A Imperatriz confirmou a força dos últimos carnavais e entregou mais um desfile de muita qualidade, com enredo de fácil assimilação, conjunto plástico impactante e musicalidade muito forte. O samba rendeu muito graças ao excelente trabalho de mestre Lolo e Pitty de Menezes. A comunidade cantou muito forte, assim como a Sapucaí. Com visual bem pautado na estética de Ney Matogrosso, os componentes vieram vestidos com as marcas que esse espetacular artista deixou em sua estética e em sua musicalidade.

Com boas apresentações do casal em todos os módulos, a dúvida fica por conta da comissão e da evolução justamente na cabine espelhada, pois houve pequenos deslizes nessa porção do desfile, como um desequilíbrio do pivô da comissão e um pequeno buraco à frente dos jurados. Uma pena para um desfile primoroso, mas que não tira a Imperatriz da briga pelo título. Ney Matogrosso, o homenageado, veio no último carro com pouca roupa, como gosta, e na pouca roupa o dourado e verde da Imperatriz, em sua clássica estética egípcia, que também levou para os palcos. E, óbvio, veio dançando. O artista foi aclamado pela Sapucaí.

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Com o enredo “Camaleônico”, desenvolvido pelo carnavalesco Leandro Vieira, a Imperatriz Leopoldinense foi a segunda escola a desfilar na primeira noite do Grupo Especial, com o tempo de 79 minutos.

COMISSÃO DE FRENTE

O coreógrafo Patrick Carvalho levou para a Sapucaí a comissão “CAMALEÔNICO – O MUSICAL”, assumindo o traço performático que caracterizou a figura de Ney Matogrosso no imaginário musical brasileiro como recurso poético, enquanto festejou a obra e a carreira da icônica personalidade abordada como enredo. Na indumentária dos componentes, traços do estilo de roupa de Ney, algo meio vedete, meio homem das cavernas. O elemento alegórico que serviu de plataforma para os bailarinos da comissão, em tons de prata, apresentou-se como uma estrutura que fez “do Ney do palco” e “do Ney da coxia” o material criativo daquilo que é exibido de forma artística.

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVLESCO

Diante da plateia, “proscênio” e “camarim” estavam disponíveis para a contemplação de um musical coreográfico que se revelou como uma dramaturgia dançante, em que o homenageado foi apresentado a partir da multiplicidade como marca de sua reinvenção artística e do palco como espaço para a metamorfose. Utilizando-se de recursos de ilusionismo e da iluminação do tripé, que ora aumentava, ora diminuía, o componente que representava Ney Matogrosso aparecia e desaparecia em diversos lugares do elemento alegórico. Truque muito parecido com o ilusionismo de “O Segredo”, mas utilizado de maneira diferente.

A comissão apresentou um aspecto que não veio em mais nenhum momento do desfile: o Ney se preparando para o show ainda no camarim, como que uma preparação para a musicalidade do artista que viria a ser apresentada no desfile. Excelente mote narrativo, comissão que dialogou bastante com o público, teve efeito especial forte, dança e sensualidade, marcas do homenageado. Mas, na cabine espelhada, infelizmente aconteceu um desequilíbrio quando o Ney sobe no piano.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Inseridos no setor batizado “Meio homem, meio bicho”, Phelipe Lemos e Rafaela Theodoro se apresentaram como uma criatura fantástica que mistura aspectos humanos e animais em hibridismo. Ambos estavam inseridos no universo das performances de Ney Matogrosso, cujos figurinos são interpretações artísticas de animais para a criação de um ambiente de transgressões estéticas em constante estado de transformação. O mestre-sala exibiu-se como uma espécie de fauno, e a porta-bandeira como uma criatura híbrida e fantástica. Predominantemente em azul e roxo, que viriam no primeiro carro, a dupla apresentou uma coreografia madura, segura, aproveitando-se de todo o espaço deixado após o avanço do elemento da comissão.

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Dança clássica, mas com muita intensidade do casal. Mais de uma vez na apresentação do módulo, Rafaela deu seguidamente mais de dez giros, com muita energia e correção, sempre deixando a bandeira bem desfraldada, pavilhão bem aberto. Com os giros, a saia da porta-bandeira inclusive ia de cima para baixo de forma muito bonita, tamanho o destreza que a porta-bandeira demonstrava, sempre em movimento bem regular. E Phelipe acompanhava, riscando o chão com muita velocidade e perfeição, cortejando a porta-bandeira. O ponto alto foi no “se joga na festa”, quando a dupla até deu uns “pulinhos”, apresentação de alto nível em todos os módulos. Não se observou nada fora de prumo na apresentação da dupla.

