Por Luiz Gustavo, Juliana Henrik, Matheus Morais e Júnior Azevedo

A União da Ilha fechou a segunda noite de ensaios técnicos da Série Ouro, na Marquês de Sapucaí, no último sábado, e exibiu algumas de suas marcas eternas. Um chão de muito fundamento, uma escola com identidade própria e uma alegria que contagia quem assiste à Ilha passar. Mesmo com um samba que não está no topo das obras do grupo neste ano, os componentes honraram as tradições da agremiação insulana e deram uma aula de canto e de evolução leve, brincante, sendo a mola mestra da apresentação no sambódromo. Outro destaque foi a “Baterilha” comandada pelo mestre Marcelo, em mais uma grande exibição dentro de suas características, como a batida de caixas e o andamento confortável. Outros quesitos, como o jovem casal formado por João Oliveira e Duda Martins, também exibiram pontos positivos. Faltou um desempenho melhor do samba, que foi cansando e mostrando queda de rendimento com o passar do ensaio. A União da Ilha será a sexta escola a entrar na avenida na sexta-feira de carnaval, com o enredo “Viva o hoje! O amanhã? Fica pra depois”, desenvolvido pelo carnavalesco Marcus Ferreira.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

COMISSÃO DE FRENTE

Junior Scapin elaborou uma comissão com componentes vestidos com uma malha azul e uma saia na mesma cor, com estampa de estrelas amarelas, uma indumentária que, esteticamente, poderia ser melhor resolvida. Uma coreografia com muitos elementos, principalmente movimentos envolvendo as mãos. Alguns passos simulavam como se os componentes fossem máquinas.

ilha et26 7
Fotos: S1 Comunicação/Divulgação Liga-RJ

Na primeira metade da apresentação, os elementos de dança eram maioria, temperados com interpretações de expressão facial. Na segunda metade, a teatralização ganha protagonismo, com o momento de maior clímax da apresentação: cenas de sedução e entrega física entre os componentes, uma síntese do “viver o hoje” falado pelo enredo. Uma comissão que cresce com a teatralização.

“A gente trouxe 70% do que vai levar para a avenida. A gente depende muito do nosso carro; é nele que vai acontecer muita coisa da apresentação. Estamos trazendo um carro bem grande, em proporções de Grupo Especial. Eu queria que, este ano, a comissão da Ilha viesse muito grandiosa e fiquei muito feliz, porque as nossas fantasias estão praticamente prontas. Já estamos ensaiando no nosso carro, e isso é muito bacana. Considero que essa comissão de frente seja polêmica, porque, em um determinado momento, vai acontecer uma coisa que as pessoas não esperam e podem ficar, de certa forma, espantadas, mas acredito que de uma forma engraçada. Foi bacana ensaiar com a pista molhada, pois isso pode acontecer no dia; então eles já sentiram. Até pedi para que não tirassem o sapato, pois no desfile oficial não poderão tirar. Fiquei feliz com a resistência dos meninos. Tenho essa coisa de colocar muita coreografia, e todo mundo terminou bem; isso é o que importa”, disse o coreógrafo.

ilha et26 6
Foto: Luiz Gustavo/CARNAVALESCO

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O jovem casal João Oliveira e Duda Martins realizou um bom ensaio técnico no sambódromo. Na primeira cabine, a apresentação foi mais contida, e o casal não pareceu 100% à vontade; inclusive, em um determinado momento, eles esbarraram os braços após um passo coreográfico. Nas demais cabines, o casal se soltou um pouco mais e o desempenho cresceu.

ilha et26 3
Foto: Juliana Henrik/CARNAVALESCO

Duda realizou alguns giros curvando um pouco o pescoço e os braços, emendando com giros com o corpo mais ereto, mostrando versatilidade e boa execução. João mostrou um bom trabalho de pernas no bailado cruzado e um ótimo cortejo. A melhor sequência do bailado de ambos foi na parte final, no refrão de cabeça. Uma apresentação de um casal inexperiente como principal na Marquês de Sapucaí, mas que exibe um imenso potencial.

