O Império de Casa Verde abriu, no último sábado, o segundo dia de desfiles do Grupo Especial em São Paulo. No Carnaval de 2026, a escola fez uma apresentação marcada pelo impacto inicial da comissão de frente e pelo imponente conjunto alegórico, com o cortejo sendo encerrado após 62 minutos. O Tigre Guerreiro desfilou com o enredo “Império dos Balangandãs: Joias Negras Afro-Brasileiras”, assinado pelo carnavalesco Leandro Barbosa.

É preciso aplaudir a iniciativa de celebrar a conquista das mulheres negras que lutaram por sua liberdade de forma inteligente e criativa. A proposta do desfile foi de levantar o público com um desfile leve e alegre, e inicialmente a escola estava obtendo grande êxito. Mas o excesso volumétrico das fantasias atrapalhou o próprio esforço da comunidade imperiana de fazer a sua parte, e é algo que fica como reflexão para o futuro. O luxo das alegorias é uma marca que o Império nunca deve deixar de ter, faz parte de sua identidade, mas a pista é lugar de brincar o Carnaval, e os componentes precisam ter melhores condições de fazer isso.
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COMISSÃO DE FRENTE
Coreografada por Sérgio Cardoso, a comissão de frente do Império representou na Avenida “Dona Fulô e o sonho de liberdade”. O quesito contou com um elemento alegórico imponente, no qual, do alto do tablado, uma personagem interpreta a narradora do enredo, e em cada parte o grupo cênico mudava. Analisando as duas passagens do samba em que o quesito performa, percebeu-se que no primeiro ato havia uma interação entre atores com vestes compostas por correntes interagindo em pares com outros vestidos com um tipo de chama. A protagonista parecia sofrer na alegoria enquanto isso, até que surge uma segunda mulher, com roupas parecidas, mas mais rústicas, interage com ela e desce ao chão. O elenco muda, e essa mulher, sorridente e com um cesto cheio de vegetais, passa a interagir com mulheres cobertas por ouro.

A conclusão obtida é que a segunda mulher que surge é a própria Dona Fulô, mas em sua versão “do mundo dos sonhos”, que encontra a liberdade graças ao ganho e passa a aproveitar a vida feliz. Se foi isso mesmo que o quesito quis representar, a ideia foi maravilhosa e funcionou muito bem na Avenida. Um dos principais destaques do desfile imperiano.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Estreando como guardiões do pavilhão oficial do Tigre Guerreiro, o casal formado por Patrick Vicente e Sofia Nascimento desfilou com fantasias representando “Joias em fios de contas de ouro”. Definitivamente não sentiram o peso de defender o manto imperiano. A dança foi sublime, com elementos originais de finalização de movimentos obrigatórios, e o talento do mestre ao manipular o cetro nas mãos enquanto performava é admirável. Ventou em demasia durante o desfile, mas em todos os quatro módulos a porta-bandeira foi valente e desempenhou muito bem.

ENREDO
“Império dos Balangandãs: Joias Negras Afro-Brasileiras” é um enredo que celebra o empoderamento e a ancestralidade das mulheres escravizadas no século XVIII. Em busca de comprar a própria liberdade, as chamadas ganhadeiras precisavam ser criativas para angariar os fundos necessários. A narrativa ocorre sob a perspectiva de Dona Fulô, uma das primeiras a obter o ganho através da venda de joias.

