Estreando na Vila Isabel em 2026, a dupla Leonardo Bora e Gabriel Haddad conseguiu imprimir suas características únicas de desfile, combinando com a plástica do artista e com a ancestralidade resgatada da Vila Isabel. Kizomba era invocada imageticamente em diversos pontos do desfile. O samba, joia da safra, mas que chegou a gerar dúvidas no pré-carnaval, passou de forma muito potente. Casal e comissão também fizeram apresentações corretas e com pontos muito altos. A escola cantou, e o enredo passou de forma muito clara. O único ponto foi um problema de buraco no último setor, que deve gerar despontuação, mas sendo uma nota de descarte.

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Fotos: Allan duffes/CARNAVALESCO

Com o enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”, a Vila Isabel foi a segunda escola a pisar na Sapucaí na última noite de desfiles do Grupo Especial, com o tempo de 78 minutos.

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Alex Neoral e Márcio Jahú, a comissão traduziu poeticamente o argumento central do enredo, que é a mistura entre samba e macumba, sob os olhos encantados de Heitor dos Prazeres. De início, os componentes vestidos com as roupas de carnaval dos antigos ranchos, as mulheres com vestidos brancos e os homens com batas e capas. E Heitor, de chapéu de malandro, no meio. Heitor subia no elemento alegórico, cujo conceito estético evocava os fazeres do artista, com peças de marcenaria, objetos afetivos e estruturas de ferro aparente, mas, dentro da proposta, tudo pintado à mão. Deu-se a transformação de um ateliê, o íntimo e infinito universo do artista sonhador, em um terreiro.

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Os componentes também tinham as cores de suas roupas transformadas, começando a pintar o colorido de Heitor. Depois, uma enorme paleta surge com toda a iluminação, enquanto os componentes trocam de roupa mais uma vez, constituindo-se em ogãs. Nos buracos da paleta surgem tambores, e os ogãs tocam, com cada couro mudando de cor através da iluminação. No final, surge a coroa da Vila Isabel. Comissão bem conceituada e bem executada. Ótimo uso do elemento cenográfico, que se transformava diversas vezes. Bailado no chão excelente e proposta do enredo bem contada.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Em seu retorno à escola, Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane representavam Oxum e Xangô, santos de cabeça de Heitor dos Prazeres e forças que guiaram a sua trajetória, conforme narrado por seus familiares. Simbolizavam, também, o encontro entre a Vila Isabel, pelo pavilhão desfraldado, e o homenageado, já que ambos os orixás têm fortes vínculos com a escola: Oxum, representada pela porta-bandeira Dandara, com saia adornada por espelhos (abebês) e pincéis; e Xangô, representado por Raphael, com elementos associados às divindades representadas, ressignificando-os a partir do diálogo com referências específicas ao universo temático de Heitor, daí o porquê da presença dos pincéis, que simbolicamente coloriram de ouro as penas e as estampas que compõem as vestes.

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Em sua coreografia, a dupla começou desfraldando o pavilhão e fazendo mesuras e o cortejo do mestre-sala. Em seguida, Dandara começou a fazer os giros em um pequeno espaço de tempo, realizando quase 20 rodopios, finalizando com uma bandeirada. Enquanto isso, o mestre-sala fazia seus riscados, utilizando muito bem o espaço de apresentação. Depois, Raphael fez seu riscado virado para o júri. Em seguida, uma sequência de giros sincronizados dos dois e mais uma bandeirada de Dandara. E o plus: no refrão final, o passo afro de Raphael, dançando para os orixás. Apresentações irretocáveis nas cabines e sem intercorrências.

ENREDO

Leonardo Bora e Gabriel Haddad trouxeram para a Sapucaí a obra do multiartista Heitor dos Prazeres a partir do sonho. A proposta não foi trazer o sonho referindo-se a uma experiência do dormir, mas a um modo de fabular o mundo a partir da vida cotidiana, da festa, da fé e das experiências coletivas. Essa compreensão aproximou a obra de Heitor dos Prazeres da própria lógica das escolas de samba, entendidas como espaço de imaginação compartilhada, celebração da ancestralidade e afirmação da identidade negra. O desfile foi aberto com a infância de Heitor dos Prazeres entre os ranchos carnavalescos ligados às casas de Tia Ciata e Tio Hilário.

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O brilho desses cortejos, observado ainda menino, antecipou o artista, o brincante e o sujeito do samba que ele se tornaria. O segundo setor mostrou Heitor sendo iniciado nos terreiros e passando a frequentar especialmente a casa de Tia Ciata, onde se torna ogã, responsável pelos tambores e pelo canto. Nesse espaço, diferentes manifestações culturais, cirandas, jongos, maracatus, cateretês, se encontraram, formando o caldo que daria origem ao samba. Em seguida, a escola mostrou a troca do piano pelo cavaquinho, que marca a afirmação de Heitor como sambista nos anos 1920. Entre a Festa da Penha, disputas de autoria e circulação pela cidade, ele foi se consolidando como compositor, músico e personagem central do universo do samba.

