A Dom Bosco é uma escola de samba completamente diferente no universo carnavalesco brasileiro. Enquanto as coirmãs costumam ensaiar em quadras que emulam terreiros e exaltam temos afrodescendentes e originários, a agremiação de Itaquera é fruto de uma Obra Social salesiana – uma das tantas congregações da igreja católica apostólica romana. Engana-se, entretanto, que a origem da instituição a impede de revelar bambas. Leonardo Henrique e Mariana Vieira, primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da agremiação, são excelentes exemplos de tal prática. Com histórias distintas, ambos têm ligações bastante antigas com a escola – e o CARNAVALESCO foi ouvi-los na final do samba-enredo da Dom Bosco de 2026, que revelou a canção que embalará o desfile de “Mariama, Mãe de todas as raças, Mãe de todas as cores, Mãe de todos os cantos da terra”, assinado por Fábio Gouveia.

Dupla juventude
Ao relembrar como chegou à agremiação, Mari destacou que a história da escola de samba confunde-se com a própria vida da porta-bandeira: “A fundação oficial da nossa escola é em 2000 e eu desfilo na Dom Bosco desde os meus três anos de idade. Passei pela Ala das Crianças e, quando eu tinha seis anos de idade, em uma surpresa para a minha família, eu me apaixonei pela arte de ser porta-bandeira”, destacou.
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Ela, então, relembra a primeira grande inspiração para seguir carreira na folia: “Na época tinha a Tassiane Martins, que era a primeira porta-bandeira, eu olhei ela dançando e fiquei fascinada. falei para os meus pais, que eu queria ser porta-bandeira e eles estranharam”, destacou, relembrando outro histórico nome da instituição e a ligação da própria família com o grêmio recreativo.
Mari, por sinal, é criada na Zona Leste paulistana: “Eu nasci aqui, sou cria de Itaquera, moro bem próximo à instituição obra social Dom Bosco. Os meus primeiros passos foram lá, em projetos sociais, na igreja de Nossa Senhora Aparecida. Como a minha família já vem do carnaval, quando meu pai também veio morar em Itaquera, ele se apaixonou pela Dom Bosco de Itaquera. Lá ele se tornou mestre-sala e essa paixão passou para a família inteira. Desde que eu me entendo por gente eu faço parte da agremiação”, revelou.
Mais baluartes
Citando quem é, para muitos, o maior mestre-sala da história do carnaval paulistano, Mari complementa a história com a agremiação: “Um ano depois, tive a oportunidade de, dentro da nossa principal instituição, fazer o curso com o mestre Gabi. Ele vinha todos os domingos fazer o projeto com as crianças da comunidade. Com os meus sete anos, me tornei porta-bandeira mirim da agremiação. Comecei desfilando na avenida Jacu-Pêssego e fui passando por todos os segmentos da escola e na Vila Matilde, Autódromo de Interlagos… até chegarmos no Anhembi”, comemorou.

Gabriel de Souza Martins, o mestre Gabi, juntamente com a esposa, Venézia Almeida Martins, a Vivi, ganharam o apelido de “Casal Maravilha” e são tidos como o maior casal de mestre-sala e porta-bandeira da história do carnaval paulistano, defendendo o pavilhão do Camisa Verde e Branco entre 1991 e 2002.
Salesiano no samba
A história de Leonardo com a Dom Bosco também é antiga, mas veio de outra maneira: por meio da Obra Social. Ele mesmo explica: “Minha história e a história da agremiação como um todo é bem diferente e é gratificante. Eu, como funcionário da obra, e por não estar desde o início da Obra e nem da escola (mas por saber da história de ambas), todas as vezes que a gente se apresenta e ver os meus alunos por perto falando que nós estávamos lindos… é lindo!”, disse ele, que atualmente é educador social na Obra Social.
Ele mesmo convida o mundo do samba a conhecer ainda mais a agremiação de Itaquera: “É muito gratificante a gente poder mostrar um pouco do nosso amor através da nossa dança. A Dom Bosco é cativante demais, eu tenho certeza que, se as pessoas se propusessem a vir conhecer e sentir o clima da escola, que é bem família, com certeza muitos dogmas seriam tirados da cabeça do pessoal. O pessoal tem muito o estigma de ser ‘só’ a escola do padre, só que vai muito além disso”, pontuou.
