Sendo a penúltima escola a desfilar no último dia da Série Ouro, o Tigre de São Gonçalo rugiu a favor das “mulheres da vida”. Com um excelente desempenho do carro de som, um casal correto e uma plástica modesta, a Porto da Pedra fez um bom desfile.

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

Com o enredo “Das Mais Antigas da Vida, o Doce e Amargo Beijo da Noite” do carnavalesco Mauro Quintaes, a Porto da Pedra trouxe a figura da prostituta como tema central para um debate na Sapucaí.

COMISSÃO DE FRENTE

Intitulada “Encruzilhada de Mistérios”, a comissão da coreógrafa Aline Kelly representou o elo simbólico entre o profano e o sagrado, retratando a realidade das profissionais do sexo sob a perspectiva da espiritualidade afro-brasileira.

Com quinze componentes, sendo dez mulheres e cinco homens, a coreografia teve os bailarinos vestidos com roupas curtas e coloridas, rodando bolsinha e sensualizando. Ao se posicionarem diante dos módulos de julgamento, os bailarinos utilizavam máscaras que simulavam o efeito de desfoque facial, recurso recorrente em reportagens sobre prostituição, reforçando a ideia de invisibilidade social. Mas com a entrada do tripé, elas tiravam as máscaras, e em cima da encruzilhada em forma de tripé, a religiosidade as empoderava, tiravam as máscaras, faziam macumba e rebolavam mais ainda.

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A encruzilhada no tripé era demonstrada com as placas de ruas nos dois cantos dele, escritas “Francisco Eugênio” e “Vila Mimosa”, ambos localizadas no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, pontos de prostituição famosos. Além disso, de dentro do elemento cênico, saíam três pomba-giras.

A proposta coreográfica buscou evidenciar a encruzilhada como espaço de tensão, proteção e resistência. Baseada em cinco momentos: A exposição, por isso o rosto oculto; O rito, com a subida no tripé e o contato com as entidades de umbanda; A transformação, tiram as máscaras e usam a bolsinha como arma; O empoderamento, donas de si e de tudo que as cercam.

Nos três módulos, foram ótimas apresentações. No primeiro, um bailarino escorregou e caiu, mas nos demais módulos, tudo correu sem problemas.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Com a fantasia “O Axé do Povo de Rua”, vermelha e preta, muito bem feita, Rodrigo França se apresentou caracterizado como Exu, entidade masculina cultuada na umbanda, associada à proteção das ruas e daqueles que nela viviam e trabalhavam. Joyce Santos, caracterizada como Pombagira, entidade feminina da umbanda, também ligada à guarda dos caminhos e à proteção de quem tinha a rua como espaço de morada e ofício.

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Com uma coreografia clássica e sem problemas nos três módulos, o casal saiu da avenida tranquilo.

EVOLUÇÃO

Administrando o tempo muito bem, a escola passou com calma, a bateria entrou no segundo recuo e finalizou o desfile com 54 minutos, sem precisar correr e nem ficar estagnada.

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Entretanto, faltou maior intensidade na movimentação das alas. A escola desfilou de maneira organizada, porém com pouca vibração coletiva, o que reduziu o impacto visual do conjunto e a potência dramática que o enredo sugeria.

ENREDO

A Porto da Pedra apresentou o enredo “Das Mais Antigas da Vida, o Doce e Amargo Beijo da Noite”, que abordou a trajetória de mulheres que atuaram no que popularmente se denominava “vida”, propondo uma reflexão sobre personagens historicamente marginalizadas. Com concepção do carnavalesco Mauro Quintaes e do enredista Diego Araújo, a escola desenvolveu uma narrativa que revisitou o imaginário da noite e a figura feminina como presença cultural e social no contexto brasileiro.

A construção explorou as múltiplas dimensões dessas mulheres, evidenciando tanto a sedução e a força simbólica atribuídas à noite quanto o julgamento moral imposto pela sociedade, como no primeiro setor, “Prazeres sagrados e profanos”. O desfile apresentou o “doce e o amargo” de suas vivências, ressaltando a busca por dignidade e reconhecimento para além de estigmas. A proposta destacou a complexidade dessas trajetórias, situando-as como parte integrante da história social e cultural do país, visível no segundo setor, “Personagens da Vida”.

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Ao final, com o último setor, chamado “Uma Puta Mulher”, o desfile reafirmou o histórico da agremiação na abordagem de temáticas sociais consideradas sensíveis, consolidando sua identidade como escola que utilizava a Marquês de Sapucaí como espaço de reflexão e visibilidade para narrativas frequentemente silenciadas.

HARMONIA

Com uma performance impecável do carro de som, no comando de Wantuir no microfone principal, os componentes não conseguiram cantar o samba à altura do desempenho do intérprete.

A comunidade teve um canto regular, deixando a nítida sensação de que poderia ser melhor. Muitos componentes não faziam esforço para cantar.

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FANTASIAS

As fantasias da Porto da Pedra atravessaram a avenida sem nenhuma avaria. As alas “Perdições do Bataclan” com os passistas, “Perpétua Moralidade” e “Meninas do Job” chamaram a atenção, vista a didática e referência nítida ao enredo.

SAMBA

O samba-enredo, composto por Bira, Rafael Raçudo, Oscar Bessa, Márcio Rangel, Eric Costa, Fernando Macaco (em memória), Rafael Gigante, Vinicius Ferreira, Miguelzinho, Jarrão e Pierre Porto, é um manifesto político, social e de gênero a favor das profissionais do sexo.

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As relações do enredo com a escola, escritas no samba, como nos trechos: “Fiz um Porto da Pedra que você jogou” e “Tigresa que mata um leão por dia!” chamam a atenção para a genialidade da composição.

ALEGORIAS E ADEREÇOS

Apesar de modestas, as alegorias foram produzidas corretamente, sem nenhum defeito evidente de acabamento ou concepção.

A primeira alegoria, “Cais da Labuta Meretrícia”, representou a chegada das chamadas Polacas ao Rio de Janeiro, contextualizando o fluxo migratório associado à exploração sexual no início do século XX. Foi um carro de fácil compreensão, sendo um navio com a velha guarda a bordo, com vestidos de marinheiros e polacas. Além do clássico tigre em cima do carro.

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Na segunda alegoria “Meu Ofício é o Seu Prazer”, a escola apresentou o exercício da prostituição no ambiente noturno, destacando o contraste entre visibilidade pública e invisibilidade social. Destaque para as composições do carro, com mulheres dançando pole dance e performando muito bem e em conformidade com o enredo.

A última alegoria “Uma Puta Mulher!” encerrou o desfile como celebração da vida e da resistência das profissionais do sexo, enfatizando sua luta por reconhecimento e respeito. Com Lourdes Barreto em destaque no carro e com seu nome gravado na frente da alegoria, a histórica ativista brasileira dos direitos das prostitutas, reconhecida por sua atuação política e social na luta pela cidadania, dignidade e reconhecimento profissional das trabalhadoras do sexo, foi a cereja do bolo no carro de manifestação em defesa dessas mulheres.

OUTROS DESTAQUES

Sempre icônico em suas fantasias, o mestre Pablo vestido de tigresa e com uma peruca loira, com a indumentária chamada “Tigresa Que Mata Um Leão Por Dia”.