sambodromo
Foto: Alexandre Macieira/Riotur

A proposta do prefeito Eduardo Paes de ampliar o Grupo Especial para 15 escolas no Carnaval 2027, com cinco desfiles por noite, incluindo como convidadas três agremiações tradicionais: União da Ilha do Governador, Estácio de Sá e Império Serrano, reacendeu um debate antigo dentro do universo do samba. Antes de qualquer análise mais crítica, é justo reconhecer a importância dessas agremiações para o carnaval carioca. Ou seja, discutir a presença dessas três escolas no Grupo Especial não é absurdo. Muito pelo contrário.

Estamos falando de três pilares da história das escolas de samba. A Estácio é berço do samba organizado e da própria estrutura que conhecemos hoje. O Império Serrano construiu uma trajetória gigantesca na Avenida, com desfiles históricos e sambas que atravessaram gerações. Já a Ilha tem um estilo único, marcado pela alegria, responsável por apresentações memoráveis no Sambódromo da Marquês de Sapucaí.

Ao mesmo tempo, a proposta inevitavelmente levanta outras perguntas. Se a ideia é ampliar o número de escolas ou convidar agremiações para o Grupo Especial, por que limitar a discussão apenas a essas três escolas? É impossível ignorar, por exemplo, a situação da Unidos de Padre Miguel, que para 99,9% das pessoas não deveria ter sido rebaixada no Carnaval 2025. A escola tem comunidade forte, estrutura e faz desfiles dignos de Grupo Especial. Outro caso que naturalmente entraria nessa conversa é o da Porto da Pedra. A escola de São Gonçalo acumula bons resultados e desfiles consistentes, mostrando competitividade. Ou seja, se o caminho for ampliar o Grupo Especial, talvez, o debate precise ser mais amplo e considerar critérios mais claros.

Além disso, haverá rebaixamento do Especial para a Ouro e acesso em 2027? Aliás, Jacarezinho e Inocentes de Belford Roxo (injustamente rebaixada em 2026) seriam resgatadas pela Liga-RJ e, com a ida de três convidadas para o Especial, o número ficaria em 13. Não seria melhor convidar a São Clemente, vice-campeã da Série Prata, para integrar o time da Série Ouro? Aproveitando que a Prefeitura do Rio disponibilizará 14 barracões na Fábrica do Samba, prevista para começar a ser entregue no meio deste ano.

Questão financeira

Outro ponto que não pode ficar de fora é a questão financeira. Hoje a subvenção da prefeitura é dividida entre as 12 escolas do Grupo Especial. Se esse número passar para 15, surge uma dúvida básica: a prefeitura aumentaria o valor total destinado ao carnaval ou simplesmente dividiria o mesmo recurso entre mais escolas? Haveria verba extra para essas agremiações convidadas?

E como ficaria o apoio do Governo do Estado? Vale lembrar que o próprio Eduardo Paes é apontado como possível candidato ao governo do Rio nas próximas eleições. Mas eleição nunca é garantia de vitória. Diante disso, surge também um questionamento inevitável: essa proposta tem apenas motivação carnavalesca ou também carrega algum componente político?

Existe ainda outro ponto sensível: a divisão da receita da venda de ingressos do Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Hoje esse dinheiro é distribuído considerando 12 escolas. Com 15, todo esse modelo teria que ser revisto.

Plenária na Liesa para mudar regulamento

Também há uma questão institucional importante. A Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro já aprovou um regulamento prevendo 12 escolas no Grupo Especial para 2027. Para mudar isso seria necessário convocar uma plenária. Embora as decisões das escolas sejam soberanas, qualquer alteração desse porte depende da adesão das próprias agremiações. Não é algo automático.

E mais: dificilmente as escolas aceitariam uma mudança sem garantias claras de que não perderiam financeiramente com a ampliação do grupo.

Barracões

A parte estrutural também entra nessa conta. A Cidade do Samba tem um número limitado de barracões. Em tese, dois espaços poderiam ser cedidos para novas escolas. Mas isso criaria outro problema: hoje algumas agremiações usam esses galpões extras para armazenar tripés ou alegorias. Caso esses espaços passem a ser barracões fixos, muitas escolas teriam que alugar galpões fora da Cidade do Samba, o que significa mais custos em uma produção que já é cara.

Talvez a pergunta mais importante seja outra: será que ampliar o número de escolas é, neste momento, a principal necessidade do Carnaval carioca?

Quais são as prioridades do carnaval?

Uma medida que poderia ajudar muito mais todas as agremiações seria a prefeitura iniciar o pagamento da subvenção já em julho ou agosto. Isso daria previsibilidade financeira e permitiria um planejamento melhor da produção do desfile — algo que, na prática, reduz custos.

Outro ponto urgente é o próprio estado do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, que há anos apresenta sinais de desgaste e precisa de reformas importantes.

É importante deixar claro: o CARNAVALESCO não é contra discutir a ampliação do Grupo Especial. O tema pode e deve ser debatido. Mas uma mudança dessa magnitude não pode vir de fora para dentro. Precisa nascer das próprias escolas de samba, que são as responsáveis por construir o espetáculo, sustentar o carnaval durante todo o ano e conhecer de perto as dificuldades do sistema.

Se houver consenso entre as agremiações, regras bem definidas e garantias financeiras, o debate pode avançar. Mas, neste momento, existem demandas mais urgentes no horizonte do carnaval carioca do que simplesmente aumentar o número de escolas na Avenida. Afinal, antes de crescer, é fundamental garantir que a base do espetáculo esteja sólida.