Por Lucas Santos, Luiz Gustavo, Maria Estela Costa, Juliana Henrik e Juliane Barbosa
Máximo respeito! Deixou chegar, agora atura. Esse deve ser o sentimento das adversárias da Deusa da Passarela. Mais livre, sem o peso dos anos sem título, a Beija-Flor parece estar retomando aquela aura do início deste século, em que sempre era a escola a ser batida — e, na primeira década dos anos 2000, quase nunca era. A força de mais um ensaio muito forte, no estilo rolo compressor que ela ensinou para o mundo do carnaval e que ninguém fez totalmente igual, a Azul e Branca de Nilópolis deixou mais um forte recado na Sapucaí, a pouco mais de uma semana do desfile oficial.
* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp
Abençoada por Oxum, a escola foi a única que não pisou na Sapucaí com chuva constante, mas mostrou a garra dos componentes que certamente tomaram muita chuva na concentração. Na Sapucaí, o que se viu foi uma escola incorporada, entregando uma evolução altamente trabalhada, canto potente e musicalidade latente, além do brilho do casal Claudinho e Selminha e do trabalho bem estruturado da comissão de frente de Jorge e Saulo. Ensaio muito forte e o recado de que a última escola que conseguiu um bicampeonato é a que quer quebrar a maldição que já dura 18 anos.
Com o enredo “Bembé”, defendendo o título do ano passado, a Deusa da Passarela será a segunda escola a pisar na Avenida na segunda-feira de carnaval.
COMISSÃO DE FRENTE
Sob a direção de Jorge Teixeira e Saulo Finelon, a comissão trouxe a ancestralidade presente no enredo. O tripé de flores secas, com a pivô da coreografia, cujo corpo saía dessas raízes, interagia com os demais personagens, sendo reverenciada por eles ainda no início da apresentação. Vestidos em tons terrosos, os integrantes que evocavam essa parte ancestral realizavam muitas danças ao redor dessa Oxum presa ao tronco no tripé, evocando o desapego e a renovação.

Os integrantes vestidos em tons terrosos realizavam rituais, aproveitando algumas “mangas” da roupa, que produziam um bonito efeito tanto quando dançavam em solo quanto mais unidos. A apresentação trazia todo o traço de ancestralidade que o enredo pedia, muito voltada para a dança, de forma bastante sincronizada, com elementos bem típicos do culto do candomblé. Se olharmos pelo prisma do ano anterior e do que foi levado para os ensaios por Saulo e Jorge, deve haver, no dia oficial, algo do que foi visto neste treino.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Há mais de 30 anos dançando juntos, Claudinho e Selminha Sorriso sempre surpreendem e mostram que a tradição também é resultado do trabalho. Selminha de Oxum na Sapucaí foi um acontecimento e parecia incorporada, com seus giros, rodopios e movimentos extremamente inseridos na homenagem. Claudinho flutuava enquanto cortejava a porta-bandeira, sempre com uma postura ímpar, movimentos precisos e intensidade bem controlada dentro das características do casal, mantendo qualidade e respeitando a ancestralidade que a fantasia da dupla pedia.
O samba era bem marcado pelos movimentos de ambos. Destaque para o uso do espelho de Oxum por parte de Selminha, que, além de tudo o que representa na espiritualidade do personagem, produziu um ótimo efeito na dança e na coreografia. Destaque também para a saia dourada da porta-bandeira, de muito bom gosto e leveza, produzindo movimentos e acentuando visualmente os giros de Selminha. Tudo muito bem pensado em uma coreografia que arrancou aplausos e gerou frisson ao final.

HARMONIA E SAMBA
Com a responsabilidade de substituir ninguém menos que Neguinho da Beija-Flor, a dupla Nino do Milênio e Jéssica Martin mais uma vez mostrou força e entrosamento. Jéssica é uma das melhores notícias deste carnaval. Como voz principal pela primeira vez, tem se destacado e se imposto em um cargo que, infelizmente, no carnaval ainda é muito masculino, apesar da enormidade de talentos femininos. Com seu desempenho, Jéssica pode abrir novas portas. Vale também uma importante consideração sobre Nino: experiente no cargo e no Grupo Especial, tem sido generoso e trabalhado para que a dupla entregue muito para a Beija-Flor, sem vaidade, mas com excelente musicalidade, o que vem se refletindo na resposta do componente.
A Beija-Flor sempre foi um rolo compressor em diversos aspectos, especialmente na harmonia e no canto da comunidade, e isso não se perdeu nem nos momentos de menor brilho nos últimos anos, tendo sido fundamental no título do ano passado — e pode ser novamente. O ensaio mostrou isso. O samba, feito a partir de uma junção, é certamente uma das melhores obras deste carnaval, com tudo o que o enredo pede: negritude, religiosidade, dendê, molho e ritmo. Com dois refrões fortes, a música ainda conta com um bis muito cantado antes do refrão principal, em “Atabaque ecoou, liberdade que retumba, isso aqui vai virar macumba”. Na cabeça, “Ê-ê João de Obá, griô sagrado…” também se destaca e traz a possibilidade de algumas convenções para a bateria. Já na parte de baixo, em “o povo gira no xirê, a celebrar”, há um ótimo trabalho das cordas, com um arranjo bem praiano. Nada a se colocar sobre a harmonia e a obra.

EVOLUÇÃO
A Avenida se coloriu em um bonito tapete com a escola, que se vestiu muito bem para este último treino. Como é bom ver a Beija-Flor mostrando trabalho árduo nos ensaios de quinta-feira e no trabalho ala a ala. Ótima interação com o público, alas dançantes e coreografias pertinentes, como uma ala logo no início que nos remeteu a 2001, naquela icônica ala das pretas-velhas de Agotime. Outras, como a ala logo após o segundo carro, traziam lenços nas mãos e faziam trocas de posição, sempre dançando, mostrando alegria e sincronia, além da ala com bastões que vinha logo atrás.

Tudo muito bem ensaiado, lembrando os bons tempos com o saudoso Laíla, que sempre levava à Avenida um espetáculo com a galera de Nilópolis. Rolo compressor, evolução cadenciada, sem apresentar erros aparentes, como buracos ou alas atropelando seus espaços. Pelo contrário, tudo muito organizado e bem pensado. A escola ainda “tirou onda”: sem correr, chegou com bastante tempo no final para a Soberana ainda se apresentar nos últimos setores. A Deusa da Passarela retoma suas características com muita força.

OUTROS DESTAQUES

A rainha Lorena Raissa estava deslumbrante com a fantasia definida em suas redes como “põe erva para defumar”, em tons de prateado e branco, contrastando com o azul de algumas pedras preciosas. O samba no pé da “cria” de Nilópolis está sempre em dia, e neste ensaio não foi diferente. A bateria Soberana, dos mestres Rodney e Plínio, promoveu o “paradão”, já tão característico dos ensaios técnicos da escola, em que a bateria deixa por um bom tempo apenas a escola cantando, sempre um momento de muita vibração que levanta o público. O samba campeão de 2025 não poderia faltar no esquenta, com a escola mais uma vez invocando Laíla. Na introdução do samba, mais uma vez, surgiram músicas do cancioneiro baiano, como “Ê Baiana”, de Clara Nunes, e “Marinheiro Só”, de Caetano Veloso.










