Abrindo os desfiles das escolas de samba do Grupo Especial em 2026, a Mocidade Unida da Mooca se apresentou, na última sexta-feira, no Sambódromo do Anhembi. Foi a estreia da comunidade da Zona Leste na elite da folia paulistana, e sua apresentação foi marcada pelo belo conjunto visual e a apresentação impactante da bateria. Os portões foram fechados após 65 minutos de desfile na Avenida, depois da MUM apresentar o enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin”, assinado pelo carnavalesco Renan Ribeiro.
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É inegável que a Mooca realizou uma das aberturas mais impactantes da história do Grupo Especial, e o fato de ser só seu primeiro ano eleva ainda mais essa boa impressão causada. O conjunto narrativo, que envolve samba, comissão de frente, alegorias e fantasias, cumpriu seu papel com louvor não apenas pelo aprendizado histórico, mas pelo luxo e zelo no acabamento da parte visual. Mas a parte técnica do desfile comprometeu o desempenho de alguns quesitos importantes, e os jurados podem acabar punindo o espetáculo apresentado pela MUM por conta disso.
COMISSÃO DE FRENTE
Coreografada por Sabrina Cassimiro, a comissão de frente da Mooca apresentou “A Criação do Mundo”. A proposta foi representar o surgimento do universo segundo a tradição iorubá, destacando o papel primordial das energias femininas. A dança referenciou os estados iniciais da criação, transitando entre o caos primordial e a formação de uma ordem vital. Os figurinos remeteram às substâncias elementares e enfatizaram a presença do princípio feminino como agente de dinamização. Um grande tripé atuou como “símbolo criacional”, representado por uma mão gigante erguida sob o mundo em formação.

O que mais chamou atenção na apresentação foi a estética. As fantasias estavam irretocáveis, e a alegoria do quesito era rica em detalhes e com apostas interessantes, como as placas contendo água corrente dentro. A coreografia também causou uma boa impressão, ocorrendo não apenas dentro da proposta do samba, mas também acompanhando seu ritmo. Uma excelente abertura de desfile da estreante do Grupo Especial.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O primeiro casal da Mooca, formado por Jefferson Gomes e Karina Zamparolli, desfilou com fantasias que representaram “Gèlèdé: O Sagrado Secreto do Existir”. É preciso ressaltar que houve uma mudança na posição da cabine de julgamento em relação aos desfiles do Grupo de Acesso II, e a formação da escola na Avenida, dentro da proposta de desfile, impactou a apresentação da dupla.

Tudo ocorreu dentro dos conformes nos módulos um e três, onde a coreografia foi bem executada e chamou atenção pelo fato de ocorrer dentro do ritmo do samba. Mas durante a apresentação do casal diante do módulo dois, foi o momento em que a escola parou para executar um “pagode” junto à bateria, durante uma passagem inteira do samba. O casal precisou se apresentar ininterruptamente diante do jurado, aumentando o tempo de avaliação na área central da Avenida. No decorrer do desfile, a escola se viu obrigada a acelerar o andamento para fechar os portões no tempo regulamentar, o que também comprometeu a apresentação diante do módulo quatro, que também será um ponto de atenção para a escola no dia da apuração.
HARMONIA
A comunidade da MUM pisou na Avenida para realizar o sonho de desfilar no Grupo Especial, e o que se viu foram componentes empolgados pela estreia na parte inicial do desfile, enquanto o andamento inicial estava tranquilo. Conforme a escola precisou acelerar, o vigor do canto sofreu uma queda, mas não causou um impedimento de canto, permitindo à Mooca respeitar as obrigatoriedades do quesito de forma satisfatória.
ENREDO
“Gèlèdés – Agbara Obinrin” é um enredo que se inspira no trabalho social do Instituto Geledés, organização que atua em defesa das mulheres e pessoas negras, para exaltar a importância da figura feminina. A narrativa começa na criação do universo segundo a crença iorubá, passa pelos relatos históricos de luta das mulheres negras ao longo dos séculos e chega à atualidade, representada nas ações promovidas pela ONG. A ideia de partir de uma causa séria para narrar uma crença religiosa que manteve viva a chama da esperança de povos escravizados e, em seguida, retratar a realidade contemporânea é criativa e marcada por grande sensibilidade.

