O Arranco do Engenho de Dentro foi a terceira agremiação a desfilar, na noite deste sábado (14), na Marquês de Sapucaí pela Série Ouro. Com o enredo ” A Gargalhada É o Xamego da Vida”, desenvolvido por Annik Salmon, a escola não apenas levou à cena a trajetória de Maria Eliza, mulher que ocupou o picadeiro em um espaço historicamente masculino, como também espelha essa narrativa na própria estrutura interna.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

Annik Salmon e a unica mulher a assinar um desfile na Sapucai em 2026
Annik Salmon é a única mulher a assinar um desfile na Sapucaí em 2026
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Da criação estética à condução musical, o Arranco apresentou mulheres em postos de comando e reafirmou que representatividade também se constrói nos bastidores. Única mulher a assinar um desfile na Sapucaí no Carnaval 2026, Annik reconhece no enredo um reflexo direto da própria trajetória.

“Me reconheço muito com a história do enredo. É uma história que quando eu descobri me tocou muito, porque hoje eu sou a única mulher como carnavalesca na Sapucaí, e a gente não vê abertura para outras mulheres ocuparem esse lugar. É uma história que me toca. E eu gosto de enredo assim, de enredo onde eu possa ter local de fala. É uma história que tem identificação com a agremiação. Acredito que a escola vem mais forte, identificada com o enredo, cantando forte”, comenta a carnavalesca.

Ela não esconde a responsabilidade e o peso de ocupar esse espaço sozinha. Annik também pontua como a presença feminina na criação estética impacta a identidade do desfile.

“Fico muito feliz que posso inspirar muitas outras e abrir caminhos para que outras venham também. A mulher em todo meio sempre é mais cobrada. Ela precisa se reafirmar sempre, mostrar sua competência, provar que ela merece estar ali. A mulher tem um olhar diferente para a arte. Ela é mais sensível, detalhista, vê os pequenos detalhes, acho que essa é a diferença”, afirma.

Ha quatro anos como interprete oficial Pamela revela que a cobranca e constante
Há quatro anos como intérprete oficial, Pâmela revela que a cobrança é constante
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Sob o comando do carro de som, Pâmela Falcão simboliza outra frente de liderança feminina. Para ela, ocupar o posto de intérprete é, também, um gesto político dentro do samba.

“Ser a titular em um carro de som é falar de resistência diariamente, é resistir para existir. Devolver, na verdade, o matriarcado para o samba. O samba nasceu na Praça Onze, na casa da Tia Ciata. Em que momento a gente se perdeu? Em que momento a mulher perdeu o seu lugar?”, questiona a intérprete.

Há quatro anos como intérprete oficial, Pâmela revela que a cobrança é constante: “A gente precisa sempre provar mais, cada vez mais”.

Mesmo diante do julgamento dobrado, ela ressalta que os 40 pontos conquistados em harmonia reforçam a potência feminina na condução da escola. Sobre a recepção do público, completa: “A potência vocal não é a mesma e nunca vai ser, mas é muito gostoso ver o acolhimento das pessoas na Avenida, parando e pedindo para tirar foto. Eu não me acostumei com isso ainda, confesso, mas é muito gostoso”.

Ledjane Motta ocupa um espaco estrategico
Ledjane Motta ocupa um espaço estratégico: a direção musical do carro de som
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Nos bastidores do som, Ledjane Motta ocupa um espaço estratégico e historicamente masculino: a direção musical do carro de som. Ela destaca o simbolismo de ser pioneira na função dentro da escola.

“O Arranco é todo amor, estou muito feliz e agradecida de estar em uma escola que acreditou na possibilidade de uma mulher cumprir esse papel nunca desempenhado por uma antes. O meu papel é garantir a energia que o carro de som vai emanar para todos os meus componentes na Avenida”, comenta.

Segundo Ledjane, para o enredo deste ano, o trabalho foi pensado para que a energia da “gargalhada e do chamego” fosse rapidamente compreendida pela Sapucaí.

“A minha ideia é fazer com que a Sapucaí entenda rapidamente que a energia é essa, que é para cantar feliz e gritar”. Ao falar sobre resistência, ela é direta: “Mulher e homem entendem de música igualmente. Acredito que, por natureza e culturalmente, a mulher tem uma sensibilidade maior. A mulher é criada para resolver tudo, afazeres domésticos, como filhos, uma escola, por exemplo. Acredito que essa seja a diferença”, avalia.

Ao unir discurso e prática, o Arranco do Engenho de Dentro transformou o desfile em afirmação coletiva. O enredo que celebra Maria Eliza ecoou na própria estrutura da escola, onde mulheres ocupam decisões estéticas e musicais. Na Avenida, a gargalhada deixou de ser apenas elemento narrativo para se tornar símbolo de resistência, pertencimento e reconhecimento.