A Unidos da Tijuca vai levar Carolina Maria de Jesus para a Marquês de Sapucaí como protagonista de seu enredo. Para Edson Pereira, carnavalesco da agremiação pelo segundo ano consecutivo, essa escolha carrega consigo um gesto poético e político. “Carolina sou eu, Carolina é você, Carolina são várias que existem no Brasil”, afirma ele, em entrevista ao CARNAVALESCO, realizada na noite de lançamento do enredo.

Edson Pereira
Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

Antes de falar sobre o enredo de 2026, Edson avaliou o último Carnaval. Para ele, o saldo foi extremamente positivo, principalmente pela resposta da comunidade do Pavão. “Acho que foi superpositivo, independente do resultado, consegui atingir a comunidade, que esperava por um grande desfile. A Tijuca fez um grande desfile, não sou eu que estou dizendo isso, mas toda a comunidade. Nosso objetivo maior era o resgate da comunidade, da cultura preta dentro da escola novamente”, disse o artista. Em 2025, a escola do Borel levou para a avenida o desfile “Logun-Edé: Santo Menino que Velho Respeita”, resultando na 9ª colocação do Grupo Especial.

Sobre o enredo de 2026, Edson enfatizou o desejo de destacar personagens e trajetórias muitas vezes invisibilizadas. “Carolina sou eu, Carolina é você, Carolina são várias que existem no Brasil. Carolina do nosso povo preto, da mulher negra, da força, da resistência, da sabedoria, do conhecimento daqueles menos privilegiados. Acho que esse enredo vem para mostrar: quem tem valor não se perde”, declarou. Para Edson, a escolha por contar a história da catadora de lixo e escritora é um gesto de reparação que será feito na Marquês de Sapucaí. “Faltava essa homenagem para a Carolina em vida, mas nunca é tarde para a gente recuperar os nossos valores, a nossa identidade cultural. Carolina representa tudo isso e o Carnaval é o maior espetáculo da Terra construído com a inteligência do povo preto. Nada poderia ser melhor do que homenagear Carolina nesse espetáculo”, disse.

Durante o processo de pesquisa, Edson contou que se emocionou com alguns episódios da trajetória da escritora. “Existem muitos mitos que envolvem a Carolina, que são fatos muito pontuais, mas o que mais me deixou emocionado, vamos dizer assim, foi a forma como ela foi tratada diante da burguesia da sua época”, declarou o artista sobre a vida de Carolina Maria de Jesus, que publicou seu primeiro livro, “Quarto de Despejo”, em 1960. Apesar do tratamento que recebeu, ele destaca a dimensão alegre da homenageada.

“Independentemente de ser uma mulher que sofreu muito, ela também era muito divertida, ela também cantava, dançava, se divertia, ela gostava de carnaval — e isso vai estar muito latente dentro do nosso desfile”, projetou o carnavalesco.

Com a sinopse já divulgada, Edson também projetou a expectativa sobre os sambas concorrentes. “Quando a gente começa um novo trabalho, a gente está gestando um outro filho. É um momento de tensão, aquele friozinho na barriga, mas é gostoso porque acho que isso move a emoção do artista e nós conseguimos transmitir a emoção do que a gente está dando plasticidade e fazendo acontecer na avenida”, disse.

Desde sua chegada à escola, Edson tem sido elogiado por dirigentes e componentes. Ele credita esse reconhecimento ao entrosamento com a comunidade do Borel. “Quando o carnavalesco se integra com a música, a comunidade, o casamento é perfeito. A comunidade do Borel, da Tijuca, esperava por um grande desfile e eu consegui entregar isso para eles. Eu sou mais uma peça desse tabuleiro. E eu fico muito feliz de poder fazer parte de tudo isso”, afirmou.

Com enredo e sinopse lançados, a Unidos da Tijuca começará em breve o seu processo de disputa de sambas para 2026. A escola mira, com firmeza e sensibilidade, fazer de Carolina Maria de Jesus um desfile marcante na avenida.