Historicamente conhecida pelo rigor estético e técnico que lhe rendeu o apelido de “Certinha de Ramos”, a Imperatriz Leopoldinense vive, em 2026, uma transformação simbólica que ultrapassa a fantasia e alcança o corpo de seus componentes.
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No desfile em homenagem a Ney Matogrosso, a escola abraçou a liberdade estética, a fluidez do movimento e a expressão corporal como linguagem de identidade e transgressão.

Fantasias leves, vazadas e sensuais que expõem colo, braços e pernas, alteram a forma de brincar o Carnaval e permitem maior mobilidade na Avenida. O corpo deixa de ser contido e passa a ser território de expressão.
É nesse contexto que surge, entre os próprios componentes, um novo apelido: “Safadinha de Ramos”.

Jessica Rodrigues, 26 anos, historiadora e há dois anos na escola, enxerga o desfile como um marco de ruptura.
“O desfile de 2026 veio para quebrar o tabu sobre sermos tão certinhos. Agora estamos mais como ‘Aparecidinha de Ramos’, para quebrar tudo na avenida. Esse samba transformou a comunidade, trouxe componentes que se sentem representados pelo enredo e isso nos faz crescer e evoluir, buscando temas que saiam da bolha, mas que estão totalmente presentes no dia a dia da sociedade”.

Para Guilherme Figueiredo, 33 anos, professor de geografia e estreante na verde e branco, a mudança faz parte de um processo natural de reinvenção:
“Acredito que a cara da escola vai mudando com o passar dos anos e com quem passa por ela. Não existem identidades fixas. A proposta da Imperatriz é justamente reforçar essa mudança, aliando isso ao Ney Matogrosso, que é um artista mutável. Camaleônico não é só o Ney — hoje é a Imperatriz também”.


A liberdade proposta pelo enredo também é sentida fisicamente. Vanderlei Gamalho, 49 anos, bancário e há 36 anos na escola, percebeu a diferença na própria experiência de desfile.
“Esse ano fala sobre liberdade de expressão e senti que a fantasia veio mais leve, mais amostrada. Isso permite que a gente se jogue com tudo na avenida. O tema deixa explícito que todo mundo é igual, não existe ninguém diferente. Vamos viver a vida sem preconceito”, disse.
Se antes a disciplina era a marca registrada da Imperatriz, agora a escola mostra que pode ser rigorosa e ousada ao mesmo tempo. A transformação não é abandono de identidade, mas ampliação dela.
Ao homenagear Ney Matogrosso, artista que fez do corpo uma bandeira da liberdade, a Imperatriz Leopoldinense assume que tradição e transgressão podem caminhar juntas.
Na Avenida, a “Certinha” revela sua face camaleônica. E quando o samba embala fantasias fluidas e corpos livres, Ramos descobre que liberdade também é método, e acima de tudo, espetáculo.










