O Amizade Zona Leste abriu, no último sábado, os desfiles das escolas de samba em São Paulo no Carnaval de 2026. A apresentação do Trevo, válida pelo Grupo de Acesso II, teve no canto da comunidade e na bateria os principais destaques da apresentação, concluída após passagem de 48 minutos pelo Sambódromo do Anhembi. O enredo da agremiação foi “Xangô e Iansã – O casal dendê no Ylê do Amizade”, assinado pelo carnavalesco Rogério Sapo.

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Um desfile agradável para quem pisa na Avenida disposto a brincar o carnaval. O comprometimento da comunidade da escola fez valer sua presença, cantando de forma empolgada conforme um tranquilo cortejo ocorria sem preocupações. A grande atuação da bateria contribuiu para esse alto astral, e a constante chuva, que caiu durante todo o desfile da escola, não desanimou os desfilantes em nenhum momento. Mesmo que a escola tenha apresentado problemas em certos quesitos, é inegável que o primeiro desfile do Carnaval de 2026 foi digno do palco principal da folia paulistana.

COMISSÃO DE FRENTE

O coreógrafo Renato Martins foi o responsável pelo desenvolvimento da coreografia da comissão de frente, nomeada “Guerreiros”. O quesito representou na Avenida Xangô e os guerreiros do Reino de Oyó. Na primeira parte da apresentação, o protagonista é treinado pelos coadjuvantes para batalhar, sendo coroado como rei por eles ao fim da segunda etapa.

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Fotos: Woody Henrique e Felipe Araújo/Liga-SP

A apresentação ocorreu ao longo de duas passagens do samba, com os elementos destacados se desenvolvendo na primeira etapa. O protagonista ora evolui em sincronia com metade dos coadjuvantes, ora com os outros, até que, no momento da coroação, ele passa a ditar os movimentos até o final, antes de sentar-se no trono que percorreu a Avenida sob um tripé.

A dança é de leitura fácil e cumpriu bem a demanda do quesito. Porém, ao longo do primeiro módulo, um dos componentes teve problemas com o cinto de sua fantasia. Problemas de acabamento das roupas, gerando inconformidades visuais, podem comprometer o julgamento da escola.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

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O primeiro casal do Amizade, formado por Victor Hugo e Pâmela Sousa, desfilou com fantasias representando os “Súditos de Oyó”. A dupla foi acompanhada por um grupo de guardiões, que os circundava ao longo da Avenida. O casal apresentou certa inconsistência na dança durante a apresentação no primeiro módulo, mas a preocupação maior ocorreu durante a passagem pela última cabine do quesito, onde a porta-bandeira teve uma clara dificuldade de segurar o pavilhão para executar sua dança. Os problemas identificados podem dificultar sua avaliação.

ENREDO

O enredo do Amizade Zona Leste foi ilustrado por meio de quatro diferentes atos. O primeiro, apresentado pela comissão de frente, seguido pelo carro abre-alas e encerrado na Ala 2, narrou a trajetória de Xangô. A Ala 3 e o segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira representaram, respectivamente, o amor e a união do casal de orixás. O terceiro ato, da Ala 4 até o segundo carro, abordou a história de Iansã.

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A apresentação foi encerrada com uma exaltação ao sincretismo religioso no Brasil, com destaque para o terceiro casal, que homenageou a agremiação coirmã Unidos de Santa Bárbara, fundada em um terreiro dedicado à Orixá dos Raios e cujo nome faz referência à santa associada à entidade. Um enredo de fácil leitura por meio dos quesitos visuais apresentados ao longo da Avenida, que, combinados com a letra do samba, formaram um conjunto adequado dentro da proposta da escola. Pode ser um fator positivo no dia da apuração.

