A Botafogo Samba Clube abriu o segundo dia de desfiles da Série Ouro, na Marquês de Sapucaí, exaltando a obra de Roberto Burle Marx, com o enredo “O Brasil que floresce em arte”, desenvolvido pelos carnavalescos Alexandre Rangel e Raphael Torres. Ao transformar a avenida em um grande jardim, a escola levou para o centro do debate uma pergunta que ecoa além da Passarela do Samba: qual é o lugar da natureza no cotidiano urbano?

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ALA PARA CAPA
Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Na concentração, a reportagem do CARNAVALESCO ouviu três componentes que ajudaram a construir essa reflexão na prática. Fábio Amaral Vasconcelos, de 39 anos, dentista e estreante na escola; Isabelle Pereira dos Santos, 39 anos, professora de artes visuais e há três anos na agremiação; e André Souza, 53 anos, engenheiro de software, também desfilando pela primeira vez na Botafogo Samba Clube.

Eles falaram sobre a presença, ou a ausência,  do verde em seus bairros, sobre como a natureza impacta o dia a dia e sobre a possibilidade de enxergar praças e jardins como verdadeiras obras de arte.

Sente falta de áreas verdes no seu bairro?

FABIO AMARAL
Fábio Amaral. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Morador do Recreio, Fábio reconheceu que vive em uma região com mais áreas abertas, mas acredita que ainda é possível avançar. “Eu sou morador do Recreio, é até um bairro que tem um pouco mais de verde, prédios mais baixos e áreas de parques, mas sinto que poderia ter mais. A questão do verde faz muito bem, traz paz, segurança e alegria”, afirmou.

Já Isabelle, que mora em Bonsucesso, sente de forma mais evidente a desigualdade na distribuição das áreas arborizadas pela cidade. “Eu moro em Bonsucesso e lá sinto essa diferença, não é tão arborizado quanto na Zona Sul. Eu trabalho na Zona Sul e percebo o frescor do ar. Quando volto para Bonsucesso, sentimos a diferença da poluição”, disse.

ISABELE PEREIRA
Isabele Pereira. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

André, morador de Jacarepaguá, próximo ao RioCentro, avalia que a região onde vive ainda preserva boas áreas verdes. “Por incrível que pareça, não sinto tanta falta. Poderia ter um pouco mais, mas é bem verde. Agora, minha família é de Campo Grande e lá é uma selva de pedra. É terrível”, afirmou.

Como o verde muda o dia a dia das pessoas?

Para Fábio, o impacto é direto no estado emocional. “O Rio de Janeiro é uma cidade bonita por natureza. Temos a Floresta da Tijuca e, quando você vê uma área verde, uma floresta, isso traz paz e tranquilidade. Você fica mais calmo”, afirmou.

Isabelle reforçou que a arborização interfere inclusive na saúde e no bem-estar coletivo. “Ajuda com certeza. Inclusive penso em um projeto no bairro, junto aos moradores, para criar áreas verdes. Isso melhora o ar e a qualidade de vida das pessoas”, disse.

ANDRE SOUZA
André Souza. Foto: Júnior Santos/CARNAVALESCO

André destacou a importância prática, sobretudo nos períodos mais quentes. “Principalmente no verão. Ter sombra para caminhar faz diferença. Eu trabalhava na Barra e precisava levar uma sombrinha para sair do BRT por causa do calor de 40 graus com sensação de 50. O verde é aprazível, relaxa, traz passarinhos. É bom para viver”, afirmou.

Praças e jardins podem ser obras de arte?

Se o enredo da Botafogo propõe essa leitura, os componentes parecem concordar. Fábio, que já visitou o Sítio Roberto Burle Marx, em Guaratiba, recomenda a experiência. “Com certeza podem ser obras de arte. Eu sugiro visitar o Sítio de Burle Marx, é um passeio muito interessante. Já fui com minha filha e ela adorou”, disse.

Isabelle amplia o olhar para o aspecto educativo e cultural desses espaços. “Com certeza são obras de arte. Essas áreas podem ser revitalizadas e podemos ensinar as crianças a plantar e valorizar a natureza como cultura”, afirmou.

André lembra que o paisagismo vai além da estética e envolve convivência e memória afetiva. “Com certeza são obras de arte. A praça não é apenas uma questão social, mas também cultural. As pessoas se encontram ali. Cresci perto de uma praça onde todos se reuniam à noite para conversar. As árvores dão sensação de lar, de contato com a natureza. Nós nos sentimos bem quando estamos perto dela”, concluiu.

Para eles, ao levar Burle Marx para a avenida, a Botafogo Samba Clube não apenas homenageia um artista que redesenhou o Brasil com curvas, cores e espécies tropicais. Também convida a cidade a se repensar: se o jardim pode ser arte, e talvez o verde não deva ser privilégio, mas, um direito.