O Império Serrano transformou a Sapucaí em uma grande casa do saber no segundo dia de desfiles da Série Ouro do Carnaval carioca. Fechando a homenagem a Conceição Evaristo, uma das maiores escritoras do Brasil, veio o carro alegórico mais impactante da apresentação. Intitulado “Casa de Preto Também é Academia”, ele transformou a chamada “Casa Escrevivência” em um imponente palácio da intelectualidade.

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Detalhes da alegoria

A alegoria trouxe a escultura de uma menina negra sobre uma motocicleta, empunhando uma caneta como arma e avançando sobre a figura de um homem branco e rico, que representa a classe média alta como o “monstro”. O carro enfatiza a mensagem de que a periferia e o samba também são lugares de saber acadêmico.

A caneta erguida pela menina não é apenas um instrumento de criação literária, mas o símbolo da vitória coletiva de toda uma população que é estigmatizada como ignorante.
Grandes nomes da cultura, da política e da academia brasileira estavam na alegoria, como a prima da homenageada e ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo. Ela destacou o alcance político do desfile.

“Casa de Preto também é academia, está na letra desse samba-enredo. Eu acho que toda a pedagogia política que a Conceição Evaristo faz por meio da literatura exalta o grande potencial da periferia, porque, muitas vezes, as pessoas só enxergam as favelas e os povos de comunidades tradicionais como um lugar de falta. Eu acho que ela vem exatamente exaltar esse lugar da potência, da inventividade, da criatividade, e ao mesmo tempo que ela não deixa em segundo plano a denúncia da desigualdade da população negra. Eu acredito que esse carro mostra bem isso, a potência da coletividade negra, já que é um carro que vem com pessoas aqui de todas as áreas, de todos os aspectos do saber”, pontuou a ministra.

Prima de Conceicao e ministra Macae Evaristo
Prima de Conceição e ministra Macaé Evaristo
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Ao comentar a frase “a gente combinamos de não morrer”, de Conceição Evaristo, que é um dos destaques da parte de trás do carro, Macaé reforçou o sentido simbólico de estar ali: “É um pacto de sobrevivência que não é individual. Ele vem da luta e do exercício de uma vida coletiva”.

Rosemery Santana de 77 anos integrante do Departamento Feminino da escola
Rosemery Santana, de 77 anos, integrante do Departamento Feminino da escola
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Rosemery Santana, de 77 anos, integrante do Departamento Feminino da escola, pontuou o fato da alegoria ressaltar o poder intelectual feminino.

“Ele está exaltando o poder de uma escritora maravilhosa, já que faz referência ao livro dela. Essa representatividade na Avenida é um novo passo para a visibilidade mundial de todas nós, mulheres negras que vencemos nesse âmbito”, diz.

A jornalista Eliana Alves Cruz
A jornalista Eliana Alves Cruz
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

A jornalista e escritora brasileira Eliana Alves Cruz comentou a emoção de vir ao lado de figuras femininas importantes.

“É muito emocionante vir aqui do lado da Ainá Evaristo (Filha de Evaristo). Todas mulheres e figuras importantes desse carro são incríveis. Eu acho que o Império vai fazer um filme histórico”, pontua.

Osvaldo Barao de 82 anos
Osvaldo Barão, de 82 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Componente da ala dos cabelos brancos da velha guarda, Osvaldo Barão, de 82 anos, também celebrou a mensagem do poder feminino e comentou a escultura presente na alegoria:
“Significa que ela venceu. Ela é resistência. Nós estamos torcendo por isso. O nosso enredo é sobre isso, o poder da mulher. A Evaristo é uma mulher de raça”.

Ele também não deixou de falar da garra que o povo preto tem para ocupar todos os lugares, associando com a força do Reizinho de Madureira.

“Nós somos negritude, somos imposição. Império Serrano é luta, é raça e nós vamos ganhar esse carnaval. Nós somos da velha guarda, da ala dos cabelos brancos da velha guarda da escola. Quarenta anos de ala. Nós somos resistentes”.