Apesar de abordar os desafios enfrentados pelas vítimas do sequestro praticado pelos europeus na chamada diáspora africana, o enredo deixa essa parte em segundo plano para irradiar leveza e mostrar a forma como o ganho era obtido. A temática lembrou muito o desfile campeão da Unidos do Viradouro, ocorrido no Carnaval do Rio de Janeiro em 2020, mas mostrando uma outra forma de se obter a alforria. Na Avenida, a leitura do enredo foi muito fácil, tornando a apresentação especialmente cultural e didática dentro da combinação entre conjunto visual e musical.
FANTASIAS
O conjunto de fantasias do Império complementou a narrativa das alegorias ao trazer elementos necessários para a compreensão da narrativa de cada carro. É uma forma de enriquecer a narrativa dos principais elementos visuais, e que funciona positivamente para a compreensão do desfile até para os mais leigos. Visualmente belas, as vestimentas impactaram positivamente na impressão transmitida de uma escola luxuosa e imponente. Na Avenida, porém, notou-se que as fantasias em diversas alas eram muito volumosas e pesadas, dificultando aos componentes brincarem o Carnaval e reduzindo o andamento do samba conforme a escola atravessava a Passarela do Samba.

ALEGORIAS
O Império de Casa Verde apresentou na Avenida um conjunto de quatro carros alegóricos e um tripé. A leitura das alegorias era simples e prática de acordo com os nomes que cada uma recebeu. São eles: o Abre-alas, “Império de joias negras”, o Carro 2, “Joias como roupa e o corpo como cofre ancestral”, o Carro 3, “Sincretismo no altar”, o tripé “Afrojoia de quitute – Tia Ciata”, e o Carro 4, “Liberdade. O grito das ganhadeiras”.

Dentro da proposta do enredo, as alegorias cumpriram seu papel narrativo. Esteticamente, cumpriram o esperado de grande volumetria e luxo, que são marcas tradicionais do Tigre Guerreiro. Não foram observadas irregularidades de acabamento, o que complementa a impressão de que o quesito pode render boas notas no dia da apuração.
HARMONIA
O samba imperiano começou bem explosivo sua passagem pelo Sambódromo do Anhembi. Nos primeiros setores, a comunidade cantou vigorosamente e animada a excelente obra escolhida pela escola. Só que, conforme o cortejo passava pela Avenida, notou-se uma queda de andamento, com os desfilantes demonstrando certo cansaço em meio a uma noite de sensação térmica mais intensa do que o esperado.

EVOLUÇÃO
A fluidez inicial do desfile do Império permitiu que a escola fechasse os portões em tranquilos 62 minutos de desfile. O recuo da bateria foi bem-executado, contando com auxílio da comprometida corte de bateria da escola. Mas, posteriormente a esse momento, na altura do módulo três, percebeu-se que o cortejo não foi tão fluido como se esperava, com a escola oscilando entre andar, acelerar e parar. Não foram observadas aberturas de buraco em nenhum momento no alcance da visão, mas se essa observação quanto ao andamento foi registrada em mais setores, pode tirar alguns décimos importantes para as pretensões do Tigre.

SAMBA-ENREDO
O samba do Império para o Carnaval de 2026 foi assinado por Diogo Nogueira, André Diniz, Arlindinho Cruz, Bocão, Darlan Alves e Fabiano Sorriso, e na Avenida foi defendido pela dupla de intérpretes Tinga e Tiago Nascimento, esse que foi promovido do elenco de apoio para o posto principal da ala musical. Trata-se de uma das obras mais elogiadas da safra, apostando em uma melodia dançante e animada, mas que consegue narrar a proposta do enredo com riqueza de detalhes.

A letra cumpriu bem o seu papel de contribuir para a narrativa do enredo, com seus elementos sendo observados nas fantasias e alegorias imperianas. O carro de som esteve em grande noite, performando com excelência a obra e levantando o público por onde passou. O samba não teve culpa nas observações feitas quanto à harmonia da escola.
OUTROS DESTAQUES
A “Barcelona do Samba”, do veterano mestre Zoinho, novamente deu um belo espetáculo no Sambódromo do Anhembi, com direito a um breve ‘pagodinho’ contagiante durante a passagem pela arquibancada Monumental. A corte de bateria, comandada pela Rainha Theba Pitylla, precisa de um destaque especial, por trabalhar ativamente quando foi necessária, durante a execução do recuo dos ritmistas. Parabéns ao quesito pela excelente performance.











