Por Lucas Sampaio e Will Ferreira 

A Estrela do Terceiro Milênio realizou, no último sábado, seu segundo ensaio técnico no Sambódromo do Anhembi, em preparação para o desfile no Carnaval 2026. A primazia da coreografia da comissão de frente e a ousadia no andamento da bateria foram os principais destaques da passagem da escola, encerrada após 62 minutos na Passarela do Samba. A Coruja do Grajaú será a quinta escola a desfilar no dia 14 de fevereiro, pelo Grupo Especial, com o enredo “Hoje a poesia vem ao nosso encontro: Paulo César Pinheiro, uma viagem pela vida e obra do poeta das canções”, assinado pelo carnavalesco Murilo Lobo.

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O comprometimento da comunidade do Grajaú, que supera as longas distâncias — cerca de uma hora da quadra da escola até o Sambódromo — com alegria radiante, é uma demonstração da capacidade do samba de vencer desafios. Essa força popular se intensifica a cada passagem da Terceiro Milênio pelo Anhembi. Isso permite à escola ganhar corpo para alcançar degraus cada vez maiores no Grupo Especial. A força apresentada por uma série de quesitos neste segundo ensaio técnico mostra uma agremiação competitiva para alcançar posições na parte superior da tabela, e é isso que a análise a seguir se propõe a detalhar.

COMISSÃO DE FRENTE

O quesito comandado por Régis Santos, duas vezes laureado com o Prêmio Estrela do Carnaval, promovido pelo CARNAVALESCO, mais uma vez leva para a Avenida uma apresentação de leitura significativamente fácil. Já se tornou característica das comissões da Milênio desenvolver coreografias que ilustram visualmente o conteúdo da letra do samba, e, mais uma vez, isso acontecerá com zelo e criatividade.

Uma alegoria alta e volumosa serve de palco, mas o que realmente importa são os atores que, de acordo com o coreógrafo, representarão a vida e a obra de Paulo César Pinheiro por meio da dança. Os principais elementos da evolução acontecem na pista, iniciados por um ator mirim que interpreta “o menino e seu dom de compor” e que, gradativamente, vai narrando os acontecimentos descritos pelos versos com fidelidade excepcional. Tudo dialoga com a sinopse e, inclusive, com o conteúdo da entrevista que o homenageado concedeu ao CARNAVALESCO e que foi publicada recentemente no site. Mesmo com a cenografia ainda não finalizada, já está claro que o quesito reúne plenas condições de obter novamente os quarenta pontos no dia da apuração.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Seriam Waleska Gomes e Arthur dos Santos ou Clara Nunes e seu guia espiritual? O casal parecia inspirado pelas fantasias utilizadas e realizou uma apresentação de alto nível. Nos módulos em que foram observados, um parecia o espelho do outro, respondendo aos movimentos com sincronia e agilidade. O cumprimento das obrigatoriedades do quesito não foi meramente protocolar: foi executado com elegância, beleza e confiança. Há sinais evidentes de que os três anos de parceria favoreceram o amadurecimento da performance da dupla.

O casal fez um balanço sobre a evolução do desempenho ao longo do ciclo de ensaios técnicos da Terceiro Milênio, destacando as diferenças entre os dois treinamentos gerais.

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“Acredito que não tivemos mudanças drásticas. Mantivemos o trabalho bem-feito que planejamos, com calmaria e segurança no nosso trabalho, na nossa equipe e na nossa escola. Estamos muito positivos, porque vamos entregar no dia oficial, e o público pode esperar bastante coisa linda”, disse Arthur.

“O que mudou foi a responsabilidade e a atenção. Hoje também nos permitimos nos divertir um pouco por ser o último dia. Fizemos um trabalho realmente longo durante o ano todo. Tecnicamente, o que mudou foi a qualidade, porque sempre pode ser um pouquinho melhor. E a alegria de estar aqui representando a nossa escola e o Grajaú”, completou Waleska.

HARMONIA

Quando a escola opta por falar, na Avenida, sobre um poeta, é natural que um samba cadenciado, com poucos momentos de explosão, seja a escolha narrativamente mais adequada. Por outro lado, isso se torna um desafio para a equipe de Harmonia e para os quesitos musicais manterem os ânimos da comunidade constantemente acesos. Esse desafio se torna mais fácil quando a comunidade amadurece um senso de comprometimento ao longo de tantos anos, como é o caso do povo do Grajaú. A comunidade fez sua parte, brincou o carnaval com leveza, e a bateria “Pegada da Coruja” ainda colaborou com muitas bossas e até um longo apagão pagodeado. É esperado um bom desempenho no quesito no dia do desfile oficial.

