar essa cor específica. Na verdade, esses desafios fazem parte do nosso dia a dia – e a gente gosta disso. Nesse ano, propriamente, a gente, obviamente, não vai usar a cor – mas a gente tem uma justificativa dentro da narrativa do enredo para não utilizá-la. A gente não vai abrir por enquanto porque a gente teria que explanar alguma das cores que a gente vai utilizar por aí e nós queremos fazer surpresa, mas a gente falou aqui na apresentação de hoje sobre o ‘tempo do sonho’. A floresta que a gente retrata é uma floresta que a gente visualiza a partir do transe de Yakoana. Isso significa que é uma visão a partir do transe, a partir do sonho”, comentou.

Citada no enredo e também na obra vencedora da final de samba-enredo dos Gaviões da Fiel para 2026, Yakoana é o nome de uma árvore que produz uma substância alucinógena – conhecida pelo mesmo nome. Tal líquido permite que determinados guerreiros indígenas adentrem em uma nova realidade.

O próprio carnavalesco conclui: “Nada precisa ser realista e concreto como a realidade. É no Carnaval que a gente tem esse caminho de ter essa liberdade de retratar o mundo, à moda Gaviões da Fiel. Essa cor não faz falta alguma”, finalizou.