Já no carnaval…
Ao contrário da parceira de dança, Léo, entretanto, tem muita história para contar antes de chegar à Dom Bosco. E ela começa no mesmo bairro em que a agremiação está sediada: “Sou nascido e criado na comunidade no entorno de Itaquera. Comecei no carnaval com seis anos de idade – ainda não na Dom Bosco. Eu fui mestre-sala da Leandro de Itaquera e passei por diversos setores na escala: Ala das Crianças, ala coreografada… e não era para eu ser mestre-sala! Era para eu ser Passista de Ouro na época! Com a saída do Alex Cunha na época, não tinha ninguém para ser mestre-sala da Karen Darling. Ela era a primeira porta-bandeira e ela disse que era eu”, revelou.
É importante destacar que a outra escola do bairro, a Leandro de Itaquera (história agremiação e que hoje está no Grupo Especial de Bairros da União das Escolas de Samba Paulistanas [UESP]), foi fundada por Leandro Alves Martins a pedido da filha, que queria ser porta-bandeira. A filha em questão é, justamente, Karen Darling.
O então passista, pouco a pouco, foi pegando gosto por ser mestre-sala: “Eu falei para ela que eu não queria. Eu fui jogado lá, literalmente. E, na época, eu lembro de ter aprendido na quadra da Leandro: não fiz curso, não fiz nada. Tudo que eu aprendi, eu aprendi lá com a Karen, aprendi com o Paulinho Guedes, com o Diego Mota, com o Murilo Félix. Todos eram do quadro e todos me ajudaram. Fiquei na Leandro até 2015, como terceiro mestre de sala”, relembrou.
Saída e encontro
Leonardo, por pouco tempo, ficou fora do carnaval – e, também, do país: “Em 2016, por conta da minha vida fora do carnaval (sou bailarino clássico), eu ia morar em Cuba, para estudar em uma escola de bailado – logo, não iria dançar mais”, revelou.
Não durou muito tempo: “Conheci a Dom Bosco através do meu cunhado – que é cria da Dom Bosco, mesmo. Fui num ensaio e a Tatiane Bernades, que era coordenadora do quadro, falou que a Mariana estava com um problema com o antigo mestre-sala, que não aparecia. Me perguntaram se eu não podia dançar e eu falava que podia naquele dia, mas não ficaria nesse posto – isso faltando dois meses para o carnaval. Nós tínhamos dezoito anos na época e eu fui dançando. A Tati me convidou para coordenar o quadro e, quando eu vi, estava na passarela. Lembro que, no dia do desfile, falei para a Mari ir que eu a seguia. Na época, a escola estava na UESP e eram só três cabines. Conseguimos o nosso 29,9, lembro até hoje. Foi uma nota boa, pelo que a gente ensaiava”, destacou, já dançando com a atual companheira em uma primeira oportunidade.
Após uma nova saída da agremiação itaquerense, o retorno – por ora, definitivo: “Encerrei meu ciclo na Dom Bosco à época porque eu tinha recebido convite para dançar na X-9, fiquei dois anos lá como terceiro mestre-sala. Depois fui para a Tucuruvi, fui segundo lá. E aí, em 2020, retornei para cá – ainda em 2019 e, mais uma vez, com a Mari. E estamos aí até hoje”, comentou.
Emoção diferente
Mari resume como é representar uma escola de samba na qual foi criada e também representa uma Obra Social na qual está presente, como professora de mestre-sala e porta-bandeira para crianças e adolescentes no projeto de recreação da Obra: “É muito diferente porque eu lembro de toda a trajetória que nós passamos, de tudo que foi desacreditado na Dom Bosco como agremiação, como pessoas e, até mesmo, como profissionais. Ver onde nós estamos chegando e a potência que a nossa escola se tornou é muito gratificante. É uma coisa que eu levo na minha raiz. E isso, para mim, é muito importante: representar meu pai, representar minha família, poder defender esse pavilhão, representar o nosso presidente – que é apaixonado por essa escola. É um sentimento diferente, é aquilo que realmente bate. É muito gostoso, mas a responsabilidade também se torna gigantesca”, finalizou.