“A minha análise é muito simples. Eu sou humilde, então, para mim, a emoção de estar com o pavilhão da União, com a minha escola, com a minha sala, é tudo. Acho que a análise é essa: amor, união. Estou até sem palavras, perdoa. Eu acho que sempre tem o que melhorar. Até a nota 40 tem observação, tem justificativa, e este ano isso vai ser muito importante. Mesmo que seja 10, vai ser justificado. Hoje eu me sinto pronta para entrar e fazer tudo o que eu preparei para o Carnaval deste ano. Melhorar? Sempre”, disse a porta-bandera.

ilha et26 2
Foto: Juliana Henrik/CARNAVALESCO

“É muito amor transbordando. Não é suor, é amor. O suor é resultado de tanto trabalho. A gente fica aqui, às vezes, de segunda a segunda, vocês acompanham isso. E chegar aqui hoje, conseguir realizar tudo o que a gente organizou e até um pouco mais, esbanjar emoção, porque aqui é diferente. Quando a bateria começa, quando o canto vem forte, a gente se sente na obrigação de entregar um trabalho mais do que perfeito. Espero que a gente tenha conseguido fazer isso com toda humildade. Eu também estou extremamente satisfeito e concordo com o que minha parceira falou. Sempre tem um detalhe, uma mão, uma respiração para ajustar. A perfeição absoluta não existe, mas acredito que estamos firmes, fortes e preparados para entrar na avenida. Podem esperar surpresa, emoção e a alegria insulana que todo mundo associa à União da Ilha. A Ilha é feita disso: grandes sambas, grandes momentos. E a gente vai, mais uma vez, fazer história”, completou o mestre-sala.

EVOLUÇÃO

A Ilha dominou a pista do Sambódromo com a alegria peculiar e uma evolução marcada pela leveza. Uma escola que soltou seus componentes para se mexerem com mais liberdade dentro de suas alas, buscando mais lateralidade e preenchimento de espaços. Uma das primeiras alas da tricolor insulana segurava bastões infláveis e desfilou com muita energia, marca da agremiação em todo o ensaio, sem militarismo ou engessamento, em uma evolução contagiante. Em relação ao andamento, a escola seguiu a toada da bateria comandada pelo mestre Marcelo e evoluiu sem correria, aproveitando para brincar carnaval. Muito gostosa a evolução da União da Ilha.

ilha et26 5
Foto: Luiz Gustavo/CARNAVALESCO

“Em relação ao ensaio de hoje, devido à pista molhada, dei uma segurada no andamento da escola para que viesse um pouco mais devagar. Como hoje não tivemos as alegorias, conseguimos ganhar esse tempo dentro da avenida. Dei uma segurada, mas fiquei muito feliz, primeiramente com a evolução e depois com o canto da escola, defendendo esse samba que a comunidade abraçou. Em relação ao Carnaval da Ilha, hoje estamos com a totalidade das fantasias já ensacadas, prontas para serem entregues, as roupas dos casais já prontas, as roupas da comissão já entregues, e estamos terminando de fazer o último carro para que possamos estar com o Carnaval totalmente pronto em, no máximo, cinco dias. A gente sabia o que poderia esperar dessa comunidade, mas ainda temos mais dois ensaios de rua, que pretendemos fazer ainda melhor, para que, no dia do desfile, não deixemos dúvidas sobre a nossa harmonia e evolução”, analisou Junior Cabeça, diretor de carnaval.

