Quem nunca viu o samba amanhecer… Quem estava no Anhembi na reta final do último sábado viu. O Vai-Vai entrou na avenida já com o dia amanhecendo e mostrou que tem chão. Penúltima escola a desfilar, a agremiação ouviu seu nome ser anunciado e fez arquibancadas se levantarem em bloco, com bandeirinhas balançando e um clima de euforia que confirma o tamanho do Alvinegro no sambódromo.
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Depois de dois rebaixamentos recentes, a escola optou por um desfile mais estratégico do que luxuoso, com regulamento a seu favor. Sem apostar em grandes ousadias, o Vai-Vai investiu em entendimento fácil e execução correta para sustentar o conjunto. Com o enredo “Em Cartaz: A Saga Vencedora de um Povo Heróico no Apogeu da Vedete da Paulicéia”, a narrativa foi contada como um filme pelas lentes da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, do cenário ao clímax e ao desfecho.
A escola encerrou sua apresentação em 01h04min32seg, dentro do tempo regulamentar.
COMISSÃO DE FRENTE
Coreografada por Priscila Paciência e Diogo Santos, a comissão de frente, intitulada “Avant Premiere”, se apresentou em forma de filme. O elemento alegórico era um rolo de filme e, a partir dele, a coreografia se desenrolava com figurinos ligados ao universo do cinema e quatro personagens emblemáticos das produções da época da Companhia Cinematográfica Vera Cruz: Jeca Tatu, Sinhá Moça, Silvia (de “Passionata”) e o Cangaceiro.

Na prática, a leitura geral foi clara por reconhecer os personagens e o ambiente. O ponto alto esteve na coreografia executada no chão, bem desenhada e de fácil entendimento, sustentando o quesito com boa comunicação.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O primeiro casal, Pedro Trindade e Mirelly Nunes, desfilou com a fantasia “Identidade de um povo guerreiro”, proposta para representar o povo forte evocado pelo enredo. A fantasia carregava muito brilho e remetia a guerreiros.

Além dos giros leves e movimentos obrigatórios bem executados, houve diálogo direto com a letra em momentos específicos: no trecho “vai parar geral”, o casal estava de frente para uma cabine de jurados e marcou um movimento claro de “parar” com os braços. Outro momento, é quando o samba menciona “vedete principal”, o mestre-sala incorporou passos que remetiam a esse universo, reforçando a intenção do enredo.
O conjunto se mostrou leve, comunicativo e, dentro do estilo do quesito, buscou brincar com o samba sem perder a função de defesa do pavilhão.
HARMONIA
O canto foi um dos pontos altos do Vai-Vai. A comunidade cantou muito, sustentando o samba de ponta a ponta mesmo no horário de amanhecer, e a resposta da arquibancada acompanhou esse rendimento. A participação das alas foi consistente, com destaque para a ala Força Alvinegra, que apareceu especialmente forte após o segundo carro.

A condução do intérprete Luiz Felipe teve papel decisivo na energia do desfile. Além de puxar o canto com intensidade, ele estimulou a interação das arquibancadas, chamando o público a balançar as bandeiras distribuídas no início do desfile, o que ampliou a participação das arquibancadas.
ENREDO
O enredo “Em Cartaz: A Saga Vencedora de um Povo Heróico no Apogeu da Vedete da Paulicéia” foi desenvolvido como um filme, com roteiro: a história é contada pelas lentes da Vera Cruz. Desde a apresentação e ambientação, até o progresso, depois assume o clímax com a greve, e o final é o desfecho em uma cidade ideal.

Na avenida, essa estrutura pode não ter ficado claro a intenção de trazer toda a história. No entanto, a escola não buscou camadas excessivamente abstratas, as transições foram reconhecíveis.
EVOLUÇÃO
Se nos ensaios a escola havia enfrentado desafio com o tempo e chegou perto do estouro no último. No desfile oficial, o Vai-Vai iniciou mais acelerado, demonstrando preocupação em garantir margem no cronômetro.

Mas já no fim da avenida, foi perceptível a necessidade de controlar o andamento e segurar o passo para atingir o tempo mínimo regulamentar. A desaceleração foi administrada sem desorganização evidente do conjunto e o fechamento em 01:04:32 indica que o Vai-Vai conseguiu ajustar o desfile durante a apresentação, transformando um risco de tempo em cumprimento seguro do novo regulamento.
SAMBA
O samba funcionou muito bem na avenida por ser fácil de cantar e por mobilizar a identidade da escola. O tradicional “vai vai vai” no meio da canção recebeu resposta forte da comunidade.
A condução do Luiz Felipe ajudou a manter o canto alto mesmo com o dia cada vez mais claro, e a interação com as arquibancadas — especialmente o incentivo ao movimento das bandeiras — reforçou o impacto do samba para além do canto, criando um efeito visual que acompanhou os picos de empolgação do desfile.
FANTASIAS
As fantasias cumpriram seu papel narrativo dentro de um desfile assumidamente mais contido e técnico. O Vai-Vai não apostou em luxo excessivo ou grandes soluções, mas apresentou figurinos corretos e bem resolvidos dentro da proposta.

A escolha de cores funcionou a favor do enredo: o setor inicial, predominantemente preto e branco, dialogou com a ideia de passado e com a estética do cinema de época, enquanto os setores finais ficaram mais coloridos, reforçando a noção de futuro e de cidade ideal.
Entre os destaques positivos, a ala Kizomba chamou atenção pelo volume e pelo impacto visual, especialmente por ser coreografada e ocupar bem a pista. A fantasia da bateria, representando operários, também dialogou de forma clara com o setor industrial, reforçando a narrativa proposta. No geral, as fantasias favoreceram o entendimento do enredo.

ALEGORIAS
As alegorias foram o setor mais irregular do desfile, com diferença perceptível de acabamento e impacto entre os carros. O abre-alas apresentou conceito claro e alinhado à proposta cinematográfica, mas um problema de acabamento — com parte da estrutura ficando aparente após a queda de tecido — comprometeu a leitura frontal. Além disso, o forte investimento em iluminação perdeu efeito com o dia já claro, reduzindo o impacto visual planejado.


O segundo carro manteve coerência ao desenvolver a ideia de progresso industrial, mas teve execução mais simples e menor imponência estética dentro do conjunto. Já o terceiro carro, foi o melhor das alegorias, tanto pela concepção quanto pela conexão com o samba, com coreografias no topo e gestos de punho erguido que reforçaram a ideia política do desfile.

No fechamento, o Vai-Vai trouxe solução simbólica ao representar a cidade ideal e valorizar a Velha Guarda na frente da alegoria. No entanto, novamente a iluminação excessiva perdeu força no horário do desfile. No geral, as alegorias cumpriram a função narrativa, mas oscilaram em acabamento e impacto.
OUTROS DESTAQUES
A presença da ala mirim cantando e dançando com intensidade mostrou como a tradição passa de geração em geração dentro do Vai-Vai. Durante o desfile, era possível ver muitos componentes emocionados por estarem ali.
A bateria Pegada de Macaco, comandada pelo Mestre Tadeu e Mestre Beto, manteve a identidade. A escola apostou em paradões alinhados ao refrão “vai parar geral” e uma bossa que chamou atenção no trecho “Nobres imigrantes aportaram nesse chão”, recebendo boa resposta das arquibancadas e das alas.

Entre os destaques individuais, Madu Fraga, rainha da Pegada de Macaco, apareceu com presença forte à frente da bateria. Cria da comunidade e já consolidada no posto desde 2023, ela sustentou boa interação com o público e reforçou a tradição.