EVOLUÇÃO

A Terceiro Milênio apresentou, neste segundo ensaio, um contingente suficiente para que, somado aos seis espaços destinados às alegorias — demarcados por faixas —, os portões da concentração fossem fechados em menos de meia hora de ensaio. O encerramento do treinamento ocorreu após 62 minutos, próximo do limite máximo, mas ainda assim houve diversos momentos que podem ser suprimidos em caso de necessidade.

Por exemplo, o fato de toda a escola ter permanecido imóvel por uma passagem inteira do samba, marcada sem bateria e ao som de um pagode — no estilo do que foi apresentado no minidesfile da Festa de Lançamento dos Sambas de Enredo — pode não se repetir da mesma forma no momento da avaliação oficial pelos jurados.

Mesmo com um volume geral pequeno, é preciso cautela. Entre os módulos três e quatro de julgamento, o espaço entre uma alegoria e o ponto em que a bateria retornou à pista após sair do recuo ficou perigosamente próximo do limite para caracterização de um buraco, algo que não ocorreu quando os ritmistas passaram pelo primeiro módulo. Fica a sugestão para que a escola evite cometer um deslize em um quesito que, em 2025, foi doloroso para algumas agremiações.

SAMBA-ENREDO

Como já citado, o samba da Estrela do Terceiro Milênio não é uma obra de explosão. É um samba poético, feito para falar de um poeta, e repleto de referências à obra de Paulo César Pinheiro. No carro de som, a escola conta com o comando dos intérpretes Darlan Alves e Grazzi Brasil, que possuem estilos de canto semelhantes, mais voltados à cadência. A obra é fácil de cantar, mérito dos versos simples e bem encaixados no andamento da bateria. Para levantar ainda mais o público, contudo, o ideal seria intensificar o vigor com que os intérpretes convocam a comunidade — e, por tabela, o público — a cantar junto. Isso não compromete necessariamente as notas do quesito, mas pode favorecer outros critérios ao manter a comunidade acesa por todos os módulos de julgamento.

Os intérpretes fizeram um balanço sobre a evolução do quesito ao longo do ciclo de ensaios técnicos, exaltando especialmente a força da comunidade do Grajaú.

Darlan Alves

“Esse foi aquele segundo ensaio em que geralmente tentamos corrigir o que ficou pendente da primeira apresentação aqui no Anhembi, quando ainda estávamos sem o som da Avenida. Hoje, já chegamos com essa oportunidade de ter o som instalado; isso muda completamente o clima. A adrenalina da galera está lá em cima. Corrigimos algumas coisas, sim, e foi um ensaio muito bom. A Milênio tem essa característica de, a cada ano, se firmar mais no canto e olhar muito para o chão da escola. É uma comunidade que canta, e hoje foi isso. Fizemos um apagão de uma passagem inteira e a escola toda cantou, foi lindo. Agora é colocar a fantasia, segurar a adrenalina e fazer uma grande homenagem ao Paulo César Pinheiro”, contou Darlan.

Grazzi Brasil

“Hoje foi de uma energia maravilhosa. Ensaiamos bastante, tentamos fazer um bom trabalho e o grande dia está chegando. A energia do desfile é outra, mas a intenção é sempre a mesma: fazer dar tudo certo. Estou feliz. Essa escola é maravilhosa. O Grajaú canta forte, e quando chega a hora do jogo é uma loucura. Fico apaixonada”, disse Grazzi.

OUTROS DESTAQUES

O conjunto da obra da bateria “Pegada da Coruja” foi sublime. Mestre Vitor Velloso comandou seus ritmistas com ousadia, aproveitando ao máximo as oportunidades que o samba oferece para a criação de bossas. A parte central da obra — somando os últimos versos da primeira parte, o refrão do meio e os primeiros versos da segunda — apresenta diversas variações rítmicas que exigem confiança e precisão, e tudo foi executado com excelência. Sávia David retornou ao Carnaval de São Paulo em 2026 e abrilhantou ainda mais o espetáculo do quesito, que também contou com um apagão de uma passagem inteira do samba, marcado pelo time de cordas. Grande apresentação instrumental da comunidade do Grajaú.

Vitor Velloso avaliou o último ensaio técnico da Estrela do Terceiro Milênio e falou sobre as expectativas para o desfile oficial.

“É sempre aquela ansiedade. Você faz o primeiro ensaio e depois vem o segundo para ajustar o que precisava. Conseguimos fazer esses ajustes. A principal questão agora era o andamento. Fizemos alguns acertos em uma bolsa ou outra e ainda temos mais uma semana de trabalho até o grande dia. O resultado foi positivo e seguimos firmes para o dia 14. No desfile oficial o clima muda muito. A galera fica mais ligada, mais atenta, porque é jogo valendo. Podem esperar uma bateria firme, com boa afinação, bom andamento e bom ritmo. É isso que vamos entregar.”