ENREDO

Leandro Vieira trouxe para a Sapucaí um desfile focado na obra de Ney Matogrosso, abordando o quanto o artista se constituiu em um corpo que abrigou muitas identidades. E também o fato de esse corpo abrigar muitas identidades e se constituir em um território muito político. A abordagem da escola focou em suas referências estéticas e visuais, os personagens que incorporou, a construção de sua persona pública associada à transgressão e à sua obra musical. O desfile foi muito fiel, inclusive à estética que o artista marcou como própria e levou para os palcos durante toda a sua carreira.

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Como não era da proposta do carnavalesco, a Imperatriz não focou na vida do artista, mas em sua obra e suas influências, principalmente na dança, estética e musicalidade. O enredo passou de forma muito didática na Sapucaí. O início trouxe a correlação de Leandro sobre como Ney teve múltiplas identidades estéticas e de obra, comparando-o a um camaleão; depois, sua musicalidade, sua atenção à latinidade, seu vestuário, seus maiores sucessos e, por fim, sua sensualidade.

O setor esteve dividido da seguinte forma: no primeiro setor, o desfile foi inaugurado a partir de uma visão permissiva e surrealista que lança mão do hibridismo de caráter animalesco adotado pelo homenageado na construção do seu imaginário. Em seguida, a escola mostrou Ney Matogrosso apresentado a partir das impressões de sua personalidade artística surgida para o grande público no início dos anos setenta. O terceiro setor mostrou as muitas figurações incorporadas pelo homenageado em seus discos, shows e escolhas musicais pós “Secos e Molhados”, através de uma personalidade que incorporou a transgressão como material poético para a construção de sua carreira artística. Depois, o desfile dedicou-se à menção de sucessos musicais de uma das mais importantes personalidades da MPB. Por fim, a Imperatriz encerrou o seu desfile com um convite para uma festa permissiva e ensolarada que faz de um bloco musical, exclusivamente associado a uma visão hedonista de mundo, o mote para o desfecho narrativo.

EVOLUÇÃO

A Imperatriz começou o seu desfile imprimindo um ritmo muito bom, até pelo andamento escolhido para o samba, pela influência do esquenta que Pitty levou para a Sapucaí e que já teve excelente resposta. Apostando na espontaneidade do componente, a Rainha de Ramos não trouxe um trabalho mais focado em alas coreografadas; ao contrário, a comunidade fazia coreografias muito mais sugestionadas pela própria letra e pelo próprio ritmo do samba. Ponto alto nas dancinhas na bossa do “Canto com alma de mulher” e no “vira, vira, vira lobisomem”.

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Apesar da espontaneidade e do bom ritmo durante a maior parte do tempo da escola na Sapucaí, o quesito é onde talvez o jurado possa encontrar algo nesse desfile da agremiação. Isso porque a terceira alegoria, “Sangue Latino”, teve um pouco mais de dificuldade para entrar, fazendo com que naquele momento do desfile se segurasse um pouco mais o andamento. E outro pequeno ponto foi uma pequena demora para o tripé “Secos e Molhados” se movimentar em frente ao segundo módulo, o módulo espelhado, fazendo com que se abrisse um pequeno buraco muito rapidamente. Únicos pontos mesmo.

HARMONIA

Comandado por Pitty de Menezes, o carro de som mais uma vez deu um show de musicalidade, potência e correção, fazendo desde os primeiros minutos do samba a Sapucaí vir com a escola e sendo muito solidário, confiante e ousado ao deixar alguns trechos do samba só com os componentes, para mostrar como havia confiança no canto da comunidade de Ramos. Diversas vezes, a Sapucaí cantou sozinha uma passada do pré-refrão “Se joga na festa”, quando Pitty jogou para a galera, e também o verso final do refrão do meio, “Pois sou homem com H”, foi de arrepiar.

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Canto constante do início ao fim, componentes gritando o samba, comunidade interagindo bastante com o público, inclusive com as frisas e arquibancadas cantando junto. Por fim, precisa ser destacado também o trabalho magistral das cordas, com destaque ainda maior na bossa do “Canto com alma de mulher”, quando a bateria faz quase um pagode com MPB e o violão de sete cordas faz uma jogada no baixo, nas notas mais graves, e o cavaquinho vai para outra métrica, nas oitavas acima — para o leigo, “bem no agudinho”. Que musicalidade do carro de som!