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O setor apresentou também o modo de vida boêmio, a confecção e pintura dos próprios instrumentos, a noite carioca, os cabarés e as paixões que atravessam sua trajetória artística. Depois, a Vila colocou o homenageado se afirmando como compositor de carnaval, vencendo o concurso de Zé Espinguela em 1928 e convivendo com figuras como Paulo da Portela, Cartola e outros fundadores das primeiras escolas de samba. O último quadro do desfile apresentou Heitor como artista reconhecido além do samba: cenógrafo, figurinista, radialista, compositor de trilhas, participante da primeira Bienal de São Paulo e representante brasileiro no Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, em Dakar. Nesse ponto, sua trajetória se cruzou com a da própria Vila Isabel. Em 1966, ambos chegaram ao Senegal levando seus filmes — Heitor dos Prazeres e Nossa Escola de Samba, registro do carnaval que levou a escola ao Grupo Especial. Enredo bem estruturado, com boa leitura, criativo e que conseguiu trazer para a Avenida, com justiça, a vida e a obra de um multiartista.

EVOLUÇÃO

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A evolução da Vila foi quase perfeita. Com muita desenvoltura pela pista, a escola empreendeu um ritmo muito forte desde os primeiros minutos de animação, com muitos componentes pulando, mesmo com as fantasias com volumetria característica de Gabriel Haddad e Leonardo Bora. Sem optar muito por alas coreografadas, mas fazendo um trabalho muito organizado na pista, a Vila só teve um senão neste desfile. Abriu buraco na pista no último setor, bem na frente do módulo, quando o quarto carro demorou a se movimentar e a ala bem à frente foi embora. Deve ser despontuada, mas foi o único módulo e a única questão encontrada neste quesito pela equipe do CARNAVALESCO, o que significa que, sendo em um módulo só, deve ser descartada. Nos outros módulos, nenhum problema foi encontrado.

HARMONIA

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O carro de som comandado por Tinga, depois de estar um pouco mais abaixo nos últimos carnavais, aproveitou muito bem o samba tão festejado no pré-carnaval e teve uma atuação digna dos melhores tempos, mostrando que o intérprete e suas vozes de apoio são patrimônio do carnaval carioca. De forma bem clássica, o trabalho foi pautado na potência e na correção, sem muitas figuras; as vozes apenas aproveitaram para colocar o samba bem assentado. Tinga, a todo momento, convocava o componente e também o público a cantar a obra. Fizeram isso de forma excelente, dando protagonismo ao samba e aos componentes. E a comunidade cantou muito, o tempo todo. Excelência e potência no quesito.

SAMBA-ENREDO

A Vila Isabel trouxe para a Avenida o celebrado samba dos compositores André Diniz, Evandro Bocão e Arlindinho Cruz. A cabeça do samba é diferente, com notas mais retas, o que dá todo charme, lembrando as obras de Martinho da Vila e também sambas de roda, como no trecho “Macumba é samba e o samba é macumba / pode até fazer macumba / só não pode separar” e depois novamente no trecho posterior até “florescer”. Esse recurso deu charme à obra e lhe conferiu caráter único na safra.

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No refrão principal, mestre Macaco Branco colocou toque para os orixás, com o ijexá para Oxum e o alá para Xangô, além de uma bossa de pegada afro na cabeça do samba. Também houve a bossa de tambor no refrão principal, que estimulava mostrar o canto do componente. Alto rendimento de um samba que foi festejado quando escolhido; depois, duvidaram no pré-carnaval, mas que fez uma apresentação de alto nível na Sapucaí. O andamento mais à frente não estragou a personalidade do samba; ao contrário, conferiu-lhe a energia que uma obra como o samba-enredo precisa ter para inflamar a Sapucaí.

FANTASIAS

O conjunto estético da Vila Isabel mostrou muito da característica de Bora e Haddad, sendo muito fiel imageticamente à característica intrínseca da Vila Isabel e também trazendo o colorido de Heitor. Todas as fantasias tinham muito da paleta de cores do artista, sem se tornar chato, monótono ou monocromático. Trabalho de alto nível da dupla, com marcas que já são deles, como criatividade nos figurinos e utilização de alas com dois tipos de vestimentas. A escola abriu o desfile com suas cores em azul e branco, com uma pitada de dourado nas alas “Pedaço Baiano” e “Novos Ranchos”. O segundo setor começou a trazer o colorido de Heitor, mas ainda abordando uma estética mais do início do século, passando por alas como “Cirandas” e “Cateretês”, e afro, com o uso de palha ao falar da iniciação do homenageado nos terreiros.