ALEGORIAS

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O Amizade Zona Leste desfilou com dois carros alegóricos. A primeira alegoria recebeu o nome “Reino de Oyó” e teve como foco principal referenciar a figura do orixá Xangô, que, na crença iorubá, foi rei daquelas terras. A segunda, nomeada “Raios de Iansã”, exaltou a força de Iansã, destacando especialmente os raios dentre os elementos associados à entidade.

O conjunto alegórico cumpriu bem o seu papel dentro do enredo. Os orixás estavam representados com suas cores tradicionais e transmitiram a mensagem com clareza. O acabamento das alegorias era simples, mas sem falhas, o que pode significar que a escola pode esperar por boas notas no quesito.

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FANTASIAS

O conjunto de fantasias apresentado por meio das alas do Amizade Zona Leste condiz com a divisão explicada anteriormente no quesito Enredo, formando um conjunto narrativo objetivo, alinhado à divisão dos atos do enredo.

As vestimentas eram de fácil leitura e cumpriram bem o seu papel narrativo, mas em algumas alas foram observadas falhas de acabamento, como partes ausentes em fantasias de baianas e falhas em adereços nas Alas 4 e 8. A depender da observação dos jurados e da quantidade de irregularidades, alguns décimos podem ser perdidos no quesito.

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HARMONIA

Um dos pontos mais fortes no desfile do Amizade Zona Leste, o canto da comunidade foi forte e animado ao longo de todas as alas que desfilaram pelo Sambódromo do Anhembi. A chuva até tentou atrapalhar a festa, mas a disposição dos desfilantes em brincar o carnaval animou até mesmo a bateria da escola, que respondeu com apagões sempre bem respondidos. Destaque especial para a Ala 9, que estava radiante e empolgada.

EVOLUÇÃO

A evolução da escola ao longo da Avenida não teve preocupações. O cortejo ocorreu com tranquilidade e fluidez, com os portões fechando após 48 minutos de desfile. Chamou atenção a demora da escola para iniciar sua apresentação, com a comissão de frente só começando a coreografar após seis minutos da sirene inicial. Essa situação pode explicar a decisão da escola de não realizar o recuo da bateria, que poderia ter comprometido o encerramento do desfile no tempo regulamentar. Conforme observado, é um quesito que pode trazer segurança para a escola na apuração.

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SAMBA-ENREDO

Assinado pelos compositores Turko, Rafa do Cavaco, Maradona, Imperial e Fábio Souza, o samba-enredo do Amizade Zona Leste foi defendido na Avenida pelo carro de som comandado pelo intérprete Cris Santos. A primeira parte do samba é dedicada a Xangô, enquanto o refrão do meio sugere o encontro com Iansã. Já a segunda parte divide sua narrativa entre referências à orixá dos Raios, ao casal e ao sincretismo religioso. O refrão principal não desenvolve a história, funcionando apenas como elemento de exaltação dentro do tema do enredo.

É possível identificar a presença dos quatro atos apresentados pelos quesitos visuais. Entretanto, assim como a própria comissão de frente indica logo no início do desfile, há uma desproporção narrativa nos versos, com maior ênfase em Xangô. Trata-se de uma letra dentro dos padrões esperados para um desfile composto por poucos elementos, como se costuma ver no Grupo de Acesso II, mas que poderia apresentar maior equilíbrio narrativo.

Na Avenida, o samba do Amizade funcionou bem na voz da comunidade, mas o carro de som teve problemas para retornar a cantar após a execução de alguns apagões executados pela bateria. Resta ver a influência dessa falta de sintonia no julgamento do quesito.

OUTROS DESTAQUES

Comandada pelo mestre Vinícius Nagy, a “Batucada do Amizade” brincou à vontade com as oportunidades que a melodia do samba permite e executou um repertório generoso de bossas. A boa comunicação entre os ritmistas e a comunidade permitiu que apagões fossem executados e bem respondidos pelos desfilantes em vários momentos da Avenida. Fantasiada de “Rei Xangô”, a bateria cumpriu bem o seu papel de animar o público mesmo em meio à chuva constante.