HARMONIA E SAMBA

Desempenhos díspares nos dois quesitos. O canto da escola seguiu a leveza da evolução e funcionou muito bem em vários momentos do ensaio. Principalmente após o samba ter uma queda de rendimento, ficou ainda mais visível que o canto da comunidade segurou o ensaio e o potencializou. Uma energia da velha Ilha, uma ancestralidade presente ali naquela pista. A insulana não parou de cantar e cumpriu seu papel com louvor. Até alas que costumam ter um canto mais morno, como a ala de passistas, mostraram que estão com o gogó em dia. Mais um show de canto da União da Ilha.

ilha et26 9
Fotos: S1 Comunicação/Divulgação Liga-RJ

O canto poderia ter sido ainda mais visceral caso o samba tivesse apresentado um rendimento mais linear. Começou forte na Sapucaí, mas, depois de alguns minutos, a obra já dava sinais de que não aguentaria o desfile inteiro em alta e acabou caindo rapidamente. O samba é melhor em letra do que em melodia, que possui poucas variações. Um dos trechos mais inspirados do samba está no refrão central, com os versos: “Descobri um Rio de Janeiro bom vivant, rebuliço carioca dura até de manhã, poesia nas calçadas, festa, batucada, partideiro versejando pelas madrugadas.” Tem-Tem Jr. se esforçou, junto com seus auxiliares, para manter a pegada do samba, mas não obteve êxito, e a obra foi perdendo força ao longo do ensaio. Mesmo com o canto da escola a mil, a questão técnica do samba influenciou no desempenho irregular.

“Sou suspeito para falar: desde o primeiro dia em que cheguei a essa escola, eu me apaixonei por ela. Você vê no semblante de cada componente a vontade de vencer, a vontade de voltar para o nosso lugar, que é o Grupo Especial. E não foi diferente: pisamos forte, e hoje a chuva caiu para abençoar. Não vou reclamar com Papai do Céu, que é a honra dele, a vontade dele. E cantamos o samba até o final. Não vou julgar também; sabemos dos erros técnicos de som. Hoje é um teste. Espero que, no dia do desfile, não aconteça da mesma forma. Para ali, volta aqui… A gente sabe que não foi só para a Ilha; foi para outras escolas também. Está sendo uma adaptação, está sendo um teste. O nome já fala: é ensaio técnico. Então, é esperar melhorar, no caso, o produto, a proporção do que foi montado para ser esse espetáculo grandioso que é. E a gente se sente pronto, preparado para voltar ao Grupo Especial, se Papai do Céu abençoar”, garantiu o intérprete Tem-Tem Jr.

OUTROS DESTAQUES

Impressiona a constância e a educação musical da bateria comandada por Marcelo Santos. Várias escolas jogariam o andamento para frente para manter o samba mais vivo, mas a Ilha manteve seu padrão de conforto e musicalidade dentro da bateria.

ilha et26 1
Foto: Luiz Gustavo/CARNAVALESCO

“Foi um ensaio técnico maravilhoso. A escola veio muito bem, a bateria veio dentro do que a gente esperava, mantendo a cadência e executando bem as bossas. É muito gratificante ver o trabalho de meses ser colocado em prática aqui na avenida e receber esse retorno positivo da comunidade e do público. Sempre tem o que melhorar. O ensaio serve exatamente para a gente pontuar esses detalhes. Vamos ajustar um pouco mais o equilíbrio dos naipes, dar uma atenção especial à afinação para o dia oficial e garantir que a entrada e a saída do recuo sejam perfeitas. O objetivo é chegar aos 100% para não dar margem a nenhum erro perante os jurados. Eu espero um desfile de resgate, a União da Ilha sendo a Ilha que todo mundo ama: alegre, vibrante e técnica. A bateria vai vir com tudo para sustentar o canto da escola e emocionar a Sapucaí. Estamos trabalhando para fazer um Carnaval inesquecível e colocar a Ilha no lugar de destaque que é dela por direito”, garantiu mestre Marcelo Santos.

ilha et26 8

Gracyanne Barbosa veio à frente dos ritmistas e, no final do ensaio, interagiu com a ala de crianças que vinha logo antes, em mais um momento de leveza do ensaio da tricolor insulana.