A União do Parque Acari trouxe para a Sapucaí um enredo cultural, importante e com forte valorização da cultura afro-brasileira, algo bastante característico na carreira do carnavalesco Guilherme Estevão. Com alegorias e fantasias de muito bom gosto, coloridas e com materiais de qualidade, o artista defendeu bem a história e o legado do grupo de teatro Brasiliana, mostrando a prometida evolução da escola, que no carnaval passado já contou com o talento do artista. Com destaque também para a comissão, que, de forma simples, mas com qualidade estética e performática, sintetizou bem o enredo, e o primeiro casal, que pisou com firmeza na Sapucaí, com coreografia mais clássica, mas com um bailado eficiente. Nos quesitos de chão, porém, a escola ficou abaixo, devendo no canto e na evolução, um pouco morna, faltando mais energia e espontaneidade.

Com o enredo “Brasiliana”, desenvolvido pelo carnavalesco Guilherme Estevão, a União do Parque Acari foi a terceira escola a passar pela Sapucaí na primeira noite de desfiles da Série Ouro, com o tempo de 54 minutos.
COMISSÃO DE FRENTE
Fábio Batista fez sua estreia na Parque Acari trazendo 15 componentes vestidos com o figurino “Templo ao Corpo Negro”, representando um itã do ritual da criação do mundo. A comissão relacionou a ancestralidade com os personagens do show tipicamente brasileiro. No início da coreografia, os componentes apresentaram a dança da criação, com o dom do ser humano de se mover de forma rítmica e expressiva. Esta dança foi representada como elemento de ligação entre o homem e sua ancestralidade.

Em seguida, houve a transformação dos componentes em figuras importantes da cultura brasileira, como as cabrochas, a mulata e os malandros ancestrais. Depois, a capoeira também foi representada, com o clímax na aparição de Exu e, no final, com Olofin condecorando o show com sua presença e o globo terrestre em suas mãos, simbolizando os caminhos abertos para o espetáculo. A escola utilizou o tripé de forma competente para esconder os personagens e para que houvesse a troca de roupa, que no geral foi bem simples.
A indumentária e o tripé, mesmo sem apresentar grande luxo, eram de muito bom gosto e estavam bem terminados. O tripé também tinha um efeito de jogar papel picado, que depois acabava ficando para a dança do casal. Apresentação de qualidade na sintetização do enredo e no desenrolar performático dos bailarinos.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Renan Oliveira e Amanda Poblete estrearam como casal na Acari com a fantasia “Memória e Ancestralidade Afro-Brasileira”, representando justamente esses elementos como pilares da construção rítmica, expressiva e da forma de interpretação dos atores negros. A roupa fez referência a Exu, primeiro orixá da gira, que, a partir de suas cores, vermelho e preto, definiu a colorimetria da fantasia. Na apresentação, o casal optou por uma coreografia mais clássica, voltada para a valorização do pavilhão.

Foto: Allan Duffes/CARNAVALESCO
Em um momento da dança, Amanda chegou a dar quase 18 giros seguidos, em um trecho com a troca do sentido dos rodopios. Renan soube se aproveitar bastante da fantasia, com a capa em godê e as calças mais sanfonadas, que abrilhantaram o efeito da dança. O mestre-sala também mostrou uma postura muito destacada no cortejo à porta-bandeira. Com um samba mais reto, a dupla manteve essa pegada mais clássica, permitindo-se um “passinho” diferente no trecho “tem frevo rasgado de sombrinha”, justamente quando a obra cita a dança popular de Pernambuco. Uma curiosidade, mais latente na primeira apresentação de julgamento, mas também nos outros módulos, foi que a comissão havia jogado bastante papel picado na pista. No momento da dança do casal, quando Amanda girava, o papel era levantado pela saia, produzindo um bonito efeito. Não ficou claro se foi proposital, mas abrilhantou a apresentação do casal.
Negritudes de Acari: Componentes se reconhecem em artistas do Teatro Experimental do Negro
HARMONIA

