A União da Ilha do Governador desfilou na noite da última sexta-feira, na Marquês de Sapucaí, pela Série Ouro, sendo a sexta agremiação a cruzar a Avenida. Com o enredo “Viva o Hoje! O Amanhã? Fica pra depois”, desenvolvido pelo carnavalesco Marcus Ferreira, a escola levou para a pista uma reflexão sobre tempo, memória e celebração da vida. Em disputa por uma vaga no Grupo Especial para 2027, a tricolor insulana apostou na emoção e no inusitado. Entre os destaques, a Ala 14, dos compositores, chamou atenção pela ousadia estética e simbólica.
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Batizada de “Chorões na Cine-Ouvidor”, a ala representou o encontro entre o chorinho, expressão musical do início do século passado e o nascimento da sétima arte no Rio de Janeiro. A referência ao histórico Cine Ouvidor resgatou o impacto cultural provocado pela chegada do cinema à cidade em 1910, no mesmo contexto da passagem do Cometa Halley. Na Avenida, os poetas insulanos encarnaram personagens cômicos, misturando samba e humor físico. A imagem era poderosa: a ala de compositores do samba caracterizados como ícones do cinema mudo.
Em vez do tradicional terno, os compositores surgiram caracterizados como Charles Chaplin, eternizado pelo personagem Carlitos. A fantasia reforçou o diálogo entre música e cinema, entre o som vibrante do samba-enredo e a estética silenciosa da comédia clássica. “Vir vestido de Chaplin tem tudo a ver com o enredo, ainda mais vir encarnado de Charles que é uma figura antológica. Fico muito emocionado e feliz quando vejo essa arquibancada lotada, lembro dos áureos tempos da União da Ilha, quando ela chegava e o povo vinha junto”, afirma Acelídio Silva, 70 anos, aposentado. Ele conta ainda que já cometeu várias loucuras pela escola, tantas que não consegue enumerar.

Para quem estreia na ala, a emoção ganha contornos ainda mais intensos. “Está sendo uma experiência maravilhosa, porque é a primeira vez que desfilo na ala dos compositores. Passam vários filmes ao ver a arquibancada lotada. Eu amo Charles Chaplin e amo a minha Ilha”, conta Angila Nunes, 53 anos, técnica de enfermagem.
A entrega à escola atravessa décadas e gerações. “É arrepiante, um momento mágico. Desfilo há uns 20 anos e todo ano é assim. Minha maior loucura pela Ilha foi assim que meu filho nasceu, levá-lo para quadra com dois meses de idade apenas. É um filme de muita alegria, União da Ilha nas cabeças e vamos subir”, fala Márcia Almgren, 45 anos, administradora. Histórias como essa evidenciam que o pertencimento não se limita ao desfile, mas se constrói no cotidiano e na herança cultural transmitida dentro das famílias.
A médica Cassandra Pisco, 40 anos, também associa o enredo a uma reflexão contemporânea. “Já viajei com a União da Ilha três dias de ônibus para representar a escola lá na Argentina, há uns dez anos atrás, desfilo já tem treze anos”. Sobre o filme que passa em sua cabeça, ela afirma: “Tendo como base o nosso enredo que é pra gente viver o hoje e fazendo um contraponto com a nossa realidade atual é ‘Tempos Modernos’, que fala muito da questão que a gente é uma máquina, só vive em prol do trabalho, da forma que a gente é tratado, a gente não tá vivendo mais, só sobrevivendo”.
Ao encarnar um ícone do cinema mudo e, ao mesmo tempo, cantar samba-enredo a plenos pulmões, a ala sintetizou o espírito do desfile. “É um orgulho poder dar voz não só a esse personagem, mas para refletirmos também que não somos máquinas, somos humanos, o quanto a gente ainda precisa dessa vivência, experimentar e representar a nossa cultura nacional”, finaliza Cassandra. Em tempos acelerados, a Ilha escolheu celebrar o agora, com humor, crítica e paixão.