Na Avenida, o enredo foi bem apresentado na combinação do samba e o conjunto visual. Era possível ler com clareza os elementos narrativos durante a travessia da MUM, que teve no quesito um de seus principais destaques.
EVOLUÇÃO
O quesito foi o calcanhar de Aquiles da Mooca no desfile. A começar pelo fato de a escola ter de fato iniciado sua apresentação com o cronômetro marcando cerca de três minutos. Conforme foi passando pela Avenida, foi-se percebendo um início mais lento que o esperado, ainda mais para uma escola que nos ensaios mostrou ter um grande contingente. Mesmo diante desse detalhe, a MUM ainda parou na pista por cerca de uma passagem inteira do samba para se apresentar para o público da Monumental. A Mooca demorou para ultrapassar a marca central da pista, com o carro Abre-alas ultrapassando essa marca na faixa dos 30 minutos. O andamento precisou acelerar, causando dificuldades para os componentes brincarem o carnaval. O fechamento dos portões com 1 hora, 5 minutos e 40 segundos evidencia que a estratégia adotada não foi das melhores.
SAMBA-ENREDO
O samba da MUM para o Carnaval de 2026 é assinado por Lucas Donato, Gui Cruz, Aquiles da Vila, Fabiano Sorriso, Marcos Vinicius, Vitor Gabriel, Biel, Mateus Pranto e Willian Tadeu. Na Avenida, o carro de som da Mooca foi liderado pelos intérpretes Sté Oliveira, Emerson Dias e Gui Cruz. É um samba que segue o método mais clássico de construção, por ter sido composto a partir da ideia do enredo, e não de uma sinopse já desenvolvida, que surgiu apenas posteriormente no processo criativo.

A aposta permitiu à obra ganhar vida a cada verso escrito, aproveitando a expertise de um grupo de compositores veteranos e consagrados para se manter dentro de uma estrutura contemporânea. Os momentos retratados no samba se comunicam com cada parte do visual apresentado por um apego raramente visto na atualidade, e formaram na Avenida um conjunto não apenas narrativo e histórico, mas dançante, provocante, incitando o público a cantar e desfilar junto com a escola.
O principal destaque do quesito talvez não tenha vindo de dentro da Avenida, mas sim das arquibancadas. A arrancada do samba foi com um apagão, e o que se viu foi o público cantando com muita força, evidenciando a popularidade da obra. Dentro da pista, a letra corresponde claramente com o conjunto visual, e o desempenho do carro de som foi empolgante, em especial na combinação com a bateria da escola.
FANTASIAS
Através de suas alas, o conjunto de fantasias da Mooca se propôs a mostrar com profundidade cada elemento da narrativa do enredo. Da Ala 1 à 4, foram retratados os personagens da crença iorubá desde a criação até o momento em que cruzam o mar na época da diáspora. Chama a atenção que, mesmo retratando esse momento sofrido, as fantasias transmitem uma mensagem serena, como se fosse parte de um ciclo onde a cultura iorubá se expande para novas terras. Da Ala 5 à 10, nota-se uma mistura de elementos, já narrando personagens de destaque e culturas desenvolvidas em terras brasileiras. As demais oito alas fixas retratam a luta ao longo dos anos, com destaque para projetos do Instituto Gèlèdés.

O acabamento das fantasias é digno de aplausos. Os materiais utilizados foram incomuns, e eram tão belos que tornaram a Passarela do Samba um desfile de alta costura. O capricho estava explícito, e o melhor é que a leitura das vestimentas foi fácil e os desfilantes conseguiam brincar o carnaval sem dificuldades. O quesito foi um dos principais destaques da apresentação da Mocidade Unida da Mooca.
ALEGORIAS
A MUM apresentou na Avenida um conjunto formado por quatro carros alegóricos. São eles: O Abre-alas, “Agbara Obinrin assentando o poder feminino ancestral”, que representou a força vital, espiritual, política e civilizatória que emana das mulheres negras e organiza a vida no universo iorubano e afro-diaspórico. O Carro 2, “Atlânticas – O caminho de volta se dá pelo mar”, que retratou o deslocamento e a permanência das forças femininas negras no território afro-atlântico. O Carro 3, “Trincheiras brasileiras – Mulheres negras e revoluções”, evidenciou a atuação das mulheres negras como agentes centrais das transformações sociopolíticas no Brasil. Por fim, o Carro 4, “Gèlèdés na rua: ouçam nossas vozes!”, foi a grande exaltação ao Instituto Gèlèdés como força política ativa no espaço público.

Cada alegoria procurou se encaixar no conjunto de fantasias de modo a transicionar os momentos narrativos e obteve êxito ao preparar o público para cada ato do desfile da escola.
O capricho estético visto nas fantasias foi o mesmo das alegorias. Ricas em detalhes, e com soluções inteligentes de materiais, os carros conseguiram reproduzir o proposto pelo enredo com clareza e beleza. A única observação vai para bandeiras com fotos de personalidades do Carro 4, onde percebeu-se que algumas delas passaram um pouco enroladas. Tirando este detalhe, mais um quesito muito bem apresentado pela Mooca
OUTROS DESTAQUES
E que destaque! A bateria “Chapa Quente”, do premiado mestre Dennys Silva, fez o que quis com o samba da Mocidade Unida da Mooca. Uma fartura de bossas foi apresentada, graças às possibilidades que a obra permite. Apagões foram executados e respondidos não apenas pelos desfilantes em pista, mas também pelo público das arquibancadas. Durante a passagem pela Monumental, os ritmistas fizeram uma espécie de “pagode” que empolgou os espectadores.

E o que falar da Rainha Valeska Reis, que não apenas conquista os olhos com muito samba no pé, mas contribuiu para o fechamento adequado do espaço deixado pelo seu quesito durante o recuo. Uma apresentação digna de ser um dos principais destaques do desfile de estreia da MUM no Grupo Especial de São Paulo.