Leozinho Nunes e Tainara Martins, em seu terceiro carnaval juntos na Amarela, Branca e Rosa da Zona Norte, mostraram maturidade e entrosamento. Foi muito positivo notar o crescimento de Tainara Martins a cada ano, que esteve o tempo todo com a voz firme, em diversos momentos arriscando a realização de terças e vocalizações de forma eficiente e pertinente ao samba. Leozinho, experiente, soube conduzir e, de forma solidária, sem vaidade, aproveitou o trabalho da colega, abrilhantando o rendimento dos dois. Bom trabalho do carro de som, apesar de o samba não ter conseguido “pegar” na Sapucaí. Já o canto dos componentes deixou a desejar. Era fácil notar diversas alas com vários integrantes passando sem sequer mexer a boca. O samba aparentemente não conseguiu atingir os componentes e talvez algumas fantasias mais pesadas também tenham influenciado no canto.
ENREDO
O enredo “Brasiliana”, desenvolvido pelo carnavalesco Guilherme Estevão, homenageou o primeiro emblemático grupo de teatro musical negro do Brasil, trazendo para a Sapucaí sua história, seus personagens e o protagonismo negro na brasilidade dessa arte. No primeiro setor, a Parque Acari apresentou o Grupo dos Novos surgindo a partir de dissidentes do Teatro Experimental do Negro. Neste setor, a escola fez um mergulho pelos terreiros da Baixada Fluminense, com a contribuição da cultura afro-brasileira para um universo que nunca esteve no teatro e a apresentação do batismo do Grupo dos Novos no terreiro de João da Gomeia.

Em seguida, a Acari mostrou a formação do Teatro Folclórico Brasileiro, com a musicalidade do interior, principalmente do Nordeste, e manifestações como o frevo, a festa do coco, a capoeira e o maracatu. Por fim, a agremiação da Zona Norte demonstrou a formação do grupo propriamente dito, após o olhar de censura sobre o Teatro Folclórico Brasileiro, diminuindo-o como não representante da cultura brasileira. Nesta parte, o desfile apresentou o Brasiliana “batendo o pé” firme e levando para o mundo traços marginalizados da cultura nacional, com o afro-brasileiro popular na figura do samba. Apesar de não ser uma história tão difundida como a de outros grupos de teatro, a ideia da homenagem realizada por Guilherme Estevão se apresentou de forma clara e com fácil leitura. Enredo fora da caixinha, não óbvio, com desenvolvimento também fora do comum, mas de fácil compreensão.
EVOLUÇÃO

A evolução da Parque Acari também foi um ponto abaixo do esperado. A escola não teve nenhum grande problema de buraco ou grandes espaçamentos, nem correria, mas faltou mais energia dos componentes e espontaneidade. Em diversos momentos, era possível perceber na fisionomia dos integrantes o ar de cansaço, talvez porque algumas fantasias, muito bem desenvolvidas, pareciam estar um pouco mais pesadas. Em boa parte do desfile houve preferência por alas muito enfileiradas, o que parecia tornar a apresentação mais engessada, sem que o componente demonstrasse liberdade para brincar o carnaval.
SAMBA-ENREDO
Desenvolvido em regime de encomenda pelos compositores Moacyr Luz, Fred Camacho e Gustavo Clarão, a obra teve um bom andamento da bateria, que não deixou um samba mais reto ficar monótono, embora apresentasse algumas partes melodicamente repetidas, como na cabeça do samba. A melodia é de fácil assimilação pelo componente, com estrofes bem marcadas no sentido de indicar para onde a obra vai, com subida inicial bem definida, andamento bem colocado e trechos melódicos no final que identificam a chegada de um clímax. No entanto, os refrões têm pouca explosão, são mais retos e sem uma diversidade melódica mais impactante que pudesse suprir essa falta de “subida”.