SAMBA-ENREDO

O samba, escolhido em meio à junção de duas obras que concorreram no concurso da Imperatriz, tinha como compositores Hélio Porto, Aldir Senna, Orlando Ambrósio, Miguel Dibo, Marcelo Vianna, Wilson Mineiro, Gabriel Coelho e Alexandre. Durante todo o pré-carnaval foi crescendo a música, que foi apontada por muitos como um samba que estava mais abaixo na safra deste ano.

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Porém, a obra parece ter chegado ao ponto neste desfile. No primeiro “Se joga na festa”, a Sapucaí cantou sozinha e depois veio junto com Pitty com toda a energia. Se o samba-enredo é de fato uma obra orgânica, talvez até camaleônica como o homenageado, ele passou muito bem na Sapucaí, cumprindo bem o seu propósito, bem relacionado com o desfile, esquentando uma Sapucaí que ainda estava na segunda escola do primeiro dia. Muita sinergia com o público. Destaque, óbvio, para o “Se joga na festa…”. E quem tem grande responsabilidade nisso foi mestre Lolo e Pitty de Menezes. Que musicalidade dão para a Imperatriz. Estão de parabéns.

FANTASIAS

O conjunto de fantasias da Imperatriz foi muito fiel à estética do homenageado, que possui marcas muito próprias no vestuário. Com uma musicalidade muito propensa a gerar o imagético, ou seja, a ser reproduzida em imagens, Leandro, que deve ter conversado muito com o homenageado, conseguiu não só reproduzir e carnavalizar essa musicalidade, como, em muitas alas, vestir a comunidade como o homenageado. E, por isso mesmo, muito do que passou pela Sapucaí era formado por figurinos leves, que mostraram, sim, o corpo do componente, como a ousada fantasia dos passistas da Imperatriz em tons brancos e um collant que imitava pele e que deixava o formato do corpo bem à mostra ou, em alguns casos, nem havia esse collant.

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Mas essa nudez, essa sensualidade, fazia parte da proposta do artista. E isso, em nenhum momento, vestiu mal a escola, pois havia um trabalho muito bom de acabamento, uso de materiais de qualidade e paleta de cores bem ornada com o desfile. Aliás, estética bem única, não parecida com nada que Leandro já levou para a Sapucaí. O início do desfile veio em tons de roxo, azul e vermelho, como nas alas “homem-bicho” e “homem-pássaro”. Depois, os tons de palha ao falar do homem das cavernas, mas logo depois o ressignificando no colorido das cores camaleônicas, azul e vermelho, com tons de rosa, finalizando o segundo setor na estética indígena, mantendo o azul, mas colocando o colorido na ala “Um corpo latino e tropical”.

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O terceiro setor apostou em um conjunto estético mais rústico ao citar a musicalidade do cantor, com sucessos e o famoso “homem de Neanderthal”, através da figura de ossos e dentes. Tons de palha seguiram nesse setor, com costeiros em penugem, com estética animal e de savana. Destaque para a ala “O bandido”, que manteve a estética das anteriores, mas trouxe o chapéu de vaqueiro, e, nesse setor, para os guardiões do segundo casal, que vinham com roupa de presidiário, mas carnavalizados. O casal também estava muito bonito.

O quarto setor retomou as cores camaleônicas e apresentou alas mais criativas, como a “Pavão misterioso”, com a cabeça e o bico do animal vindo na frente. Nesse ponto, a paleta de cores buscou o branco e, logo depois, o colorido da ala “Sangue Latino”, já trazendo a influência dos povos originários na musicalidade do canto. Mais à frente, a escola seguiu vestindo Ney e suas músicas. Destaque para a ala “Homem com H”, com o figurino de cowboy em rosa-choque.

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No último setor, a Imperatriz voltou mais para a sua paleta de cores, primeiro trazendo o dourado na ala “Pro dia nascer feliz”, que ainda fazia uma bonita homenagem a Cazuza, com o rosto do cantor no adereço de mão, e, em seguida, as baianas trazendo tons de verde-cítrico com rosa, roxo e laranja. Nesse setor, destaque para a ala “Bota pra ferver”, com figurinos diferenciados, como o indígena, o policial, o homem de Neanderthal e a cigana, personagens que Ney vestiu e encarnou antes do carro em que ele vinha. Por fim, outro ponto a se destacar foi a maquiagem de algumas alas, bem dentro do estilo que Ney Matogrosso levou para suas apresentações.