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Fechando o setor em dourado, com velas nos chapéus, as baianas. O terceiro setor trouxe uma escola ainda mais colorida, colocando muito do azul e referências à música, como notas, claves e imagens de instrumentos. A ala “Samba que nem passarinho” trazia balões coloridos. O quarto setor trouxe estética clássica carnavalesca ao citar os sambas que Heitor ganhou, como a ala “Invenção de Bandeira”, que trazia pavilhões de escolas de samba, e a ala “Me Vesti de Baiana”, que trazia os antigos estandartes. Outra vez, um setor muito colorido. No último setor, as fantasias traziam algumas referências aos outros talentos, como vitrolas. E, mais para o final, referências mais afro ao retratar sua relação com a África. Daí voltam os tons de palha, como na ala “Sambas, Sambas, Macumbas”. O único ponto a ser citado foi a dificuldade de algumas baianas com chapéus que pareciam que iam sair, mas foram consertados pelos apoios de harmonia.

ALEGORIAS

O conjunto alegórico levado à Sapucaí por Gabriel Haddad e Leonardo Bora constituiu-se de cinco carros e três tripés. Muito característico da dupla, com muito volume de composições, mas também com estética que conseguia trazer Heitor, sua arte e a ancestralidade da Vila. Alguns pontos a serem citados foram um balaústre não muito bem encaixado no abre-alas, que não chegou a comprometer a alegoria. O abre-alas, aliás, representou um rancho, com a tradição carnavalesca, apresentando-se como o cenário que Heitor via quando criança, desfilando nos ranchos.

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A alegoria tinha todo um trabalho artesanal que envolvia diferentes frentes de criação, como escultura, carpintaria, pintura e produção de joias cenográficas. Com efeitos de água e esculturas de muito apuro estético, nos tons da escola, mas bem assentado no dourado e no estilo barroco, foi um dos carros mais bonitos que passou pela Sapucaí nesta noite. O segundo carro constituiu-se em um terreiro que se expandia como metáfora da própria cidade: a cidade como grande terreiro, onde música, religiosidade e convivência se misturam. A alegoria, a partir dessa ideia, assumiu teor onírico, com a figura-síntese de um casal de pretos-velhos. A festa da macumba continuou no segundo andar do carro e se espalhava pelas laterais, onde se viam os orixás paramentados, além de macumbeiros cujas roupas, cores e formas eram inspiradas nos traços de Heitor. Composições vinham tocando tambores.

Na terceira alegoria, “A Festa da Penha”, local em que o homenageado se tornou um sambista reconhecido e aclamado, o carro ganhou contornos amenos e românticos, quase circenses, evocando o colorido das pinturas de Heitor que retratavam serenatas, feiras, saraus e rodas de samba. Na parte traseira, havia um botequim. Em cima, o retrato da Igreja da Penha e balões coloridos.

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O quarto carro trouxe o perfume dos antigos carnavais por meio de um sonho nostálgico. A alegoria apresentou uma auto-homenagem, uma vez que se tratava da quadra da escola do bairro de Noel, no Boulevard 28 de Setembro, localizada em uma antiga estação de bondes. Na frente, o pulsante bonde da Vila e, na parte de trás, a presença do gigantesco pierrô, menção à mais conhecida das marchinhas de Heitor.

A última alegoria do desfile da Unidos de Vila Isabel celebrou o encontro de Heitor dos Prazeres, e da própria Vila, com as muitas Áfricas que coexistem no imenso território africano, algo possibilitado graças à ida de Heitor ao Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, realizado em Dakar, no Senegal. No carro, que fundiu a estética do quilombo e da favela, havia uma escultura que segura lanças-pincéis, representando a altivez de Heitor, artista e ativista à frente de seu tempo, uma adaptação carnavalesca dos bustos de bronze e terracota iorubanos, originários de Ifé, na Nigéria. Tapeçarias bakuba e referências a diferentes nações africanas vieram na parte frontal do carro, compondo uma visão majestosa. Na parte superior, o símbolo do festival se fundiu aos pensadores angolanos, imagem utilizada no antológico Kizomba. Referências à Kizomba.

OUTROS DESTAQUES

A “Swingueira de Noel”, de mestre Macaco Branco, veio de “Pintores”, com pintura artesanal na fantasia e com os chapéus de cores diferentes, e a rainha Sabrina Sato representou as tintas que dão cores aos sonhos pintados por Heitor dos Prazeres. A ala de passistas veio com a fantasia “Jogo e Sedução”, representando de forma boêmia o bairro de Noel Rosa e da própria escola, no universo frequentado e retratado por Heitor dos Prazeres.

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No esquenta da Vila, Tinga cantou “Zé do Caroço” e o samba de exaltação “Sou da Vila Não Tem Jeito”. As baianas representavam, por um lado, a fusão de referências culturais que transformaram os pandeiros em símbolo de brasilidade; e, por outro, a relação de Heitor dos Prazeres, o ogã Alabê-Nilu, com o matriarcado dos terreiros. Martinho da Vila veio mais uma vez no início da escola, no Pede Passagem, “Assentando o Fundamento”.