A impressão nas estrofes era de que o samba iria acontecer nos refrões, como se fosse chamar com força, mas eles não se destacavam tanto quanto a obra vinha prometendo no restante da música. Por isso, talvez, não tenha havido grande interação com o público nem destaque expressivo no canto da comunidade. Desfile com grande riqueza de enredo acabou passando morno.
FANTASIAS
Pelo segundo ano consecutivo desenvolvendo o desfile da União do Parque Acari, Guilherme Estevão trouxe para a Sapucaí um conjunto estético com muita qualidade de cores, evitando tingir excessivamente as fantasias com as cores da escola, mas trazendo-as sempre de forma discreta e combinando-as com as outras tonalidades presentes no desfile, por terem mais relação com o enredo. Houve grande diversidade cromática, começando nos primeiros setores com tons mais claros e estampas afro.

A primeira ala, “Teatro Experimental do Negro”, conseguiu relacionar o preto e branco com tons mais quentes, como amarelo e laranja nas penas, tudo isso com uma estampa afro. Neste trecho, destaque também para os passistas com a fantasia “Macumba”, que representou a fé afro-brasileira, muitas vezes perseguida, mas no teatro exaltada. A roupa era predominantemente nas cores de Exu, vermelho e preto. No segundo setor, o colorido tomou conta, como na Ala 10, “Frevo”, que mostrava uma das figuras representadas no Teatro Folclórico, o bailarino de frevo. Nela, Guilherme Estevão apresentou uma indumentária bastante colorida, com a famosa sombrinha na mão.
Logo em seguida, na ala “Brasiliana: danças e folias pelo mundo”, o carnavalesco utilizou o amarelo e o rosa da escola para retratar o folclore brasileiro pelo mundo. No final, trouxe um pouco do verde ao abordar temas mais indígenas, como nas alas “Caboclos” e “Cafezal”, e finalizou com estética mais carnavalesca ao retratar personagens típicos do carnaval, como na ala das baianas com a fantasia “Isso é samba”, representando a própria baiana carnavalesca com pano da costa, pompons, babados e as cores da União do Parque Acari. No geral, fantasias de muito bom gosto, boa volumetria, utilização de materiais não tão óbvios e criatividade.
ALEGORIAS
Guilherme também foi muito criativo nos carros, com capricho nas estampas laterais, esculturas bem feitas e desenvolvimento de elementos que eliminaram um pouco a estética mais “caixotão”. O abre-alas, “Grupo dos Novos: o batismo da Gomeia”, trouxe mandalas em movimento, produzindo um efeito interessante. O carro retratou o universo do candomblé e o batismo do Grupo dos Novos no terreiro de João da Gomeia, com elementos como a saudação a Exu. Foi uma alegoria com tons terrosos e quentes, referências à estamparia africana e à materialidade dos terreiros, com esculturas de expressões bem fortes e traço artístico bem definido.

No segundo carro, “Teatro Folclórico Brasileiro: Cortejo do Maracatu”, a escola trouxe o rei do maracatu, interpretado por Haroldo Costa, por meio de um carro colorido, com estética nordestina e cenografia referenciada na época. A partir daí, o desfile ganhou mais colorido. Na última alegoria, “Brasiliana: o Carnaval Brasileiro pelo mundo”, a Acari mostrou a valorização do samba e a apresentação da figura do malandro e das cabrochas. A alegoria trouxe as cores da escola mais predominantes e talvez tenha sido aquela em que o carnavalesco optou mais pelo óbvio.

OUTROS DESTAQUES
A bateria “Fora de Série”, dos mestres Erick Castro e Daniel Silva, veio com a fantasia “Ritos para um Rei Nagô”, inspirada no próprio Rei Nagô, figura presente no quadro da companhia de teatro. A rainha Luciana Picorelli veio de “Estrela dos Candomblés”, como protagonista da abertura dos atos de exibição do Teatro Folclórico nos palcos. No discurso, o presidente Carlos Eduardo Freitas, o Dudu, aproveitou a audiência para pedir ao poder público mais atenção às enchentes na região do Complexo do Amarelinho, em Acari, além de relembrar o intérprete Gilsinho, falecido no ano passado, que chegou a ser vice-presidente da escola.