ALEGORIAS

A Imperatriz levou para a Sapucaí um conjunto alegórico constituído de cinco carros e dois tripés. Neste desfile, Leandro fez a opção por carros mais altos, o que até foge um pouco do que o artista vinha trazendo, mesmo nos dois últimos carnavais. O conjunto alegórico brincou muito com alguns signos que fizeram parte da obra do homenageado. As alegorias estavam com acabamento muito bom, usaram bem as composições e apresentaram qualidade plástica bem alta.

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O abre-alas “Camaleônico” exibiu-se como uma selva noturna e surrealista, revelando, em sua porção frontal, a figura alegórica de Ney Matogrosso como um corpo seminu junto a uma natureza selvagem de caráter fantasioso. Adornado com elementos que lhe emprestavam contorno fantástico e animalesco, o homenageado foi mostrado em harmonia com a natureza selvagem e a vida animal. Nela, houve a presença de materiais diferentes dos já utilizados por Leandro e iluminação diferenciada também, através de pequenas lâmpadas que mudavam o trecho da alegoria iluminado, tipo um pisca-pisca.

A segunda alegoria lançou luz sobre o universo de transgressões incorporadas por Ney Matogrosso durante a construção de sua identidade artística em meio ao conservadorismo e ao cerceamento de liberdades que marcaram a sociedade brasileira durante os anos de ditadura militar. Para abordar esse ambiente, escorpiões e tanques militares compuseram a cenografia da alegoria, e o vermelho e a incandescência das cores a tingiram como chamas.

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A terceira alegoria, “Sangue Latino”, fez alusão à condição dos povos originários latino-americanos diante da violenta invasão sofrida durante o período colonial, tendo o seu visual composto pelo sangue derramado, pela reprodução de signos associados à arte pré-colombiana, pela memória dos templos construídos pelos povos originários que compunham as pioneiras civilizações latinas e pela ornamentação floral de natureza tropical acrescida do imaginário das aves associadas à latinidade.

Na quarta alegoria, a escola mostrou a abordagem dos sucessos de carreira do homenageado, destacando o mais famoso clássico do repertório do artista, a canção “O Vira”. A estética tirou partido da abordagem fantasiosa que direcionou a letra da canção, com a reunião de figuras associadas ao folclore de caráter fantástico e supersticioso, recriando um arvoredo de contorno mágico que reuniu brincantes vestidos de fadas, mencionou o gato preto, a luz da lua e, de forma central e agigantada, a figura alegórica do lobisomem.

A última alegoria, “O arauto do jardim das delícias terrenas”, encerrou o desfile fazendo um convite ao prazer e à liberdade desenfreada, através de um lúdico jardim adornado por figuras humanas em estado de entrega sexual e nudez. Nela veio o homenageado à frente, dançando e interagindo com o público. Destaque também para o tripé “Não vejo pecado ao Sul do Equador”, com serpentes e a coroa da Imperatriz. Excelência no quesito.

OUTROS DESTAQUES

A rainha Iza esbanjou samba no pé, representando a serpente com o clima ardente e erotizado do LP lançado por Ney Matogrosso sob o título de “Pecado”. A bateria “Swing da Leopoldina”, de mestre Lolo, levou para a Sapucaí 250 ritmistas e vestiu a fantasia “O arquétipo do pecado”, homenageando justamente o LP do artista intitulado “Pecado”. A estética emoldurada trouxe a capa tingida pela tinta preta da noite, de bandana, brincos de argola e figurino que lança mão de uma estética erotizada.

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Na bossa do “Canto com alma de mulher”, os ritmistas, a rainha Iza e o mestre Lolo fizeram coreografia, dando uma voltinha e virando para o público. Em outro momento do samba, iam e voltavam: cada lado da bateria dava um passo para frente e o outro para trás, e voltavam de forma sincronizada.

O vice-presidente João Drumond, em seu discurso, fez questão de agradecer a cada funcionário e a cada componente da escola e lembrou do senhor Luizinho Drumond, seu avô, grande presidente da escola e também da Liesa, que faria aniversário no dia anterior ao desfile, se estivesse vivo.

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No esquenta, Pitty de Menezes mostrou que a Imperatriz não precisa colocar música de bloco: o intérprete emendou logo “Cigana Esmeralda” e “Oxalá”, trazendo a arquibancada para junto da escola.